Surgiram como povo distinto há cerca de trezentos anos, provavelmente na região entre os rios Tocantins e Xingu. Talvez por causa de conflitos com colonizadores luso-brasileiros e com outros povos nativos, iniciaram uma longa e lenta migração que os levou, nos idos de 1870, do Pará, através do rio Gurupi, ao Maranhão. Uma fonte do período em torno de 1890 menciona os Ka'apor como guerreiros que atacavam as comunidades rurais com suas "terríveis flechas com pontas de aço". Grupos de colonizadores brasileiros que, por sua vez, atacaram e aniquilaram aldeias Ka'apor por volta de 1900, ficaram surpresos ao descobrirem esplêndidos cocares de penas amarelas, verdes, pretas e vermelhas dentro de pequenos baús de cedro, que os sobreviventes, em fuga, teriam deixado para trás. Quando as autoridades brasileiras tentaram pacificá-los pela primeira vez, em 1911, por intermédio do recém criado Serviço de Proteção aos Índios (SPI), os Ka'apor, como os Nambiquara no Mato Grosso, eram considerados um dos povos nativos mais hostis no país e, portanto, prioritários para a pacificação. Tal pacificação, tanto dos Ka'apor quanto dos karaí (não índios), ocorreu em 1928 e durou por quase setenta anos. Recentes invasões da terra dos Ka'apor pelos karaí, entretanto, ocasionaram novas hostilidades e estão colocando a sobrevivência étnica dos Ka'apor novamente em dúvida.
Nome. Auto-denominação: Ka'apor ou Ka'apór
(o apóstrofo representa uma parada da glote, um som ouvido na primeira
parte da expressão inglesa "uh-huh"; o acento tônico
na língua Ka'apor em geral cai na última sílaba).
Outros nomes: Urubu, Kambõ, Urubu-Caápor, Urubu-Kaápor,
Kaapor.
Ka'apor parece derivar de Ka'a-pypor "pegadas na mata" ou "pegadas
da mata". Outro significado aventado para Ka'apor é o de "moradores
da mata". Contudo, a expressão "moradores da mata" na
verdade exprime-se melhor pelo nome que os Ka'apor atribuem aos índios
caçadores-coletores Guajá, seus vizinhos, Ka'apehar.
A pessoa também pode ser identificada na língua Ka'apor como
awá, que se refere à forma reflexiva ("alguém")
e ao sujeito, enquanto pessoa, nas sentenças interrogativas ("quem?");
awá está relacionado com os termos inflexivos referentes
a "pessoa" e "povo" em várias outras línguas
Tupi-Guarani. Kambõ parece ter sido assimilado do português "caboclo",
um termo aplicado aos Ka'apor pela maioria dos brasileiros da região
nos dias de hoje, provavelmente de origem amazônica e freqüentemente
usado pelos que falam a língua Ka'apor numa auto-referência quando
em conversa com terceiros. O termo Urubu foi evidentemente atribuído
ao povo Ka'apor durante o século XIX pelos inimigos luso-brasileiros,
sendo esta etmologia dada pelos próprios informantes Ka'apor, embora
estes não se refiram a si mesmos pelo termo quando falando com terceiros.
Os termos hifenizados Urubu-Caápor e Urubu-Kaápor foram introduzidos
pelos indigenistas brasileiros nos anos 50, numa tentativa de padronizar,
na etnologia, a grafia dos nomes de grupos nativos.
Língua. Ka'apor é uma língua
Tupi-Guarani. Não é falada por nenhum outro grupo conhecido,
exceto como segunda língua por alguns Tembé e outros moradores
da região do Gurupi etnicamente não considerados Ka'apor; dialetos
da língua são minimamente desenvolvidos. Pequenas diferenças
léxicas e livres variações podem ser notadas entre o
povo Ka'apor originário das aldeias da bacia do Turiaçu e o
da bacia do Gurupi. A língua não se aproxima das línguas
Tupi-Guarani faladas pelos grupos mais próximos geograficamente, Tembé
(Tenetehar) e Guajá: das duas, parece ser ligeiramente mais
parecida, léxica e foneticamente, com o Guajá. Historicamente,
é provavel que a língua Ka'apor esteja mais intimamente relacionada
à língua Waiãpi, que é falada a uma distância
de 900 km, no outro lado do rio Amazonas. Ambas foram altamente influenciadas
nos últimos trezentos anos por outras línguas e hoje, são
mutuamente incompreensíveis. A língua Ka'apor parece ter sido
mais influenciada gramaticalmente pela língua geral amazônica;
a Waiãpi, pelas línguas Carib setentrionais. Uma grande diferença
entre elas é a tonicidade: na língua Ka'apor, as palavras são
normalmente oxítonas; na Waiãpi, paroxítonas.
