Nome. Definir quem são os Katukina,
orientando-se exclusivamente pela denominação do grupo, não
é uma tarefa fácil. Desde a primeira metade do século
passado, os registros históricos produzidos por missionários,
viajantes e agentes governamentais sobre as populações indígenas
do rio Juruá fazem referência a grupos indígenas conhecidos
pelo nome de Katukina. Entretanto, "Katukina" (ou Catuquina, Katokina, Katukena
e Katukino) é um termo genérico que chegou a ser atribuído
a cinco grupos lingüisticamente distintos e geograficamente próximos,
conforme o antropólogo Paul Rivet (1920). Atualmente esse número
se reduz a três: um da família lingüística Katukina,
na região do rio Jutaí, no estado do Amazonas, e dois da família
lingüística Pano, no estado do Acre.
Nenhum dos dois grupos pano conhecidos pelo nome de "Katukina" o reconhece
como auto-denominação. Os membros de um deles, localizado às
margens do rio Envira, próximo à cidade de Feijó, preferem
ser reconhecidos como Shanenawa, sua auto-denominação.
Os do outro não reconhecem no nome "Katukina" qualquer significado
na sua língua, mas o adotam, dizendo que a denominação,
na verdade, foi "dada pelo governo".
Este verbete trata apenas do último dos referidos grupos. O nome "Katukina"
tornou-se aceito pelos membros de suas duas aldeias, do rio Campinas e do
rio Gregório, que não possuem uma denominação
étnica comum. As únicas auto-denominações existentes
e amplamente aceitas referem-se aos seis clãs nos quais se dividem:
Varinawa (povo do Sol), Kamanawa (povo da Onça), Satanawa (povo da
Lontra), Waninawa (povo da Pupunha), Nainawa (povo do Céu) e Numanawa
(povo da Juriti). É digno de nota que, com exceção de
Nainawa, tais denominações são idênticas aos nomes
de algumas das seções do povo Marúbo.
Língua. A língua
katukina pertence à família lingüística pano. A
nasalização é uma de suas fortes características.
A maior parte das palavras é dissilábica e oxítona e
novas palavras podem ser formadas a partir combinação de duas
palavras ou da inclusão de um ou mais sufixos. Os pronomes pessoais
não fazem distinção de gênero. Todos os Katukina
falam a sua própria língua para relacionarem-se entre si. O
português é usado exclusivamente para conversar com os brancos.
Apesar do longo período de contato com estes, menos da metade da população
Katukina é fluente em português.
A língua falada pelos Katukina do rio Campinas e do rio Gregório
apresenta diferenças significativas em relação à
língua falada pelos Shanenawa.
Localização. São duas as Terras Indígenas (TI) nas quais vivem os Katukina. A TI do rio Gregório, a primeira a ser demarcada no Acre, em 1982, com 92.859 hectares, no município de Tarauacá, é também habitada pelos Yawanawá, que ocupam sua porção sul. A TI do rio Campinas, demarcada em 1984, com 32.624 hectares, na fronteira dos estados do Amazonas e do Acre, circunscreve-se nos limites dos municípios de Tarauacá (AC) e Ipixuna (AM). Apesar disso, a sede do município de Cruzeiro do Sul é o núcleo urbano que lhe fica mais próximo, a apenas 55 quilômetros da aldeia. A TI do rio Campinas, em toda sua extensão leste-oeste, é cortada pela BR-364 (Rio Branco- Cruzeiro do Sul).
Demografia. Nas duas últimas
décadas, os Katukina tiveram um crescimento populacional de aproximadamente
80%. Segundo dados da Funai, em 1977 os Katukina totalizavam 177 pessoas:
100 na aldeia do rio Gregório e 77 na aldeia do rio Campinas. Passados
pouco mais de vinte anos, em 1998, os Katukina contavam com uma população
total de 318 pessoas: 98 na aldeia do rio Gregório e 220 na aldeia
do rio Campinas. Além do crescimento demográfico, houve uma
inversão no tamanho da população de cada uma das aldeias.
As mudanças de uma aldeia para a outra são bastante comuns e
dependem da avaliação que os Katukina fazem da situação
social, econômica e política de cada uma delas em um determinado
período. A aldeia do rio Campinas tem atualmente mais que o dobro da
população da aldeia do rio Gregório devido a um forte
fluxo migratório, entre os anos de 1994 e 1997, dos moradores da segunda
para a primeira.
