Nome. Os Javaé são um dos três subgrupos em que se dividem os índios Karajá. Os outros dois são os Karajá propriamente ditos e os Xambioá. A palavra Javaé, provavelmente de origem tupi-guarani, não pertence à língua que eles falam. Inÿ, a autodenominação geral dos três subgrupos, quer dizer "gente", "ser humano", mas os Javaé e os Karajá também autodenominam-se Itya Mahãdu, "o Povo do Meio".

Língua. Os três subgrupos são culturalmente semelhantes, embora haja algumas diferenças, e falam a língua Karajá, com algumas variações dialetais, pertencente ao tronco linguístico Macro-Jê. Ela é bem diferente de qualquer outra língua do mesmo tronco. A língua nativa ainda é o principal meio de comunicação entre os Javaé. Uma característica notável entre os Karajá como um todo é a diferenciação entre a fala das mulheres e crianças e a fala dos homens, feita através de alguns fonemas e expressões específicas para cada gênero, que é mais acentuada entre os Karajá propriamente ditos e expressa a forte divisão entre os papéis masculino e feminino. No que se refere à relação com a sociedade envolvente, todos os Javaé falam e entendem um mínimo de português.

Localização. Desde tempos imemoriais, os Karajá como um todo habitam o vale do rio Araguaia, até pouco tempo atrás considerado um dos rios mais piscosos do mundo. É o principal afluente do rio Tocantins e nasce na serra dos Caiapós, situada na divisa entre Goiás e Mato Grosso do Sul. Com seus 2.000 km de extensão, o Araguaia forma em seu médio curso a maior ilha fluvial do mundo, a de Bananal, no estado do Tocantins, junto à fronteira de Mato Grosso. Dona de uma biodiversidade única, a ilha é repleta de lagos e rios, tem cerca de 2.000.000 de hectares e é considerada pelos Karajá e Javaé como o lugar mítico de onde surgiram. Pode-se dizer que o rio Araguaia ocupa uma zona de transição entre as áreas de cerrado do planalto Central e a floresta Amazônica, representada pelas matas de grande porte que margeiam o rio, apesar do desmatamento crescente. A ilha do Bananal e as regiões inundáveis ao seu redor caracterizam-se pela vegetação de cerrado, em sua maior parte, e pelas matas-galeria, de menor porte, que margeiam os afluentes do Araguaia e do Javaés (braço do Araguaia que faz o lado oriental da ilha de Bananal). A principal característica climática da região é a alternância bem marcada entre a época das chuvas e cheias (de outubro a maio), quando o rio Araguaia e seus afluentes saem de seu leito e inundam a maior parte da ilha e vastas áreas ao seu redor, e a época da ausência de chuvas e esvaziamento gradativo dos rios (de junho a setembro). A cidade de Gurupi, no estado de Tocantins, é o maior centro urbano da região próxima aos Javaé, situada a 120 km de Canoanã, sua maior aldeia.
Os Karajá propriamente ditos sempre habitaram as margens do rio Araguaia, seja do lado oeste da ilha do Bananal ou no alto curso do rio, mais recentemente; os Xambioá ou "Karajá do Norte" associam-se ao baixo curso do rio, ou seja, ao norte do estado de Tocantins; os Javaé, por sua vez, segundo a tradição oral nativa e os primeiros registros históricos por escrito, costumavam viver no interior da iha do Bananal e ao longo do rio Javaés e seus afluentes até o início do século 20.