Embora não existam regras de distinção entre falas masculinas
e femininas, os Ka'apor são lingüisticamente peculiares na Amazônia
por terem uma linguagem padrão de sinais, usada para a comunicação
com os surdos, que até a metade dos anos 80 compunham cerca de 2% da
totalidade de sua população. A incidência de surdez deveu-se
evidentemente à bouba neonatal e endêmica, que foi erradicada.
Cerca de 60% do povo Ka'apor é monolíngüe; os outros 40%
falam um português tosco ou regional. Uma porcentagem bem pequena (2%?)
fala Tembé ou outra língua indígena, como a Guajá.
Educação primária em português e na língua
Ka'apor tem sido oferecida, de forma intermitente, nas escolas da FUNAI no
Posto Canindé e na aldeia Zé Gurupi desde os anos 70. Até
agora, contudo, nenhum índio Ka'apor terminou o segundo grau e muito
menos a faculdade. Uma minoria de jovens Ka'apor matricula-se nessas escolas,
havendo um índice elevado de analfabetismo.
Terra. Os Ka'apor vivem no norte do Maranhão.
Suas terras fazem limite, ao norte, com o rio Gurupi, ao sul, com os afluentes
meridionais do rio Turiaçu, a oeste com o Igarapé do Milho e
a leste, com uma linha no sentido noroeste-sudeste quase paralela à
rodovia BR-316. Todos os córregos e rios drenam para três grandes
rios: Maracaçumé, Turiaçu e Gurupi, que, por sua vez,
desaguam diretamente no oceano Atlântico. A altitude máxima é
de cerca de 250 metros acima do nível do mar nas regiões montanhosas,
onde as cabeceiras do Maracaçumé, Turiaçu e Gurupi estão
mais próximas umas das outras. Chove cerca de 2000 a 2500 mm por ano,
sendo que a maior parte deste volume cai durante a predominância dos
ventos vindos de leste de janeiro a maio.
A vegetação predominante é a floresta alta pré-amazônica.
Certas espécies pan-amazônicas estão historicamente ausentes
na região, tais como castanheira, assacu, mucajá, buriti e a
vitória-régia. Vários espécimes da fauna aquática
do rio Amazonas, tais como poraquês, arraias, botos e peixes-boi estão
também ausentes. Mas a diversidade de espécies, a área
basal e a fisionomia da floresta pré-amazônica são comparáveis
às de outros lugares da floresta Amazônica. A maior parte da
fauna terrestre, incluindo mamíferos, insetos, répteis e aves
é amazônica; alguns deles são até mesmo endêmicos
ou raros e ameaçados, tais como o jaguar, o periquito dourado, o macaco
capuchinho Ka'apor (Cebus Kaaporii) e o sagüi barbado (Chiropotes
satanas), também um macaco.
As árvores de floresta alta predominantes no hábitat Ka'apor
incluem o matá-matá (Eschweilera coriacea), breu (Protium
spp.), andiroba (Carapa guianensis), pau cachimbo (Mabea caudata)
toari (Couratari spp.), bacaba (Oenocarpus disticha) e pente-de-macaco
(Apeiba spp.). Nas florestas crescidas sobre antigas capoeiras, as
árvores comuns incluem jenipaparana (Gustavia augusta), babaçu
(Attalea speciosa), tucumã (Astrocaryum vulgare), inajá
(Attalea regia), taperebá (Spondias mombin), jatobá
(Hymenaea spp.) e abiu (Pouteria spp.). Outros importantes complexos
de vegetação incluem as florestas pantanosas e as florestas
sazonalmente alagadas, sendo espécies comuns o açaí (Euterpe
oleracea), sumaumeira (Ceiba pentandra), marajá (Bactris
spp.) e embaúba (Cecropia spp.). Complexos de menor porte
são os roçados de idades variadas e os pomares, incluindo mandioca,
lavoura de batata doce, de inhame, banana, urucum, algodão e mamão.