História do contato com os brancos.
Os Katukina - assim como os demais grupos indígenas da região
do alto Juruá - foram praticamente cercados quando se iniciou a exploração
econômica da região, por volta de 1880, com a extração
da borracha nativa. A região que habitavam, rica em caucho (Castilloa
elastica) e seringueira (Hevea brasiliensis), foi imediatamente
invadida por peruanos e brasileiros, que chegavam de lados opostos. Os primeiros
tiveram uma presença passageira, pois iam em busca da goma do caucho,
obtida a partir do abate da árvore, que, por isso, esgotou-se rapidamente.
Já os seringueiros brasileiros estabeleceram-se sedentariamente, pois
os cortes superficiais e regulares no tronco da Hevea brasiliensis
permitem a extração da borracha por tempo indeterminado.
Nos primeiros anos do contato com os brancos, os Katukina viveram um período
de deslocamentos constantes, tentando escapar vivos das "correrias" - incursões
cujo objetivo era eliminar as populações indígenas para
liberação dos seringais -, organizadas por caucheiros peruanos
e seringalistas brasileiros. Fugindo das "correrias", os Katukina dispersaram-se
na região. Sem condição de se manterem reunidos, passaram
a se deslocar pela floresta, vivendo da caça, coleta e de assaltos
aos roçados que encontravam pelo caminho, pois não mais podiam
fazer os seus, uma vez que seriam uma pista fácil que inevitavelmente
levaria os brancos de volta até eles. Além disso, os deslocamentos
eram impulsionados também pela crença de que os espíritos
dos mortos, saudosos de seus parentes, poderiam vir à terra para buscá-los.
Na primeira década deste século, cessaram as "correrias", em
parte porque as árvores de caucho, que precisavam ser abatidas, esgotaram-se
e também devido aos conflitos de fronteira entre o Brasil e o Peru,
que foram resolvidos por um tratado em 1909. Contribuiu ainda com o fim das
"correrias" a queda do preço da borracha no mercado internacional em
1912. As "correrias" tiveram um fim, porém os Katukina guardam com
horror as lembranças transmitidas por seus pais e avós, que
falam de fugas e desencontros pelas matas e são repletas de imagens
de corpos mutilados e marcados pela violência.
Com o povoamento da região, os Katukina tiveram o território
em que moravam e sua população drasticamente reduzidos - também
não podendo ser ignoradas as perdas populacionais ocasionadas pelas
doenças que outrora não existiam entre eles. Sem outra alternativa,
os Katukina acabaram por engajar-se na empresa seringalista, mas continuaram
dispersos na região, pois tornou-se comum que cada família elementar
se estabelecesse para trabalhar em um seringal diferente. Isso, evidentemente,
estabeleceu uma ruptura em sua sociedade, já que não podiam
mais organizar e partilhar suas vidas de acordo com seus próprios princípios
e valores socioculturais.
Neste vai-e-vem entre rios e seringais, a referência era sempre o rio
Gregório, precisamente o seringal Sete Estrelas, para onde os Katukina
sempre retornavam após períodos de duração variável
em diferentes locais. As mudanças de um rio ou de um seringal para
outro são parte da memória katukina, cujos pontos principais
de passagem eram os seringais Sete Estrelas e Caxinauá no rio Gregório,
Universo no rio Tarauacá, e Guarani e Bom Futuro no riozinho da Liberdade.
Na década de 50, houve uma interrupção nos deslocamentos
e a maior parte dos Katukina, se não todos, estavam reunidos no seringal
Sete Estrelas. Na década seguinte ocorreu a cisão do grupo devido,
por um lado, a desentendimentos entre os Katukina, o chefe deles e o novo
patrão do seringal para quem trabalhavam e, por outro, a desentendimentos
com os Yawanawá, grupo indígena pano vizinho da aldeia do rio
Gregório, com o qual as relações sempre oscilaram entre
a hostilidade aberta e a amizade comedida. Em busca de mais um patrão
e precavendo-se contra a eminência de conflitos com os Yawanawá,
parte do grupo resolveu procurar outro lugar para morar. Acabaram estabelecendo-se
por aproximadamente oito anos em um seringal próximo da foz do Riozinho
da Liberdade, na fronteira dos estados do Acre e do Amazonas.