No que se refere à situação legal da terra indígena, em 1959, foi criado o Parque Nacional do Araguaia, destinado à preservação ambiental e correspondente à totalidade da Ilha do Bananal, com 2.000.000 ha. Em 1971, um novo decreto criou o Parque Indígena do Araguaia, que passou a dividir a área total da ilha com o Parque Nacional. Após algumas retificações, em 1980, o Decreto n° 84.844 alterou os limites dos parques e a área atual do Parque Indígena passou a ter 1.395.000 ha. O novo decreto deixou de fora da terra indígena a aldeia Boto Velho, dos índios Javaé. Em razão disso, a FUNAI interditou provisoriamente uma área de 145.080 ha ao redor da aldeia Javaé, em 1985, dentro da área do Parque Nacional do Araguaia, agora administrado pelo IBAMA, enquanto não se chega a uma resolução para o problema da aldeia Boto Velho. A área do Parque Indígena do Araguaia, sem a aldeia Boto Velho, começou a ser demarcada pela FUNAI no início de 1998, foi homologada em abril do mesmo ano e registrada em seguida. Tem 1.358.499 ha de superfície e 943 km de perímetro..

População. Os Javaé eram 650 pessoas em 1939, segundo o antropólogo americano William Lipkind, época que coincide com o início de um contato mais contínuo dos Javaé com a sociedade envolvente. Quarenta anos depois, em 1979, o antropólogo brasileiro André Toral contou apenas 350 pessoas, um número que mostra a drástica redução populacional ocorrida após o contato. Atualmente os Javaé têm uma população de 850 pessoas (FUNAI, 1999).

História do contato. A história oral Javaé menciona uma longa série de conflitos e guerras com os Xavante e Kayapó, seus tradicionais vizinhos, que não mais ocorrem há várias décadas; com os Avá-Canoeiro, que, expulsos de seu território de origem, tornaram-se inimigos dos Javaé mais recentemente, ao perambular pela região do médio Araguaia; e ainda com vários outros grupos já extintos e sem identificação na língua portuguesa. Os Javaé também falam de casamentos interétnicos e intercâmbios culturais no passado, principalmente com os Tapirapé.
No Brasil colonial, várias levas de bandeirantes chegaram à região do rio Araguaia à procura de índios para escravizar. É de 1775 o primeiro relato escrito de alguém que esteve numa aldeia Karajá, o alferes José Pinto da Fonseca, dirigido ao "General de Goyazes". O autor menciona a bandeira do paulista Pires de Campos, que cerca de 25 anos antes teria exterminado os habitantes da principal aldeia Karajá. Contudo, o alferes estabeleceu contatos amistosos, visitou algumas aldeias Karajá e nelas encontrou alguns líderes Javaé, para quem também leu a carta com intenções de amizade enviada pelo General de Goyazes. Concluiu que na ilha existiam seis aldeias Karajá e três Javaé, num total de 9.000 pessoas.
Tanto a carta do alferes como outros documentos posteriores fazem referência a uma bandeira do ano anterior, quando o Ouvidor Antônio J. C. d'Almeida teria fundado aldeias com índios Javaé e Karajá com o objetivo de facilitar a navegação e povoar a ilha do Bananal. Cunha Mattos revela que nessa época, 1774, os navegantes estavam fugindo de ataques dos Karajá no Araguaia, preferindo a descida pelo braço menor, o rio Javaés. Com o estabelecimento de contatos amistosos com os Karajá, o braço menor deixou então de ser usado como canal opcional de navegação, caindo no esquecimento juntamente com os Javaé.
Ainda como parte dessa tentativa de colonização do Araguaia, em 1782, cerca de 700 índios Karajá foram transferidos para um aldeamento em São José de Mossamedes, próximo à atual cidade de Goiás; em 1786, fundou-se o aldeamento de Carretão, no atual estado de Goiás, ao sul da ilha do Bananal, com índios Xavante e Javaé, que em sua maioria morreram de doenças como o sarampo. Os sobreviventes foram transferidos para Salinas, em 1788, que entrou em decadência no século seguinte.