Os antepassados Ka'apor, que parecem ter fugido da expansão da sociedade
luso-brasileira no sul do Pará, chegaram e se estabeleceram nas suas
terras atuais (indo além) no Maranhão nos idos de 1870. As origens
do povo Ka'apor como grupo étnico distinto remontam a um centro amazônico
Tupi-Guarani localizado entre o baixo Tocantins e o Xingu no final do século
XVII e início do século XVIII; os habitantes nativos daquela
região naquele momento eram conhecidos como os Pacajás. Os Waiãpi
são provavelmente um outro grupo derivado daquele centro; os Amanajós
das bacias do baixo Tocantins/Capim foram provavelmente também originários
de lá. Enquanto os Waiãpi migraram para o norte, atravessando
o rio Amazonas na direção da sua localização atual
ao longo da fronteira do Brasil com a Guiana Francesa, os Ka'apor migraram
para o leste, cortando o rio Tocantins. Eles são conhecidos pela história
documentada por terem se estabelecido sucessivamente nas bacias do rio Acará
(ca. 1810), rio Capim (ca. 1825), rio Guamá (1864), rio Piriá
(1875) e rio Maracaçumé (1878).
Cem anos depois, em 1978, a Área Indígena Alto Turiaçu,
consistindo em 2048 milhas quadradas (5.301 km2) de floresta amazônica
alta, ocupada por todos os remanescentes Ka'apor, assim como por alguns Guajá,
Tembé e Timbira, foi demarcada pela Fundação Nacional
do Índio (FUNAI). A demarcação foi homologada pelo Decreto
nº 88.002 em 1982, na administração do Presidente João
Figueiredo. No entanto, cerca de um terço da área vem sendo
devastada ilegalmente e convertida em cidades, campos de arroz e pastagens
por agricultores sem terra, fazendeiros, madeireiros e políticos locais
desde o final dos anos 80.
Demografia. O censo mais recente data de 1982, quando a população total Ka'apor era de 494 pessoas. A população hoje (1998) está provavelmente entre os 600 e 1000 habitantes, sendo que, de longe, a maior parte deste aumento deve-se ao crescimento natural e não à imigração. Estimativas de censos anteriores, indicam que a população Ka'apor declinou marcadamente após o início do contato contínuo com a sociedade brasileira em 1928: 2.000 (1928), 1.095 (1943), 912 (1954), 822 (1962), 488 (1975). Os cinqüenta anos de declínio, dos anos 20 aos anos 70, deveram-se primordiamente a epidemias de infecções respiratórias (especialmente sarampo e outras síndromes virais) e a cuidados de saúde inadequados. Hoje, dados preliminares fortemente sugerem que a população total Ka'apor está se recuperando, talvez a uma taxa de crescimento natural de 3% ou mais, tendo adquirido imunidade contra condições antes letais, seja pelo isolamento de crianças debilitadas, seja pela melhoria no tratamento da saúde. Casamentos fora do grupo com Tembé, Guajá e brasileiros têm ocorrido desde os anos 50, senão antes; respondem por cerca de 5% dos casamentos Ka'apor. A expectativa de vida é de cerca de 45 anos no nascimento e de 55 a 60 anos para os que sobrevivem à infância. As maiores causas de mortalidade (e invalidez) do povo Ka'apor nos dias de hoje parecem ser a tuberculose (ora endêmica, embora provavelmente ausente antes de 1928), complicações de parto, síndromes e complicações neonatais, malária, febre amarela e outras infecções do fígado/sangue de etiologia indeterminada, acidentes de caça, quedas de árvores, outros acidentes e homicídio.
História do contato. Os Ka'apor tiveram numerosos
contatos documentados com a sociedade luso-brasileira entre o período
dos Pacajás, nos idos de 1600, e o estabelecimento do contato prolongado,
ou pacificação, em 1928. A maior parte dos episódios
relatados foram violentos. Os Ka'apor da bacia do Capim atacaram vilas na
bacia do Guamá no período de 1820 a 1830, evadindo-se com mulheres
e canoas; os Ka'apor na bacia do Capim foram, por sua vez, derrotados por
milicianos e por recrutas Turiuara, que também falavam uma língua
Tupi-Guarani. Alguns homens Ka'apor saquearam vilas na bacia do Guamá
em 1864. Depois disso, 25 soldados da guarda nacional destroçaram uma
aldeia Ka'apor. Meses mais tarde, 150 soldados da guarda nacional perseguiram
os remanescentes Ka'apor até as cabeceiras dos rios Guamá e
Gurupi. Em 1874, alguns Ka'apor viviam na bacia do Piriá, desconhecendo-se
qualquer contato dos mesmos com os colonizadores. Nos idos de 1870, guerreiros
Ka'apor derrotaram e expulsaram um quilombo do lado maranhense do rio Gurupi,
ocupando subseqüentemente o antigo local de refugiados como sua própria
aldeia, próximo da atual aldeia de Gurupiuna. De 1870 até a
chegada do Serviço de Proteção aos Índios em 1911,
os ataques Ka'apor a lugarejos e cidades no Pará e Maranhão,
assim como a trabalhadores do telégrafo, garimpeiros, coletores de
balata e outros índios, como os Guajajara, Tembé, Guajá
e os Kren-Yê Timbira, não diminuíram. Em sua maior parte,
os ataques Ka'apor pareciam ter como propósito a aquisição
das ferramentas de aço das vítimas para serem utilizadas nas
roças e na confecção de pontas de flechas.