Da década de 70 datam dois eventos que contribuíram de forma
determinante na localização contemporânea das aldeias:
a abertura da BR-364 (Rio Branco-Cruzeiro do Sul) e a chegada da Missão
Novas Tribos do Brasil (MNTB) para atuar junto aos Katukina do rio Gregório.
Com o início da obra da BR-364, parte do grupo que havia na década
anterior se estabelecido próximo da foz do Riozinho da Liberdade deslocou-se
para trabalhar junto ao 7º BEC (Batalhão de Engenharia de Construção)
no desmatamento para a construção da estrada; e também
outros deslocaram-se do rio Gregório. Após o término
do desmatamento, os Katukina obtiveram autorização do 7º BEC
para morar às margens da estrada, que eles julgavam um bom local devido
à proximidade da cidade de Cruzeiro do Sul, onde, tinham a esperança,
poderiam vender facilmente o que produzissem e obter os bens industrializados
de que necessitassem. Aqueles que voltaram ou permaneceram na aldeia do rio
Gregório viam nos missionários (MNTB) uma possibilidade de assistência
médica e educacional regular.
Somente em meados da década de 1980, após tantos anos de perambulação
e deslocamentos, os Katukina viram garantidos o direito à posse do
território onde habitavam e romperam os vínculos que os ligavam
aos patrões seringalistas.
Contato com outras etnias.
Ao longo de sua história, os Katukina têm mantido contato, pacífico
ou não, com vários grupos indígenas da região
do rio Juruá e, recentemente, também da região do rio
Javari. Os Kulina, os Yawanawá e os Marúbo são os três
grupos com os quais os contatos foram e são mais intensos e significativos
para os Katukina.
Os contatos entre os Katukina e os Kulina - falantes de uma língua
arawá e que vivem atualmente em aldeias dispersas ao longo dos rios
Juruá e Purus, no Brasil e no Peru - mantiveram-se freqüentes,
pelo menos até a década de 1960. Membros dos dois grupos costumavam
encontrar-se principalmente para realizarem juntos certos rituais. Nos dias
de hoje, os Katukina e os Kulina não mais se encontram, já que,
devido aos sucessivos deslocamentos dos Kulina, os dois grupos moram distantes
um do outro -, mas os Katukina ainda se lembram das cantigas que lhes foram
ensinadas pelos Kulina. As cantigas kulina foram incorporadas ao repertório
musical katukina e eles as entoam ainda hoje, apesar de não compreenderem
o conteúdo dos cantos.
Dos grupos pano da região do alto Juruá, os Yawanawá
são os vizinhos mais próximos e mais antigos dos Katukina, e
atualmente dividem a TI do rio Gregório com eles.
Os Yawanawá também sempre foram seus adversários mais
assíduos. Os Katukina acusam os Yawanawá de terem, no passado,
raptado suas mulheres, desencadeando guerra entre eles. As acusações
de feitiçaria, também freqüentes, persistem nos dias atuais.
Apesar da rivalidade, os Katukina e os Yawanawá não se opõem
o tempo todo. A realização conjunta de rituais, inter-casamentos
e co-residência, no passado e no presente, não são raros
entre eles. A ambivalência, antes que a oposição pura
e simples, é o que rege suas relações. Tanto assim que
os incontáveis anos de rivalidade não os afastaram definitivamente
um do outro e, na década de 1980, os dois grupos chegaram mesmo a se
unir para reivindicarem a demarcação conjunta de suas terras.
Um pouco mais distantes, os Marúbo têm também mantido
contatos regulares com os Katukina, mas apenas a partir de anos recentes.
O pouco tempo de aproximação, entretanto, não impede
que os Marúbo sejam hoje o grupo com o qual os Katukina mais se identificam.
O primeiro encontro entre os dois grupos parece ter ocorrido na década
de 1980, quando missionários da MNTB (que atuam também entre
os Marúbo do rio Ituí) levaram dois Katukina, moradores do rio
Gregório, para conhecerem os Marúbo. Esse encontro, entretanto,
parece não ter tido maiores desdobramentos. A aproximação
entre os Katukina e os Marúbo aconteceu apenas na década seguinte,
em 1992, a partir de um encontro casual no porto da cidade de Cruzeiro do
Sul. Os Katukina estavam andando pelo porto, quando ouviram algumas pessoas
falando uma língua parecida com a deles e resolveram se aproximar.