Os Javaé são mencionados nos relatórios dos presidentes da Província de Goiás de 1855, 1861 e 1879. Em 1888, o etnólogo Ehrenreich obteve dos Karajá a informação de que existiriam "três aldeias dos Javahé" na porção setentrional da ilha do Bananal. Estimou em 4.000 indivíduos o total de "Javahé, Karajahi e Xambioá". No livro Entre Sertanejos e Índios do Norte, José M. Audrin (1946) reconstitui a tentativa bem sucedida do Bispo de Goiás em contatar os Javaé em 1896, o qual teria visitado um acampamento de pesca dos índios nas praias do rio Javaés.
Em 1908, o etnólogo Fritz Krause viajou pelo Araguaia e visitou uma aldeia Javaé no norte da ilha do Bananal. Recém-criado, o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) manteve seu primeiro contato com os Javaé em 1911, quando visitou seis aldeias no interior da iIha do Bananal, "reino exclusivo e remoto dos Javaés", estimando a população indígena em um total de 600 pessoas.
O rio Araguaia sempre foi o canal preferido de navegação dos exploradores que chegaram à região, com exceção do fim do século 18. Em comparação aos Karajá e Xambioá, os Javaé permaneceram relativamente isolados até o início do século XX. Um contato maior só ocorreria após a fundação de pequenas cidades a leste da ilha do Bananal, nas primeiras décadas deste século, por mineradores de cristal, e a penetração e ocupação da ilha por pequenos criadores de gado bovino a partir dos anos 30.
O relacionamento com os invasores e novos vizinhos trouxe doenças desconhecidas e mortais às principais aldeias Javaé situadas no interior da ilha, que foram então abandonadas nas décadas seguintes. Pressionados pelo declínio populacional e penetração cada vez maior de criadores de gado na terra indígena, os Javaé concentraram-se em aldeias às margens do rio Javaés, onde o SPI decidiu fundar, em 1952, o primeiro posto indígena. Em 1960, o posto foi transferido para a aldeia Canoanã, que passou a atrair os remanescentes de outras aldeias, vítimas de epidemias e conflitos internos. Segundo o antropólogo André Toral, o processo de concentração populacional em Canoanã teve seu auge nos anos 70, quando a convivência entre líderes e facções de diversas procedências tornou-se impraticável. Como conseqüência, algumas famílias passaram a retomar lugares de antigas aldeias ao longo do rio Javaés, num total de sete aldeias em 1999, o que coincidiu com o processo gradual de recuperação da população a partir dos anos 60, aproximadamente.
Paralelamente, o auge do processo de invasão da ilha do Bananal deu-se nos anos 80, em parte legitimado pela própria FUNAI, que em 1969 instituiu a cobrança de taxa dos posseiros pelo uso das pastagens naturais da ilha. Em 1990, havia 11.000 não-índios (SUCAM, 1990) dividindo a terra indígena com 2.400 Karajá e Javaé. A ocupação da ilha por criadores de gado e o contato mais intensivo entre índios e moradores das pequenas cidades vizinhas, caravanas de pescadores, turistas e compradores de peixe foram seguidos de alcoolismo e prostituição em algumas aldeias Karajá e Javaé. O alcoolismo é um problema central atualmente em quase todas as aldeias Karajá e Javaé, contribuindo para aumentar a violência entre os índios, o suicídio entre os mais jovens e o preconceito da sociedade envolvente em relação à comunidade indígena.
A chegada de não-índios à região também estimulou os Javaé a iniciarem a comercialização do pirarucu, desde os anos 50, para compradores que vêm buscar o peixe nas aldeias a preços baixos e o revendem com lucro nas cidades. A pesca desordenada de toneladas de pirarucu na época da seca, todos os anos, provocou danos substanciais ao meio ambiente, reduzindo consideravelmente as reservas de peixe, além de criar uma dependência cada vez maior dos Javaé em relação ao dinheiro e ameaçar cada vez mais a economia de subsistência, baseada no plantio de roça, na estação das chuvas, e na pesca cotidiana para consumo próprio.
