Os Araweté são um povo tupi-guarani de caçadores e coletores da floresta de terra firme, que se deslocou há cerca de quarenta anos das cabeceiras do rio Bacajá, em direção ao rio Xingu, no Estado do Pará. O nome "Araweté", inventado por um sertanista da Funai, não significa nada na língua do grupo. O único termo que poderia ser considerado uma auto-denominação é bïde, que significa "nós", a "gente", os "seres humanos". Todos os humanos são bïde, mas os humanos por excelência são os Araweté: os outros povos indígenas e os brancos(kamarã) são awi, "estrangeiros" ou "inimigos".
Língua. A língua Araweté pertence
à grande família Tupi-Guarani. Não é uma língua
simples de se aprender: sua prosódia é fortemente nasal, o ritmo
é rápido, e há sons de difícil reprodução
pelos falantes nativos do português. A sintaxe e a morfologia são
bastante diferentes das línguas indo-européias: há várias
séries de pronomes pessoais, há aspectos verbais sem correspondente
diretos no português. Por outro lado, é fácil reconhecer
na língua araweté numerosas palavras que o tupi-guarani deixou
no português falado no Brasil, seja no vocabulário comum, seja
em falares regionais, seja nos topônimos (nomes de lugares).
A população araweté adulta é praticamente monolíngüe:
apenas os jovens nascidos pouco antes do contato ou após ele entendem
e falam algo do português. Dentro de alguns anos, entretanto, a maioria
dos Araweté será bilíngüe.
Localização. Os Araweté vivem
na região sul do estado do Pará, em uma só aldeia, às
margens do igarapé Ipixuna, afluente da margem direita do médio
rio Xingu. O Ipixuna é um rio de águas negras, encachoeirado,
que corre em um leito rochoso na direção sudeste/noroeste. A
vegetação dominante na bacia do Ipixuna é a floresta
aberta com palmeiras, onde as árvores raramente ultrapassam 25 metros.
Nos arredores da aldeia há extensas áreas de "mata de cipó",
onde lianas e plantas espinhosas tornam a caminhada difícil. O terreno
é pontilhado de irrupções graníticas que em seu
topo se cobrem de cactus, bromélias e agaves.
Os Araweté dizem viver agora "na beira da terra": sua tradição
fala de sucessivos deslocamentos a partir de algum lugar a leste (o centro
da terra), sempre em fuga diante de inimigos mais poderosos.
Tudo que é possível garantir é que eles moram há
muitos anos, talvez séculos, na região de florestas entre o
médio curso dos rios Xingu e Tocantins.
Os Araweté vivem na Terra Indígena Araweté/Igarapé
Ipixuna, no estado do Pará.
População. Em junho de 1999, os Araweté somavam 255 pessoas, quase o dobro do primeiro censo da Funai (120 índios) realizado em março de 1977, quando 36% da população contatada um ano antes, morrera em decorrência de ataques dos Parakanã e principalmente das doenças contraídas a partir do contato.
História do Contato. A história
dos Araweté tem sido, pelo menos desde o início do século,
uma história de sucessivos conflitos com tribos inimigas e de deslocamentos
constantes. Eles saíram do alto Bacajá devido a ataques dos
Kayapó e dos Parakanã. Por sua vez, ao chegarem ao Ipixuna
e demais rios da região (Bom Jardim, Piranhaquara), afugentaram os
Asurini ali estabelecidos, que acabaram se mudando para o rio Ipiaçava,
mais ao norte. Em 1970, com a construção da rodovia Transamazônica,
que passava por Altamira (a cidade mais próxima), o governo brasileiro
começou um trabalho de atração e pacificação
dos grupos indígenas do médio Xingu. Os Araweté começaram
a ser notados oficialmente em 1969. Em 1971 a Funai estabeleceu a Frente
de Atração do Ipixuna, que manteve contatos esporádicos
com os Araweté até 1974, sempre sem conseguir visitar suas
aldeias. Nesta época o grupo vivia dividido em dois blocos de aldeias,
um mais ao sul, na bacia do Bom Jardim, outro ao norte no alto Ipixuna.