Apresentaram-se, trocaram algumas palavras e logo descobriram que, além
da língua, eles tinham outras características em comum. A principal
delas seria a de que entre os Marúbo algumas pessoas também
se identificavam como Satanawa, Varinawa, Kamanawa, Waninawa e Numanawa. Naquela
ocasião eles trocaram alguns presentes e combinaram novos encontros.
Desde o encontro em Cruzeiro do Sul, dois Katukina visitaram as aldeias Marúbo,
no rio Ituí, e cinco Marúbo visitaram a aldeia do rio Campinas.
A partir dessas visitas, os Katukina passaram a refletir sobre as semelhanças
e diferenças que apresentam em relação aos Marúbo
e sobre as causas que pudessem explicá-las. A principal delas seria
que, no passado, os Marúbo formavam um mesmo grupo com os Katukina.
Entretanto, a separação entre eles teria acontecido em um tempo
em que nem os Katukina nem os Marúbo contemporâneos, nem seus
pais e avós, seriam nascidos. Muito antes ainda de conhecerem os brancos.
De acordo com os Katukina, as semelhanças deles com os Marúbo
podem ser atestadas em vários aspectos: os Marúbo subdividem-se
em várias seções e algumas delas têm as mesmas
denominações de seus próprios clãs; a língua
marúbo é parecida com a língua katukina; as casas comunais
em que vivem os Marúbo seriam semelhantes às casas em que viviam
antes de estabelecerem contato com os brancos. Os Katukina concordam que a
forma como os Marúbo vivem atualmente representa o modo de vida deles
no passado e os Marúbo são vistos por eles, então, como
uma sociedade proto-katukina.
Vida social. A composição
mais comum das aldeias katukina é do grupo doméstico formado
por um casal mais velho, rodeado de seus filhos e filhas solteiras, filhos
casados e netos. Observa-se, portanto que, após o casamento, as mulheres
vão morar próximo às famílias de seus maridos.
Tal orientação inverte a regra de residência que vigorava
no passado, pois, como os próprios katukina admitem, eram os rapazes
que, antes, se deslocavam para as proximidades das famílias de suas
esposas. Unidos por laços de parentesco e casamento, os moradores de
um mesmo grupo doméstico cooperam entre si no desempenho das atividades
cotidianas.
Na aldeia do rio Campinas, os grupos domésticos são compostos
de duas a sete casas que se distribuem ao longo da beira da estrada a uma
distância variável de cinco a quinze minutos de caminhada um
do outro. Já na aldeia do rio Gregório, quase todos os grupos
domésticos estão distribuídos na margem direita desse
rio, próximos da pista de pouso e das instalações da
MNTB.
A regra de casamento entre os Katukina determina que um homem deve casar com
uma mulher que ele chama de pano, uma categoria que inclui a filha
do irmão da mãe e a filha da irmã do pai. Por sua vez,
uma mulher deve casar-se com seu txai, uma categoria que inclui o filho
do irmão da mãe e o filho da irmã do pai. É comum
que, em caso de separação ou viuvez, um homem se case com a
irmã de sua ex-esposa. A poliginia é admitida e, normalmente,
as esposas de um mesmo homem são irmãs.
Os Katukina têm um repertório vasto de mitos que falam das punições
daqueles que mantiveram ou desejaram ter relações incestuosas.
A Lua é a cabeça de Oshe, um rapaz que foi flagrado tentando
ter relações sexuais com sua irmã e que, para escapar
da morte, se refugiou no céu. Vésper é também
a cabeça de um rapaz incestuoso, cunhado de Oshe, que teve o
mesmo destino. Qualquer jovem katukina conhece essas histórias, que
lhes foram contadas inúmeras vezes durante a infância por seus
avós.
Os clãs katukina.
Como vimos antes, os Katukina dividem-se em seis clãs: Varinawa, Kamanawa,
Nainawa, Waninawa, Satanawa e Numanawa. Esses clãs organizam-se a partir
de um princípio de unifiliação, mas, a esse respeito,
os Katukina estão em desacordo: enquanto uns afirmam a matrilinearidade,
outros afirmam a patrilinearidade.