A Administração Regional da FUNAI em Gurupi (GO) mantém postos indígenas nas aldeias Canoanã e Barreira Branca, que contam também com atendimento permanente de profissionais da saúde, além da Casa do Índio, em Gurupi, que atende os doentes de outras aldeias. Todas as aldeias Javaé possuem professores indígenas bilíngües, mantidos pela FUNAI e prefeituras locais, que ensinam em escolas de nível primário. Pode-se dizer, entretanto, que a saúde e a educação escolar ainda são bastante deficientes nas aldeias Javaé.
O contato produziu uma união política entre o subgrupo Karajá e os Javaé que não existia antes. Acionado pelos índios em 1989, o Ministério Público Federal propôs uma Ação Civil Pública, cujo resultado determinou à FUNAI suspender a cobrança de taxas pelo uso das pastagens e iniciar o processo necessário à "reintegração da posse dos índios (...) nas áreas ilegalmente ocupadas por terceiros". Nos últimos anos teve início o processo, ainda não concluído, de remoção e reassentamento dos invasores da terra indígena. Ainda no início dos anos 90, os Javaé e algumas famílias Karajá conseguiram retomar uma pequena localidade habitada por não-índios, o antigo Porto Piauí, na ilha do Bananal, transformando-a na atual aldeia Txuiri.
A ameaça mais recente à sobrevivência física e cultural dos Karajá como um todo é a construção da hidrovia Araguaia-Tocantins pelo governo federal, que prevê o afundamento do leito do rio Araguaia em vários trechos, redução no nível de água de seus afluentes, explosão de bombas dentro do rio, desmoronamento dos barrancos e a navegação diária de navios de grande porte.
Um fato notável, apontado por antropólogos que trabalharam com os Karajá, é que, apesar dos problemas sérios e ameaças advindas do contato com a sociedade nacional, os Karajá e Javaé têm mostrado uma surpreendente capacidade para lidar com essas novidades mantendo aspectos fundamentais da cultura tradicional, entendida aqui como um conjunto de pensamentos e práticas flexíveis capazes de dialogar com o novo sem desfigurar-se. Justamente nas aldeias onde a pressão do contato é maior, como Santa Izabel, dos Karajá, e Canoanã, dos Javaé, é que têm surgido os mais importantes líderes no que diz respeito à relação com a sociedade nacional.

Organização social. Antes do contato, e atualmente ainda em pequenas aldeias Javaé, os moradores de uma aldeia eram basicamente grandes famílias extensas organizadas em torno do fundador da aldeia (hawa wedu ou "dono da aldeia/lugar") e de seus descendentes, os quais tinham o direito inquestionável de permanecer no lugar, expulsar habitantes indesejáveis e decidir se aceitavam ou não novos moradores. A liderança local era dividida apenas com os chefes rituais, como o ixÿtyby ("pai do povo") ou o ixÿwedu ("dono do povo"), condutores de rituais; e o iòlò, título de honra que o/a primogênito/a herda do pai ou mãe que for iòlò e que transmite uma série de direitos e prerrogativas. Cabia aos iòlò a tarefa básica de interferir nos conflitos entre famílias, sendo sua palavra respeitada por toda a comunidade. Após o contato, surgiu um novo tipo de líder, o especialista nas relações com os não-índios, que deve dominar a língua portuguesa e entender os mecanismos de funcionamento das várias esferas da sociedade nacional. Em muitos casos, o novo tipo de líder é um descendente de iòlò ou do hawa wedu.