Antes de 1820, os Ka'apor podem ter gozado, de forma intermitente, de relações
pacíficas com a sociedade luso-brasileira, até mesmo nos assentamentos
das missões, o que se infere do folclore Ka'apor. Se isto é
verdade, ajudaria a explicar por que há tantos empréstimos e
outras influências na língua Ka'apor que parecem advir da língua
geral amazônica, falada por missionários e por grande parte da
comunidade paraense nos séculos XVIII e XIX.
Em 1911, o SPI empreendeu esforços visando a "pacificação"
dos Ka'apor, organizando um grupo que levava presentes em forma de ferramentas
de aço e coisas parecidas, rio Turiaçu acima, na esperança
de "atrair" os índios. Guerreiros Ka'apor que espreitavam
o grupo atiraram no maxilar de um voluntário, razão pela qual
os esforços foram abandonados. Do outro lado do hábitat Ka'apor,
ao longo do alto rio Gurupi, agentes do SPI também tentaram, em vão,
pacificá-los entre 1911 e 1912. De 1915 a 1917, o SPI não teve
recursos financeiros para os esforços de pacificação
dos Ka'apor. Em 1918 e 1920, após vários anos de trégua,
ataques Ka'apor em busca de ferramentas de aço tiveram lugar respectivamente
na bacia do rio Guamá e em Bragança, perto da costa atlântica.
Os Ka'apor também foram agredidos por turbas de brasileiros enfurecidos
durante este período; um agente de telégrafo no Maranhão,
que organizou invasões às aldeias Ka'apor, espetou as cabeças
de suas vítimas próximo dos postos de telégrafo entre
os lagos Viana e o rio Gurupi. Finalmente, em outubro de 1928, ambos os lados
tinham experimentado violência suficiente. De acordo com o saber tradicional
Ka'apor, um homem Ka'apor, denominado Pa'i ("padre"), "pacificou"
(mu-katu) os brasileiros no Posto Canindé do SPI, na região
do Gurupi. O SPI afirma que foram os seus esforços em oferecer ferramentas
de aço e outros bens sob tapiris que teriam levado os Ka'apor a buscar
a paz. Em 15 de dezembro de 1928, 94 índios Ka'apor visitaram o Posto
Canindé do SPI. Mais ou menos ao mesmo tempo, guerreiros Ka'apor aproximaram-se
da cidade de Alto Turi, junto ao rio Turiaçu, com as suas flechas apontadas
para baixo, em sinal das intenções amigáveis. As guerras
dos índios Ka'apor haviam terminado, mas talvez não definitivamente.
Cerca de 1.300 posseiros, madeireiros e fazendeiros invadiram e estão
desmatando a Terra Indígena Turiaçu, homologada desde 1989.
Mais ou menos um terço das terras Ka'apor, principalmente ao longo
de seu limite oeste entre a área do igarapé do Milho e do igarapé
Jararaca, vem sendo desmatada e ocupada por sem-terras insuflados por grileiros
e políticos locais. A situação atual na região
é marcada por tensão e pela escalada da violência. Ataques
de posseiros e de madeireiros às aldeias indígenas, assim como
contra-ataques dos índios aos acampamentos de posseiros e madeireiros
dentro de suas terras têm ocorrido desde 1993 com pelo menos duas vítimas
fatais do lado karaí.
A paz atingida em 1928 entre as sociedades brasileira e Ka'apor vem sendo
minada e um novo estilo de guerra parece estar se desenvolvendo. Para os Ka'apor,
o inimigo de hoje não é tão claro quanto em 1928. Naquela
época, o inimigo era qualquer um que não fosse Ka'apor. A atual
situação de contato interétnico é muito mais complexa.