Há um verdadeiro debate entre os Katukina para saberem qual é
o princípio de unifiliação "correto". De um lado, estão
os partidários da matrilinearidade, que se dizem mais fiéis
ao passado. De outro, estão os adeptos da patrilinearidade, que chegam
a reconhecer abertamente que houve uma inversão na regra de filiação
nos anos recentes.
O que rege essa discussão é a idéia de que há
um princípio "correto", "puro", que exprime a ordem tradicional. Aqueles
que afirmam a filiação por linha materna buscam no passado o
modelo desta ordem e através de genealogias inquestionáveis
exprimem aquilo que julgam o ideal. Entretanto, aqueles que, agora, dizem
que os Katukina são patrilineares também o fazem buscando este
mesmo sentido de "pureza", de tradição. Mas, com um detalhe
importante: o modelo é kaxinawá. Alguns Katukina dizem que,
há aproximadamente quinze anos atrás, eles souberam que os Kaxinawá
são patrilineares. Como já fazia algum tempo que ninguém
sabia ao certo como viviam os "antigos", alguns destes katukina resolveram
afirmar a patrilinearidade, do mesmo modo como os Kaxinawá. O pressuposto
deste empréstimo é claro: se não há uma "regra"
nativa consistente e inquestionável, ela pode ser encontrada noutro
lugar.
A questão de saber qual é, afinal, o princípio de filiação
às unidades katukina resulta então em aberto. Há um debate
entre eles que mobiliza posições tão díspares
quanto interessantes, pois têm em comum a afirmação de
que perderam algo no contato com os brancos. Algo que só pode ser reposto
voltando-se ao passado e a si mesmos, como querem os defensores da filiação
em linha materna ou buscando entre outros pano o modelo que supostamente existia
entre os Katukina, como afirmam aqueles que defendem a filiação
em linha paterna.
Apesar de predominar a indefinição da regra de filiação,
é possível definir as unidades internas que compõem a
sociedade katukina como clãs, pois subjaz entre os Katukina a idéia
que poderia ser chamada de "ancestralidade suposta" ou "presumida", ou seja,
os Varinawa contemporâneos são tidos como descendentes dos antigos
Varinawa, os Kamanawa dos antigos Kamanawa e assim por diante.
Talvez seja esclarecedor pensar em um "processo de clanificação"
das auto-denominações katukina. Como vimos, quando os Katukina
tomaram conhecimento da patrilinearidade kaxinawá, já havia
entre eles um certo sentimento de perda da organização tradicional
(normalmente creditada à influência dos valores ocidentais).
Recorrendo a qualquer uma das formas de traçar a filiação
(materna ou paterna), os Katukina reforçam simplesmente uma idéia
de "ancestralidade", mas sem articulá-la diretamente com outros níveis
da organização social (como ocorre com os Marúbo, por
exemplo).
Nome pessoais. Os Katukina
usam dois tipos de nome: em sua própria língua e em português.
A atribuição de um nome do segundo tipo não segue nenhum
padrão preestabelecido e qualquer pessoa pode sugerir um nome em português
para uma criança recém-nascida, que será bem recebido
principalmente se for inédito na aldeia. Ao primeiro nome acrescentam,
respectivamente, os sobrenomes da mãe e do pai.
Se na escolha dos nomes em português um dos principais critérios
é o ineditismo, ocorre o contrário quando se trata dos nomes
em katukina: os nomes se repetem, uma vez que provêm todos de um acervo
comum que os katukina se esforçam em preservar. Em termos práticos,
isso quer dizer que os pais escolhem para seus filhos os nomes de seus próprios
parentes.
Os pais são quem nomeia seus filhos, do sexo masculino e feminino,
algumas vezes consultando antes pessoas mais velhas. A atribuição
de um nome pessoal é algo simples e nenhuma cerimônia ou ritual
é realizado: uma vez escolhido, basta os pais começarem a usá-lo.
O nome recebido na infância é definitivo.
A prática onomástica katukina é bastante variada e só
não é permitido atribuir o próprio nome ao filho ou o
nome de um filho morto. Dentre as alternativas existentes, a mais comum é
os pais atribuírem a seus filhos o nome de seus próprios pais,
isto é, se é uma menina os pais escolhem o nome da avó
materna ou paterna, se é um menino escolhem o nome do avô paterno
ou materno. A transmissão dos nomes através de gerações
alternadas explicita o vínculo afetivo entre avós paternos e
netos, que é bastante forte entre os katukina. Um outra alternativa,
menos praticada, são os nomes dos tios maternos e paternos da criança.