A maioria das aldeias Javaé ainda mantém a disposição espacial tradicional, baseada em uma oposição assimétrica entre uma ou mais fileiras de casas ao longo do rio, associadas ao mundo feminino e das famílias extensas, e a casa dos homens, associada ao mundo masculino e ritual. Embora hoje em dia muitos jovens casais prefiram morar em casas menores e separadas, a regra da residência uxorilocal e o "pagamento pela esposa" (tykòwy) ainda formam a base da organização social. Quando se casa, o homem tem que viver com a esposa, quase na condição de estranho, na casa de seus sogros, submetendo-se à autoridade destes últimos e tendo que pagar pela esposa aos sogros e cunhados por um longo período da vida, pescando, caçando, plantando etc. Os próprios Javaé chegam a dizer que toda a atividade econômica da aldeia existe em função do pagamento pela esposa. A cerimônia tradicional do casamento arranjado pelas avós, praticamente inexistente hoje, dramatizava a hesitação masculina em contrair matrimônio, dado o caráter de desafio que este adquire para o homem.
Sendo assim, o casamento é um momento crucial na vida Javaé. Para as mulheres, representa uma situação confortável e de prestígio cada vez maior. Elas permanecem na casa de seus pais após o casamento e são protegidas por irmãos e primos, tornando-se as "donas da casa" com o passar do tempo e as grandes conselhereiras de filhos e netos. As mulheres mais velhas são admiradas pela oratória, expressa principalmente nos choros rituais em que chegam a acusar feiticeiros, são as contadoras da história do passado às novas gerações, eram responsáveis pelos antigos arranjos de casamento e são a principal autoridade dentro das famílias, tendo o poder de interferir decisivamente nos conflitos domésticos.
Para o homem, ao contrário, o casamento é carregado de grande ambigüidade. Se, por um lado, ter uma esposa é um desejo masculino, o homem que se casa torna-se um devedor de seus sogros e cunhados e passa a morar na casa de estranhos. Somente após tornar-se pai de vários filhos, o homem alcança uma condição mais confortável e, com o tempo, passa a viver a situação inversa, tornando-se o sogro de outros homens.
A posição desconfortável dos homens no âmbito doméstico é em parte contrabalançada pelo domínio que eles exercem na vida ritual e pública. As mulheres são submetidas a uma série de interdições na vida diária, não podendo entrar na casa dos homens, andar no espaço ritual masculino, tocar ou olhar diretamente os dançarinos mascarados (que são homens), falar abertamente sobre a vida ritual masculina etc., podendo ser punidas com o estupro coletivo na casa dos homens (há várias histórias sobre punições no passado) ou com a morte (através da feitiçaria).

Mulheres e homens nos mitos e nos ritos. Segundo os mitos Javaé, há muito tempo atrás os seres humanos moravam "abaixo do leito dos rios" (berahatxi), um lugar mágico e fechado, úmido, onde as pessoas não morriam nem trabalhavam, o tempo não passava, a comida era abundante, a reprodução era feita magicamente, sem contatos sexuais, os seres humanos não casavam entre si. Os homens viviam em coletividade, mas não em sociedade, eram seres humanos não sociais. Em um determinado momento, algumas dessas pessoas encontraram uma saída para o mundo em que vivemos agora e, atraídas principalmente pelo fascínio dos espaços amplos e abertos e pelas comidas novas que encontraram aqui, decidiram sair do fundo dos rios e habitar esse novo lugar, o ahana obira. Aqui descobriram que o mundo não era mais encantado: o tempo passava, as pessoas morriam, era preciso trabalhar para comer e, principalmente, casar-se e manter relações sexuais para garantir a reprodução do grupo. A única saída era viver em sociedade, através da aliança entre famílias, surgindo então a uxorilocalidade e o pagamento pela esposa, práticas desconhecidas anteriormente. Os seres humanos que ficaram no fundo dos rios transformaram-se nos Aruanãs, seres humanos mascarados e mágicos que lá vivem até os dias de hoje.
Ainda durante esse período de transformações aqui no mundo dos espaços amplos, os mitos revelam que não havia diferença de poder entre homens e mulheres. Refletindo um ponto de vista masculino, que é o ponto de vista de todos os mitos, conta-se que mulheres impulsivas e sexualizadas cometeram então uma série de atos anti-sociais e individualistas. Os mitos são um tipo de justificativa da razão de os homens terem que amedrontar e controlar as mulheres hoje em dia, na esfera pública, pois estas seriam dotadas de um poder potencialmente destrutivo e imcompatível com a vida em sociedade.