O Conselho Indigenista Missionário, outras ONGs interessadas, como
a Survival International-Reino Unido, e alguns indivíduos levaram a
questão das invasões ilegais das terras Ka'apor à atenção
de várias entidades, incluindo-se a imprensa brasileira local e nacional,
o governo federal, a Comunidade Européia do Carvão e do Aço,
o Parlamento Europeu e o Congresso Americano. Mas, o governo brasileiro ainda
não interveio para deter ou reverter as invasões.
Os últimos setenta anos (1928-1998) assistiram a uma acomodação
cada vez maior, mas não integral, da sociedade e cultura Ka'apor aos
modos ocidentais. Muitos falam português, embora todos falem Ka'apor
como primeira língua. Alguns professam uma crença em Tupã-ra'ïr
("filho do Trovão", ou "Jesus Cristo"), já
que a divindade cristã foi introduzida por missionários fundamentalistas
do Summer Institute of Linguistics (hoje Sociedade Internacional de Lingüística),
que atuaram na área de mais ou menos 1963 a 1985. Mas muitos Ka'apor
acreditam nos poderes divinos e curativos de Ïrïwar, uma
divindade feminina, indígena, relacionada à água, cujo
conceito foi parcialmente trazido dos Tembé e que é invocada
no xamanismo. Os Ka'apor de todas as idades ouvem notícias e músicas
do Brasil e do mundo em rádios-transistores de ondas-curtas, mas ainda
passam muito tempo proseando e visitando as aldeias uns dos outros a pé
pela densa mata.
Organização social e política.
A aldeia Ka'apor (hendá) consiste normalmente em um ou dois
agrupamentos residenciais uterinos. O irmão mais velho das irmãs
casadas em um agrupamento uterino é normalmente o chefe (kapitã)
do agrupamento, de forma que uma aldeia pode ter mais do que um chefe se houver
mais de um agrupamento residencial. Enquanto a residência tende a ser
uxorilocal, com a maior parte dos homens deixando o seu agrupamento de origem
em razão do casamento para residir com os familiares de suas esposas,
pelo menos um homem permanece, normalmente um filho do chefe, sendo a sua
esposa quem se muda para viver com ele; entretanto, se ela é filha
da irmã do seu pai, real ou classificatória, pode ser do mesmo
agrupamento. O agrupamento é, politicamente, uma facção,
baseada tanto no fato da co-residência quanto na doutrina da descendência
repartida. O poder político do chefe se limita a acertar os casamentos
de suas irmãs reais e classificatórias com homens dispostos
a casar no seu agrupamento, que lhe garantem lealdade difusa assim como as
filhas solteiras casadouras deles, para que ele ou seus filhos possam casar
mais tarde. Há uma ligeira tendência para os contratos de casamento
com a filha da irmã do pai e com a filha da irmã (neste último
caso também dito oblíquo) reais ou classificatórias.
A terminologia de parentesco é basicamente dravidiana, o que quer dizer
que as pessoas chamam alguns de seus parentes por afinidade por termos de
parentesco cognático (por exemplo, "tio" e "sogro"
são a mesma palavra, tutyr). Portanto, a terminologia de parentesco
dravidiana implica na regra de casamento de primos cruzados (filhos de um
irmão e de uma irmã real ou classifcatória). A descendência
é bilateral e não há metades, sibs ou linhagens. Não
existem classes de idade tampouco grupos de festas cerimoniais. O privilégio
da poliginia e módico respeito são obtidos pelo chefe que é
generoso com seus pares e prudente em suas ambições políticas
e materiais. A sociedade é basicamente igualitária, não
havendo autoridade central (o que pode estar mudando com as crescentes pressões
de posseiros invasores). Cada aldeia tende a agir como uma entidade politicamente
autônoma.
Mais de um agrupamento uterino pode constituir uma aldeia, especialmente as
que abrigam mais do que 30 pessoas. No passado, o tamanho médio de
uma aldeia comportava de 25 a 50 pessoas; hoje, algumas aldeias, como Gurupiuna
(ao norte) e Zé Gurupi (ao sul), abrigam mais de cem, e não
está claro se os padrões de liderança e de residência
pós-matrimonial do passado poderão sobreviver. Algumas aldeias
Ka'apor estão se tornando como povoados. Esta concentração
reflete um aumento na taxa natural de crescimento populacional, bem como na
pressão sobre o espaço disponível na terra indígena,
tanto por conta da recuperação populacional quanto pela invasão
da área por posseiros sem terra. Talvez a concentração
em núcleos maiores lhes proporcione mais segurança.