Deve-se observar, entretanto, que, nesse caso, os tios ou tias, sejam eles
quais forem, já devem ter morrido e a escolha do nome é uma
forma de colocá-lo novamente em circulação, permitindo
assim que se preserve o acervo de nomes pessoais. Nesse caso, a reposição
do nome assume um certo sentido de "homenagem", de demonstração
de afeição ou estima pela pessoa que portava anteriormente o
nome.
Embora os nomes sejam todos indeterminadamente repostos, não há
qualquer idéia de reencarnação ou de que uma pessoa deva
substituir a outra. A identidade entre homônimos encerra-se com o nome.
Homens e mulheres, a vida doméstica.
Uma das mais importantes divisões sociais entre os Katukina, que perpassa
e engloba todas as ações do cotidiano, é aquela entre
os gêneros. Desde muito cedo as crianças são socializadas
de acordo com os papéis sexuais que lhes cabem. Embora até a
puberdade não seja esperado que as crianças contribuam na produção
doméstica, elas já desempenham as tarefas mais fáceis
de seu gênero. Após a puberdade já é esperado que
as pessoas se dediquem mais às atividades domésticas e os pais
exigem a ajuda de seus filhos. Rapazes e moças para poderem se casar
devem saber desempenhar suas tarefas específicas e a ajuda que dão
aos pais neste período é, ao mesmo tempo, uma forma de aprendizado.
As duas principais atividades masculinas são a caça e o preparo
do roçado. A primeira, sem dúvida, é a atividade mais
apreciada por todos. A caça exige muito mais do que força e
disposição. Os garotos, por volta de 12-14 anos, começam
a acompanhar seus pais na mata, para aprenderem os segredos que um bom caçador
deve saber: reconhecer os rastros dos animais, seus gritos e assobios, os
horários de atividade e inatividade. A melhor época para a caça
é o "inverno", período das chuvas, que começa
em novembro e prossegue até abril. Nesta época é que
amadurecem e caem a maior parte dos frutos que servem de alimento aos animais,
fazendo com que sejam mais facilmente encontrados. As chuvas, umedecendo o
chão da floresta, facilitam a identificação dos rastros
dos animais e abafam o barulho dos movimentos do caçador.
Apesar da grande valorização da caça, é a agricultura
que oferece a maior parte dos itens que compõem a dieta e é
também a atividade que absorve maior tempo de trabalho de homens e
mulheres. A macaxeira e a banana são os principais vegetais da dieta.
Numa escala secundária plantam batata-doce, cará, taioba, inhame,
mamão, abacaxi e cana-de-açúcar. Recentemente os Katukina
passaram também a reservar uma grande área do roçado
para o plantio de arroz e de milho, para comercializar.
Os homens são responsáveis pela abertura de roçados para
suas esposas e entre os meses de maio e julho fazem a broca dos arbustos e
a derrubada de grandes árvores. Terminada esta etapa, interrompem o
trabalho no roçado até que a vegetação esteja
toda seca, por volta do final de agosto e início de setembro, quando
fazem a queimada e, posteriormente, o plantio da macaxeira. Já a batata-doce,
a taioba, o inhame, o mamão, o abacaxi, a cana-de-açúcar
e o algodão são plantados pelas mulheres. O mamão e a
cana-de-açúcar são plantados nos roçados e também
nas imediações das casas. O plantio do arroz e do milho é
feito por homens e mulheres.
Enquanto as atividades masculinas são executadas fora da casa, grande
parte das atividades femininas concentram-se em seus limites. A única
exceção é a colheita de macaxeira e banana no roçado.
As outras atividades, preparar os alimentos, cuidar dos filhos e lavar roupas
e utensílios domésticos, são restritas ao espaço
da casa ou às suas imediações.