A tensa relação entre homens e mulheres, tanto na vida doméstica como na vida pública, é dramatizada pelo principal ritual Javaé, a dança dos Aruanãs, cujo início e fim coincide aproximadamente com a estação das chuvas, época das colheitas e de uma maior concentração populacional nas aldeias. Nos anos 90, os Javaé retomaram a realização do Hetohokÿ ("casa grande"), ritual de iniciação masculina que é uma espécie de ápice da dança dos Aruanãs e que marca a entrada dos jovens para o mundo da casa dos homens.
Os Javaé dizem que os Aruanãs que ficaram no fundo das águas pedem aos xamãs para serem trazidos a este mundo visível, pois eles têm o desejo de conhecer o ahana obira e comer a comida do povo daqui. Aqui chegando, os Aruanãs pedem aos xamãs que realizem uma série complexa de jogos rituais entre homens e mulheres e entre os próprios Aruanãs, seguindo um calendário que ocupa mais da metade do ano. Durante o ciclo anual, os Aruanãs, cada um caracterizado por uma dupla de mascarados idênticos, dançam e cantam músicas específicas, quase todos os dias, em estradas que ligam a casa dos homens às casas das famílias extensas. Cada dupla de Aruanãs vem para ser alimentada por uma determinada família desde mundo visível, que é a "dona" do Aruanã e tem o direito de passá-lo de geração em geração. Os Javaé dizem que os Aruanãs vêm para comer o tykòwy, ou seja, a comida que é produzida pelos homens (peixes, produtos da roça, mel etc) como pagamento pela esposa aos seus sogros e cunhados. A alimentação dos Aruanãs é uma questão de honra para as famílias, envolvendo boa parte da comunidade na produção desses alimentos rituais durante todo o ciclo anual. Através do ritual, há uma tentativa de se estabelecer uma ligação simbólica com o tempo/lugar mítico em que a morte e os outros não existiam e os homens não tinham que trabalhar para pagar pelas esposas.
O xamanismo é altamente desenvolvido entre os Javaé. O hyri é aquele que cura as doenças e tem o poder de trazer a este mundo os vários tipos de entidades mágicas, além de enxergar e viajar em espírito por outras dimensões; ao mesmo tempo, ele é aquele que coloca os feitiços causadores de doenças e mortes, sendo por isso repudiado pela comunidade. As aldeias que não têm hyri não têm casa dos homens nem dança dos Aruanãs, uma vez que ele é o principal intermediário entre o mundo visível e o invisível.
Além dos Aruanãs, o mundo invisível também é habitado pelos aõni, entidades mágicas e anti-sociais, sexualizadas, individualistas, impulsivas, difíceis de controlar, portadoras de características associadas à feminilidade, e que são trazidas e este mundo pelos xamãs para participar de jogos com os Aruanãs. O jogo dramatiza a tensa relação entre os Aruanãs, cujo comportamento controlado e ritmado é associado à masculinidade, e os aõni, em que os primeiros sempre terminam por controlar os últimos.
A feminilidade, em um nível mais subliminar, está associada à alteridade, categoria em que se incluem não só as mulheres, mas os outros não-Javaé como um todo. Alguns mitos estabelecem uma clara associação entre o imenso poder nos tori (brasileiros) e o poder destrutivo das mulheres. Elas são os "outros" difíceis de controlar, mas são, ao mesmo tempo, a parte intrínseca sem a qual a sociedade não pode existir. O capitalismo também é potencialmente destrutivo e os Javaé são agora dependentes de mercadorias industrializadas, mas eles decidiram continuar com seus rituais e modo de ser, lado a lado com alcoolismo e invasão da terra, assim como os homens decidiram tentar controlar as mulheres no passado para sobreviver neste mundo.