Em janeiro de 1976, ataques dos Parakanã levaram os Araweté
de ambas as regiões a procurarem as margens do Xingu, resolvidos
a "amansarem" os brancos - pois eles não acham que foram
"pacificados" pelos brancos, mas sim o contrário. A Funai
veio encontrá-los lá em maio daquele mesmo ano, acampados
precariamente junto às roças de alguns camponeses, famintos
e já doentes devido ao contato com os brancos do beiradão
(que é como as terras da margem do Xingu são chamadas pela
população regional). Em julho, os sertanistas da Funai decidem
levar esta população doente e fraca em uma caminhada pela
mata até um posto que havia sido construído no alto Ipixuna,
próximo às antigas aldeias do grupo. Foi uma caminhada de
mais ou menos 100 km, que durou 17 dias: pelo menos 66 pessoas morreram
no percurso. Com os olhos fechados por uma conjuntivite infecciosa que haviam
contraído no "beiradão", as pessoas não enxergavam
o caminho, se perdiam na mata e morriam de fome; crianças pequenas,
subitamente órfãs, eram sacrificadas pelos adultos desesperados;
muita gente, fraca demais para caminhar, pedia para ser deixada morrer em
paz.
Não se sabe quantos começaram a caminhada, mas apenas 27 chegaram
junto com os sertanistas que lideravam a marcha; o restante veio chegando
aos poucos. Alguns índios se desviaram, no caminho, para as aldeias
antigas, ali permanecendo algumas semanas; mas um novo ataque dos Parakanã
fez toda a população araweté que sobreviveu à
caminhada e aos inimigos se juntar no Posto da Funai. Em março de
1977, o primeiro censo feito pela Funai contou 120 pessoas. Os Araweté
listaram o nome de 77 pessoas que desapareceram no período entre
sua chegada às margens do Xingu, em janeiro de 1976, e sua chegada
no posto velho, em julho daquele ano; três morreram no último
ataque parakanã: 73, portanto, foram vítimas do contato e
da desastrosa caminhada - 36% da população à época.
Em 1978, o grupo se mudou, juntamente com o Posto da Funai, para um sítio
mais próximo da foz do Ipixuna, onde reside até hoje.
Cultura Material. Os Araweté possuem uma cultura
material bastante simples, dentro do horizonte tupi-guarani. Isto se pode
explicar, em parte, pelo estado constante de alarme e fuga diante de inimigos
a que este povo esteve sujeito nas últimas décadas; em parte,
pelo trauma do contato.
Em sua simplicidade mesma, a cultura material dos Araweté não
permite uma aproximação com a de qualquer outro grupo tupi-guarani
em particular. A predominância absoluta do cultivo do milho sobre o
da mandioca também distingue os Araweté dos demais tupi-guarani
amazônicos.
Os homens têm barba espessa, que costumam deixar crescer em cavanhaque;
andam nus, com apenas um cordão amarrado no prepúcio. As mulheres
trazem um costume de quatro peças tubulares (cinta, saia, tipóia-blusa
e um pano de cabeça), tecido de algodão nativo e tingido de
urucum. Elas portam brincos feitos de peninhas de arara dispostas em forma
de flor, pendentes de enfiadas de semente de ciñã, bem
como colares desta mesma conta. Os homens usam os mesmos brincos, porém
mais curtos. O cabelo é cortado em franja reta na testa até
a altura das orelhas, de onde cresce até a nuca dos homens e a espádua
das mulheres.
A tintura e a cor básica dos Araweté é o vermelho-vivo
do urucum, com que cobrem os cabelos e o corpo, untando-os uniformemente.
No rosto, porém, podem traçar apenas uma linha horizontal na
altura das sobrancelhas, uma ao longo do nariz, e uma linha de cada orelha
às comissuras labiais. Este padrão é também usado
na decoração festiva, quando é traçado em resina
perfumada e recoberto com as penas minúsculas de cotingas de plumagem
azul brilhante. A plumagem do gavião-real é grudada nos cabelos.
O arco, o chocalho e as vestes femininas. Apesar
da austeridade material dos Araweté, eles fabricam três objetos
tecnicamente muito elaborados, e que além disto lhes são exclusivos:
o arco, o chocalho aray do pajé e a vestimenta feminina.
O arco araweté é feito de ipê, e é mais curto,
curvo e largo que a maioria dos arcos indígenas brasileiros. Cada tronco
de ipê pode servir à fabricação de vários
arcos. A madeira era trabalhada com ferramentas de osso e pedra (agora com
machados e facões de aço), e é aplainada com um formão
feito de dente de cotia, lixada com uma folha áspera até ficar
completamente lisa, e por fim cuidadosamente aquecida no fogo e vergada até
ganhar forma adequada. Usa-se o leite do coco-babaçu ou a gordura de
larvas que vivem nesta palmeira para tornar a madeira mais fácil de
curvar.A corda do arco é feita de fibra de curauá, uma bromeliácea
cultivada.