Sempre que houver tempo disponível, uma mulher deverá ainda
fazer caiçuma, que pode ser de macaxeira (atsa matxu) ou banana
(mane mutsa). O preparo da caiçuma de banana é simples:
basta cozinhar a banana, amassá-la (não é mascada) e
adicionar um pouco de água. Já o preparo da caiçuma de
macaxeira demanda maior tempo e esforço e a iniciativa de fazê-la
é sempre de mulheres adultas. Para preparar a caiçuma, a primeira
coisa a fazer é colher a macaxeira no roçado; após descascada
e lavada, a macaxeira deve ser cortada em pequenos cubos que são colocados
numa panela com água e cobertos com folhas de bananeira; podem também
acrescentar algumas batatas-doces. Após o cozimento, as mulheres amassam
bem a macaxeira com uma colher de madeira e deixam a massa esfriar. Posteriormente,
mascam toda a macaxeira cozida até que adquira a consistência
de uma pasta. A etapa seguinte consiste em coar essa pasta. Feito isso a caiçuma
está pronta e para consumi-la é necessário apenas acrescentar
um pouco de água. Em tempos passados, as mulheres dizem que faziam
também caiçuma de pupunha e de milho.
Atualmente o grau de fermentação da caiçuma de macaxeira
é bastante baixo, uma vez que após o preparo é imediatamente
consumida e a quantidade que costuma ser feita pelas mulheres é suficiente
apenas para dois ou três dias. Outrora, dizem as mulheres katukina,
era feita muita caiçuma azeda (katxa matxu), de alta fermentação,
mas os homens se embriagavam e brigavam. Para conter as brigas, as mulheres
decidiram suspender o preparo da caiçuma azeda e atualmente preparam
apenas a caiçuma doce, de baixa fermentação, pois não
causa embriaguez. O grau de fermentação da caiçuma determina
não somente o teor alcóolico quanto o círculo de consumo.
A caiçuma azeda, quando ainda era elaborada, tinha um círculo
largo de consumo e estava associada a ocasiões rituais. Em contrapartida,
a caiçuma doce está associada ao consumo restrito e doméstico.
A decisão das mulheres de suspenderem o preparo da caiçuma azeda
coincide com o fim da realização de certos rituais katukina.
Na maior parte das vezes, homens e mulheres desempenham atividades distintas
em espaços também distintos. Todavia, certas atividades não
se enquadram nessa divisão e podem ser realizadas por homens e mulheres,
num mesmo espaço. As principais são a pesca e a coleta de frutos
silvestres.
Os katukina plantam tingui (asha) e com suas folhas preparam uma pasta
que colocam nos rios para sufocar os peixes e facilitar sua apanha. Nas grandes
expedições de pesca não participam apenas as crianças
menores de seis anos e as mulheres encarregadas de cuidar delas (mãe,
irmã mais velha ou avó). O período para realização
das pescarias coletivas vai de junho a novembro, do "verão" até
o começo do "inverno", quando os rios e igarapés estão
rasos e os peixes se refugiam nos remansos. Atualmente, na aldeia do rio Campinas,
a caça começa a se tornar rara e os peixes são a principal
fonte de proteína animal.
A coleta de frutos silvestres, feita mais freqüentemente pelas mulheres,
conta também com a participação dos homens. Isso porque
os frutos mais encontrados (açaí, buriti, patauá, bacaba
e cocão) dão em palmeiras muito altas e é preciso que
pelo menos um homem acompanhe as mulheres para cortar a árvore ou nela
subir.
Em todas as atividades a divisão do trabalho mantém a reciprocidade
entre os gêneros - da qual, aliás, é fundadora. Circunscritos
em domínios, os diferentes produtos e tarefas de homens e mulheres
são concebidos como complementares uns aos outros.
No aconselhamento que antecede a consumação de um casamento,
os pais orientam os noivos a cumprirem suas tarefas específicas: o
rapaz deve caçar e preparar um roçado para sua mulher; por sua
vez, ela deve sempre colher a macaxeira no roçado e preparar a comida
e a caiçuma, além de cuidar dos filhos e lavar roupas. No aconselhamento
essas obrigações são repetidas insistentemente e os noivos
sabem que o não cumprimento de suas tarefas pode levar à separação.
A expectativa de cooperação mútua entre homens e mulheres
está expressa também nas partes do corpo em que cada um deve
aplicar o veneno de um sapo (Phyllomedusa bicolor) que chamam de kampo:
os homens, nos braços e peito; as mulheres, nas pernas. Ao kampo
está associado uma variedade de propriedades benéficas para
acabar com a preguiça e com a panema (falta de sorte na caça),
além de curar doenças. A aplicação do kampo
causa vômitos e diarréia e, assim, eliminam-se os males do corpo
que impedem o pleno desenvolvimento das capacidades físicas. De acordo
com os Katukina, os homens precisam de força nos braços e no
peito para caçarem e abrirem os roçados e as mulheres, nas pernas
para carregarem os paneiros com macaxeira, além dos filhos.