Após a morte, os Javaé almejam ir para o biu, espaço também fechado e mágico, localizado no céu, onde a vida é eterna, as pessoas sempre jovens, a comida abundante, não há conflitos, os mortos encontram os parentes que já se foram e os homens vêem-se finalmente livres da obrigação de pagar pela esposa, uma vez que não mais há casamentos, uxorilocalidade, sogros, cunhados. A reprodução é mágica, vive-se apenas entre os seus. Os Javaé autodenominam-se Itya Mahãdu, "O Povo do Meio", pois acreditam que esta dimensão visível e social estaria espacialmente localizada num ponto intermediário entre o do fundo das águas e o céu, ambos lugares livres dos sofrimentos que a vida em sociedade, entre os outros, proporciona.

Nota sobre as fontes. Muitos são os registros etnográficos sobre os Karajá em geral, culturalmente semelhantes aos Javaé, que abrangem desde informações dos primeiros exploradores a trabalhos acadêmicos mais recentes de antropólogos e outros pesquisadores. No que se refere aos Javaé, especificamente, o etnólogo alemão Fritz Krause, em sua viagem ao Araguaia, em 1908, visitou uma aldeia Javaé e foi o primeiro a dar informações mais consistentes, ainda que poucas, sobre aspectos da organização social e cosmologia Javaé.
O primeiro trabalho antropológico mais profundo sobre os Javaé surgiria muitos anos mais tarde com a pesquisa do antropólogo André Amaral de Toral, iniciada nos anos 70, entre os Javaé. Entre 1979 e 1985, em períodos intercalados, Toral esteve por mais de cinco meses fazendo pesquisa entre os Javaé de diversas aldeias. André Toral também fez trabalho de campo com maior duração entre os Karajá e Xambioá, entre 1980 e 1991. A pesquisa resultou em alguns artigos sobre vida ritual, a questão da terra e situação política entre os Javaé e Karajá. O trabalho mais importante, entretanto, foi a dissertação de Mestrado, de 1992, pelo Museu Nacional (UFRJ), a respeito da cosmologia e organização social dos Karajá como um todo.
Em 1990, Patrícia de Mendonça Rodrigues realizou seis meses de pesquisa de campo entre os Javaé da aldeia Canoanã, trabalho que resultou na dissertação de Mestrado, pela Universidade de Brasília, em 1993, sobre cosmologia e ritual. Posteriormente, publicou um artigo sobre a questão do gênero entre os Javaé. Em 1997 e 1998, a autora realizou um ano de pesquisa de campo entre os Javaé, na condição de doutoranda pela Universidade de Chicago, e está atualmente em processo de elaboração da tese de Doutorado sobre organização social e mitologia Javaé.
Mais recentemente, em 1997, Oiara Bonilla escreveu sua monografia de graduação pela Universidade de Paris X - Nanterre, após permanecer um mês e meio no antigo Porto Piauí, atual aldeia Txuiri, sobre o processo de retomada do povoado e formação de uma nova aldeia Javaé. Sua pesquisa sobre os Javaé continua em andamento, agora na condição de mestranda do Museu Nacional (UFRJ).
Os professores da Universidade de Brasília, David Fortune e Gretchen Fortune, estudaram os dialetos Karajá e Javaé durante vários anos, desde os anos 50, enquanto lingüistas do Summer Institute of Linguistics (SIL). O trabalho resultou no treinamento de monitores bilíngües entre os Karajá e Javaé, além da publicação de diversos artigos sobre a língua Karajá. Em 1986, Marcus A. R. Maia apresentou sua dissertação de Mestrado sobre aspectos do dialeto Javaé à Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Fontes de Informação

Patrícia de Mendonça Rodrigues
Bolsista de Doutorado do CNPq
na Universidade de Chicago (EUA)
anadyr@brnet.com.br
fevereiro de 1999

 

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