Economia. Povo horticultor, os Ka'apor, assim como
vários outros grupos estabelecidos na Amazônia, dependem da mandioca
brava como fonte principal de calorias. Eles a consomem principalmente na
forma de farinha. Cultivam no total cerca de cinqüenta espécies
de plantas. Estas são usadas como alimento, tempero, remédios,
fibras, ferramentas e armas. Além disso, eles caçam e coletam
frutos nas matas densas e pescam em pequenos igarapés do seu hábitat
para obter a maior parte do restante de sua alimentação. Os
animais de caça mais importantes na sua dieta são o veado galheiro,
caititu, queixada, paca, cutia, macaco guariba, duas espécies de jabuti,
jacaré e várias espécies de cracídeos, mutuns
e tinamídeos. Nem tudo o que é comestível no hábitat
é aproveitado como alimento. E alguns itens comestíveis só
são comidos algumas vezes por algumas pessoas. O complexo de tabus
alimentares centraliza-se em ritos associados à fertilidade feminina,
especialmente o resguardo e o ritual de puberdade. Para quem se encontra nestes
estados, a única carne de animal terrestre permitida é a do
jabuti de pé amarelo. Importantes espécies de peixes incluem
o surubim, pacu, piranha, traíra e jeju. Os mais importantes frutos
silvestres coletados para alimentação incluem o bacuri (Platonia
insignis), cupuaçu (Theobroma grandiflorum), piquiá
(Caryocar villosum) açaí (Euterpe oleracea), bacaba
(Oenocarpus distichus) e abiu cutite (Pouteria macrophylla).
A divisão sexual do trabalho não é rígida, mas
as mulheres dedicam muito mais tempo do que os homens à preparação
do alimento, especialmente no que diz respeito ao processamento da mandioca
brava. Os homens passam bem mais tempo caçando do que as mulheres.
No geral, os homens tecem as cestas, inclusive os tipitis (prensa de mandioca)
enquanto as mulheres fazem as panelas, incluindo as grandes vasilhas (kamui~)
usadas para servir o caxiri de mandioca nas cerimônias de nomeação
das crianças.
Artesanato e cultura material. A arte plumária
dos Ka'apor é o seu trabalho de maior renome e dois livros inteiros
foram dedicados a ela. As penas usadas neste trabalho vêm de numerosos
pássaros, inclusive tangarás, que são especialmente difíceis
de caçar devido ao seu pequeno tamanho e à sua preferência
pela copa das árvores. Os velhos artesãos fazem cocares, brincos,
colares, pulseiras, braceletes e adornos labiais de penas. Eles são
ostentados com toda a pompa apenas nas cerimônias de nomeação
das crianças, como testemunho da consciência que eles têm
de si mesmos como povo. A arte Ka'apor é também vista nos desenhos
geométricos característicos que as mulheres pintam nos rostos
das pessoas com sumo de urucum e nas cabaças com tintura à base
da casca da árvore makuku (Licania spp.). O trabalho
artístico dos Ka'apor, quando não é feito como um fim
em si mesmo, esmaece na cultura material.
A cultura material inclui arquitetura da casa e da paisagem, ferramentas,
armas, utensílios, redes e vestuário. A cerâmica está
sendo substituída em grande escala por utensílios de cobre e
alumínio importados, mas não é uma arte de todo perdida.
A casa é construída a partir de um plano térreo retangular
e tem um telhado inclinado. Ela normalmente acomoda uma família nuclear
ou no máximo uma família extensa. As colunas são feitas
basicamente de acariquara resistente ao apodrecimento; os barrotes e as vigas,
de cerca de vinte espécies de madeira de lei. Os moradores dormem em
redes de algodão amarradas às colunas e vigas, cortadas e erguidas
pelos homens adultos. Normalmente uma fogueira é mantida acesa na casa
para cozinhar e aquecer as noites frias do período da seca. As mulheres
coletam quase toda a lenha, cuidam de manter o fogo e a maior parte do trabalho
de cozinha.
O espaço imediatamente ao redor da casa é o quintal, geralmente
mantido livre de ervas daninhas. Cada agrupamento residencial normalmente
tem a sua própria casa de processamento de mandioca, onde o forno de
farinha (outrora de argila, hoje em dia de cobre) situa-se no alto de um suporte
de adobe. Ali a maioria das mulheres remexe a massa de mandioca sobre o calor
até que se transforme em farinha (u'i), principal sustento calórico
da dieta, normalmente amolecida e bebida com água em pequenas cabaças
como chibé (u'i-tikwar). Também no quintal, os homens
fazem a maior parte da carpintaria, cestaria e modelagem dos acessórios
de aço, enquanto que as mulheres se encarregam de principalmente trançar,
costurar e tecer.