O chocalho aray de pajelança é um cone invertido trançado
de talas de arumã, recoberto de fios de algodão até deixar
apenas a parte superior - que é a base do cone - exposta. Um floco
de algodão forma um "colarinho" em volta da parte descoberta;
ali se inserem quatro ou cinco penas caudais de arara vermelha, dando ao objeto
a aparência de uma tocha flamejante. Pedaços de conchas de um
caramujo do mato são colocados dentro do cone trançado. O aray
produz um som chiante e contínuo; ele é usado pelos pajés
para acompanhar os cantos ée para realizar uma série de operações
místicas e terapêuticas: trazer os deuses e almas dos mortos
à terra para participarem das festas, reconduzir a alma perdida de
pessoas doentes, ajudar no tratamento de ferimentos e picadas de animais venenosos.
Durante a fabricação do arco, um homem não deve ter relações
sexuais com a esposa, ou a peça de madeira quebrará. O chocalho,
em troca, tem seu corpo de arumã trançado pelas mulheres, e
a cobertura de algodão imposta pelos homens. Mas, uma vez pronto, o aray não pode ser usado pelas mulheres; instrumento muito poderoso,
ele evoca os Maï, que poderiam quebrar o pescoço da mulher
que ousasse chamá-los nesta sociedade. Só os homens são
pajés.
O aray é o único objeto de propriedade masculina que
não pode ser herdado por ninguém; após a morte de seu
possuidor, ele deve ser queimado. Dotado de valores simbólicos profundos,
ele é um objeto pessoal e intransferível.
Este caráter sexualmente marcado, pessoal e íntimo do aray
tem um análogo entre os objetos femininos: a cinta interna, usada por
todas as mulheres após a puberdade, também não pode ser
herdada por ninguém, ao contrário das peças externas.
A roupa tradicional das mulheres araweté é composta de quatro
peças: cinta, pequena peça tubular de lona grossa de algodão
de cerca de 25 cm de comprimento, que cobre o púbis e a parte superior
das coxas, cingindo-as estreitamente e dando às mulheres um andar peculiar;
uma saia de cima, de trama mais aberta; uma larga tipóia para carregar
as crianças, mas que é usada mesmo por jovens sem filhos; e
um pano de cabeça, peça tubular como as demais vestimentas femininas,
com a mesma trama aberta da saia e da tipóia. As vestes femininas são
tecidas em teares simples - dois talos de folhas de babaçu fincados
perpendicularmente no chão - e tingidas com urucum. Elas consomem uma
grande quantidade de algodão; assim como os homens passam boa parte
de seu tempo fabricando e reparando suas armas, as mulheres dedicam muitas
horas do dia ao processo de produção dos fios de algodão
para as roupas e as redes. Há sempre alguém na aldeia tecendo
uma peça de roupa ou rede.
Desde pequenas as mulheres usam a saia externa; por volta dos sete anos, costumam
trazer também a tipóia e por vezes o pano de cabeça.
A cinta é imposta a partir da primeira menstruação -
uma de suas funções é absorver o sangue menstrual -,
e nunca deve ser retirada na frente de outros homens que não o marido
ou o namorado, e mesmo assim apenas para o ato sexual. Mesmo entre as mulheres,
as normas do pudor pedem que não se fique ereta sem estar usando a
cinta: no banho coletivo das mulheres, estas ficam em geral agachadas, quando
estão fora d´água. Os homens manifestam um pudor análago
em retirar o cordão do prepúcio diante de outrem: a nudez para
os Araweté é, assim, a ausência da cinta feminina ou do
cordão peniano.
Trabalho na floresta e na aldeia. A vida social e
econômica dos Araweté bate em compasso binário: floresta
e aldeia, caça e agricultura, chuva e seca, dispersão e concentração.
Nas primeiras chuvas de novembro-dezembro, planta-se a roça de milho.
À medida que cada família termina de plantar, vai abandonando
a aldeia pela mata, onde ficará até que o milho esteja em ponto
de colheita - um período de cerca de três meses. Os homens caçam,
estocam jaboti, tiram mel; as mulheres coletam castanha do Pará, coco-babaçu,
larvas, frutas, torram o pouco milho velho da colheita anterior que trouxeram.
Esta fase de dispersão é chamada de awacï mo-tiarã
"fazer amadurecer o milho" - diz-se que, caso não se vá
para a mata, o milho não vinga.