Religião. Alguns Ka'apor dizem que seus autênticos
xamãs (pajés) morreram numa inundação cósmica,
mas o xamanismo é uma realidade em algumas aldeias, embora pareça
ter sido uma prática adquirida dos Tembé. Os xamãs Ka'apor
dos dias de hoje invocam os "antepassados" (yande ramu~i~)
e uma série de divindades como Ïrïwar (termo glosado
como Mãe d'Água) que se acredita ajudem os xamãs a predizer
o futuro, a restaurar suprimentos de caça esgotados e a diagnosticar
e curar doenças. Parece evidente que há alguma influência
afro-brasileira no xamanismo Ka'apor. Uma das divindades cujo apaziguamento
se busca é o Kurupïr (curupira), um anão malévolo
de pés deformados e pele negra, algumas vezes denominado "o pretinho".
Rituais de cânticos, danças, fumo de tabaco e transe dos xamãs
acompanham essas invocações. Os aprendizes ajudam com os cânticos
e algumas vezes entram em transe também. O xamanismo envolve uma performance
pública, assistida por habitantes da aldeia de todas as idades. Os
xamãs Ka'apor afirmam ter sido chamados espiritualmente para esta ocupação
ao terem sido arremessados (ombor) em um córrego pela Mãe
d´Água, fato de difícil verificação empírica
mas que talvez envolva alterações do estado de consciência
induzidas por jejum e consumo maciço de tabaco.
O espectro da morte manifesta-se por aparições de fantasmas
dos antepassados, chamados angã, que provocam um medo mórbido
e incurável. Infrações aos "tabus" (também
indicado pelo termo polissêmico pajé) podem submeter alguém
a penalidades sobrenaturais. Sobejam os rituais de purificação
envolvendo sangue humano (awa ruwï) e sangria. Os homens que tenham
matado outros, incluindo karaí, tradicionalmente mortificam
seus corpos com um dente de cutia e são obrigados a dietas especiais,
como durante o resguardo. Quando da menarca, a menina é confinada num
recinto fechado por cerca de 12 dias. Após sair da clausura, seus responsáveis
raspam a sua cabeça; aplicam-lhe um cordão de formigas tapiís
vivas (Pachycondyla commutata) na altura da cintura e do peito; e escarificam
suas pernas com dente de cutia, fazendo-as sangrar. Entre os Waiãpi,
a recém-menstruada (yaï-ramõ) passa por provação
similar, o que sugere ser esta uma prática consideravelmente antiga,
datando talvez das origens da própria família lingüística
Tupi-Guarani. A idéia de que o "sangue menstrual" (yaï)
polui a sociedade é reforçada por tabus alimentares (mulheres
menstruadas só podem comer, dentre os animais terrestres, a carne de
jabuti); restrições de atividades (a mulher menstruada não
pode trabalhar na roça, cozinhar ou dar comida a outros, nem banhar-se
no rio da comunidade); e pela existência de um número desproporcional
de remédios caseiros para um "fluxo menstrual excessivo"
(yaï-hu). Durante o resguardo Ka'apor (nino-rahã),
tanto a mãe quanto o seu marido são limitados a alimentos como
os da dieta da menstruação por alguns meses ou mais, na crença
de que a ingestão de outros alimentos prejudica o recém-nascido.
A cerimônia mais positiva na sua cultura é a cerimônia
de nomeação das crianças. Trata-se essencialmente de
uma afirmação da fertilidade Ka'apor e da reafirmação
dos laços exogâmicos entre os agrupamentos residenciais que propiciam
a sobrevivência e o crescimento da população. Tendo sobrevivido
ao nascimento e ao período de restrição alimentar e isolamento
de seus pais, conhecido como resguardo, a criança é candidata
a receber um nome. Normalmente isto é feito quando a criança
já é capaz de se virar e engatinhar por conta própria,
mas pode chegar a ocorrer até um ano ou mais depois do seu nascimento.