Em fevereiro e março, após várias viagens de inspeção
às roças, alguém finalmente traz os cabelos do milho
verde ao acampamento, mostrando a maturidade da planta. Faz-se aí a
última grande pajelança do jabuti - atividade típica
da estação chuvosa - e a primeira grande dança opirahe,
característica da fase aldeã que está para se iniciar.
Este é o "tempo do milho verde", o começo do ano araweté.
Apenas quando todas as famílias já chegaram na aldeia se faz
a primeira pajelança de cauim (minguau de milho) doce, a que outras
se seguem. O milho de cada festa é colhido coletivamente na roça
de uma família, mas processado por cada unidade residencial da aldeia.
Esta é também uma época em que as mulheres preparam grandes
quantidades de urucum, dando à aldeia uma tonalidade avermelhada geral.
A partir de abril-maio as chuvas diminuem, e se estabiliza a fase da vida
aldeã, marcada pela faina incessante de processamento do milho maduro,
que fornece a paçoca mepi, base da dieta da estação
seca.
De junho até outubro estende-se a estação do cauim alcoólico,
que recebe o nome de "tempo do cauim azedo". É o auge da
seca. As noites são animadas pelas danças opirahe, que
se intensificam durante as semanas em que se prepara o cauim. Esta bebida
é produzida por uma família ou seção residencial,
com o milho de sua própria roça. Pode haver vários festins
durante a estação seca, oferecidos por diferentes famílias.
Eles costumavam reunir mais de uma aldeia (quando os Araweté possuíam
diferentes grupos locais) e ainda são o momento culminante da sociabilidade.
A festa do cauim alcoólico é uma grande dança opirahe
noturna em que os homens, servidos pela família anfitriã, dançam
e cantam até o dia seguinte.
Na fase final de fermentação da bebida (o processo todo dura
uns vinte dias) os homens saem para uma caçada coletiva. Retornam uma
semana depois, trazendo muita carne moqueada, o que os dispensará de
caçar por vários dias. Na véspera da chegada dos caçadores
há uma sessão de descida dos Maï e das almas dos
mortos, trazidos por um pajé para provarem do cauim.
A partir de julho-agosto começam a aumentar a frequência e a
duração dos movimentos de dispersão. As famílias
se mudam para as roças, mesmo que estas não distem muito da
aldeia, e ali acampam por uma quinzena ou mais. É a estação
de "quebrar o milho", quando se colhe todo milho ainda no pé
e se o armazena em grandes cestos, depositados sobre jiraus na periferia das
roças. Dali as famílias vão se abastecendo até
o final da estação seca quando os cestos restantes são
levados para o novo sítio de plantio.
Essa temporada na roça reúne em cada acampamento mais de uma
família conjugal - seja porque a roça pertence a uma seção
residencial, seja porque os donos de roças próximas decidem
acampar juntos. Durante a quebra do milho, os homens saem todos os dias para
caçar, enquanto as mulheres e crianças colhem as espigas, fazem
farinha, tecem; esta é também a época da colheita do
algodão.
A partir de setembro, a estação do cauim começa a dar
lugar ao tempo do açaí e do mel. A chegada dos espíritos
Iaraci, o "comedor de açaí", e Ayaraetã,
"pai do mel", trazidos às aldeias pelos pajés, provoca
a dispersão de todos para a mata em busca dos produtos associados a
estes espíritos.
Em outubro-novembro, com as águas dos rios em seu nível mais
baixo, fazem-se as pescarias com timbó, que também levam à
fragmentação da aldeia em grupos menores.
A dispersão criada por todas estas atividades de coleta e pesca é
mais uma vez, contrabalançada pelas exigências do milho.
Em setembro começa a derrubada das roças novas; no final de
outrubro, a queimada; e logo nas primeiras chuvas de novembro, dezembro, o
plantio, logo antes da dispersão das chuvas. Antes de partirem para
a mata, colhe-se mandioca, cuja farinha servirá de complemento à
caça e ao mel da dieta da mata.
Este é o ciclo anual araweté: um constante oscilar entre a aldeia
e a floresta, a agricultura e a caça-coleta, a estação
seca e a chuvosa. A vida na aldeia está sob o signo do milho, e de
seu produto mais elaborado, o cauim alcoólico; a vida na mata está
sob o signo do jabuti e do mel.
Excertos do livro de Eduardo Viveiros de Castro,
Araweté Povo do Ipixuna, CEDI/ISA, São Paulo, 1992.
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