Esta cerimônia não é individual, como o é o ritual
da puberdade feminina, mas, ao contrário, veementemente coletiva. Várias
crianças dentro da faixa etária de 1 ano ou mais recebem nomes
de uma só vez. Como cada criança tem que ter padrinhos (ipai-anga)
assim como seus próprios pais presentes, a cerimônia envolve
a maior festa grupal na sociedade. Um dos pais da criança será
o "dono" (-yar) do evento, e ele ou ela deve preparar o caxiri
tradicional de mandioca fermentada, caju ou banana. Todos os adultos e crianças
mais velhas devem bebê-lo de noite. Ao amanhecer do dia seguinte, todos
penduram suas redes na maior casa da aldeia, onde os homens reclinam-se e
fumam longos charutos. No quintal na frente da casa, as mães das crianças
a serem nomeadas sentam-se em esteiras de bacaba e seguram seus filhos em
tipóias de algodão. Todos os adultos e muitos dos jovens enfeitam-se
com seus ornamentos de plumas e este esplendoroso aparato de penas vermelhas,
amarelas, verdes e pretas ajuda a iluminar até mesmo as nuvens escuras
que possam surgir no horizonte do amanhecer.
Logo, o padrinho de uma das crianças começa a gritar o nome
que ele escolheu; este será repetido numerosas vezes pela assistência
de homens e mulheres. Em seguida, o pai ou a mãe da criança
anuncia um segundo nome, aquele que eles escolheram, e este também
será repetido inúmeras vezes pela audiência uníssona.
Então, a criança é erguida pelo padrinho, que sopra um
apito de osso de gavião, o qual é preso a um pingente de penas
vermelhas, azuis e pretas. Ele dança para frente e para trás
com a criança aos prantos em seus braços, anunciando ao mundo
o nome de uma nova pessoa Ka'apor. E assim é feito com todas as crianças
e seus padrinhos, até que os novos nomes estejam bem gravados na memória
coletiva. O padrinho é freqüentemente um afim ou um irmão
do sexo oposto de um dos pais, de forma que é concebível a idéia
de que o afilhado (ou afilhada) possa no futuro vir a desposar a própria
filha (ou filho) do padrinho. Em suma, a sociedade Ka'apor projeta-se para
o futuro pela solene outorga de nomes. Contudo, a permanência deste
ritual de renovação por muito mais tempo como parte integral
de sua cultura dependerá do resultado da luta do povo Ka'apor por terra
e justiça.
Nota sobre as fontes. Os livros publicados sobre os
Ka'apor tratam da situação geral da sociedade e da cultura vista
pela perspectiva dos seus primeiros etnógrafos dos idos de 1950 (Francis
Huxley, Affable Savages, e Darcy Ribeiro, Diários Índios);
efeitos de doenças epidêmicas e redução populacional
no grupo durante os primeiros anos do século XX (Darcy Ribeiro, Uirá
Sai à Procura de Deus); vocabulário da língua Ka'apor
por domínios semânticos, traduzido para o português (James
Kakumasu, Dicionário por Tópicos, Urubu-Kaapor-Português);
a arte plumária e atividades relacionadas (Darcy e Berta Ribeiro, Arte
Plumária dos Índios Kaapor, e Peter Gerber (ed.), Ka'apor:
Menschen des Waldes und ihre Federkunst); e a ecologia humana e etnobotânica
do grupo ao longo do tempo (William Balée, Footprints of the Forest).
Pesquisadores têm publicado estudos significativos da genética
humana da população Ka'apor em artigos e capítulos de
livros (Aguiar e Neves); caça e rituais de caça Ka'apor (Balée);
a história do contato no século XX e os efeitos devastadores
para a população das doenças introduzidas durante aquele
período (Lopes; Ribeiro; Rice); a fauna de primatas do hábitat
Ka'apor (Queiroz); uma descrição da gramática Ka'apor
(Kakumasu); uma série de artigos acerca da etnobotânica Ka'apor
e a relação do povo com o seu ambiente (Balée); e problemas
fundiários e jurídicos enfrentados pelo povo Ka'apor no final
do século XX (Balée). Dissertações e teses de
interesse sobre os Ka'apor incluem um estudo geral etnográfico e etnohistórico
(Balée) e uma excelente contribuição para o estudo da
língua Ka'apor (Corrêa da Silva).
Durante sua pesquisa de campo, Darcy Ribeiro deu orientação
etnográfica a um filme documentário sobre o cotidiano da família
Ka'apor, realizado por Heinz Forthmann, que recentemente foi reproduzido em
vídeo, com comentários na voz do mesmo etnólogo. Por
sua vez inspirado no relato da história de Uirá por Darcy Ribeiro,
Gustavo Dahl realizou um longa metragem.
William Balée
Tulane University
wbalee@mailhost.tcs.tulane.edu
setembro de 1998
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