"Brincadeira da cana-de-açúcar".
Os jogos ou "brincadeiras", como dizem os Katukina, opõem homens
e mulheres de todas as idades, disputando cana-de-açúcar e mamão
ou atacando-se uns aos outros com barro e fogo. A palavra vete designa
todos estes jogos, mas vem sempre antecedida pelo fruto que se disputa ou
substância com a qual se atacam. Assim, tavata vete é
traduzido como "brincadeira da cana-de-açúcar" e ti'i
vete como "brincadeira do fogo".
Para que os Katukina decidam realizar os jogos, não há maiores
transtornos. Basta ter cana-de-açúcar ou mamão em grande
quantidade e que as pessoas estejam dispostas a participar. Não há
uma data certa para a realização dos jogos, mas eles costumam
ser feitos com maior freqüência no período do "verão",
quando o deslocamento das pessoas na aldeia se torna mais fácil.
O jogo começa quando um homem pega um pedaço de cana-de-açúcar
e passa em frente a uma mulher, arrastando-o no chão, próximo
ao pé dela. Entretanto, ele não se dirige a qualquer mulher,
mas sim àquelas que possam ser classificadas como suas pano
(primas cruzadas, esposas potenciais). A mulher então responde à
provocação e começa a disputar o pedaço de cana-de-açúcar
com ele. Pouco a pouco outras mulheres aproximam-se para ajudá-la e,
vendo o amigo em dificuldades, outros homens também juntam-se a ele.
Muitas vezes, há mais de um grupo disputando os pedaços de cana-de-açúcar
e tais grupos são formados segundo o critério de geração.
As crianças formam um grupo, as garotas que não passaram da
puberdade são incluídas nele. Jovens solteiros e casados jogam
juntos, formando um ou dois grupos, dependendo do número de pessoas
que participam.
As pessoas, sobretudo os homens, freqüentemente se machucam nos jogos.
As mulheres podem bater (e, de fato, batem) com o máximo de força
que têm para tirar a cana-de-açúcar (ou o mamão,
se for o caso) das mãos dos homens. No fim dos jogos os homens saem
com as roupas todas rasgadas e com costas e peitos marcados pelos tapas e
socos que as mulheres lhes dão, aos quais eles não podem nunca
revidar. A única forma de agredir as mulheres que os homens têm
é verbal.
A agressão, verbal e física, é central nos jogos, mas
parece existir apenas para dissimular a sedução, pois, se há
socos e zombarias, há também contatos corporais eróticos.
Ao redor de um pedaço de cana-de-açúcar aglutinam-se
homens e mulheres que estão a todo momento com seus corpos praticamente
colados uns nos outros.
Os homens nunca saem vitoriosos. Quando as mulheres têm o domínio
da cana-de-açúcar (ou do mamão) elas correm em direção
às mulheres mais velhas que estão apenas observando e entregam-na
para elas (preferencialmente para suas mães). A disputa recomeça
então com outro pedaço de cana-de-açúcar. Os homens,
entretanto, nunca ganham uma disputa entregando um pedaço de cana-de-açúcar
aos homens mais velhos. Quando os homens têm o controle e a vantagem
do jogo, fazem mais zombarias, dizem que são fortes e puxam violentamente
a cana-de-açúcar, às vezes arrastando algumas mulheres
que insistentemente seguram na outra extremidade. Se é um mamão,
os homens ficam atirando-o de um lado para o outro. Os jogos terminam somente
quando as mulheres conseguem conquistar todos os frutos que estavam sob o
controle dos homens.
O fato de que os homens nunca ganham o jogo pode ser compreendido analisando
a economia katukina. A distribuição de todo alimento, não
só da carne, é controlada pelas mulheres. Os homens nunca fazem
ofertas de carne ou de qualquer outro alimento a outros homens.
Os jogos, nesse sentido, podem ser interpretados como uma representação
do padrão de cooperação que organiza as relações
de troca entre homens e mulheres na aldeia. Como na produção,
os homens nos jogos cooperam entre si. As mulheres formam também um
grupo solidário, mas a cooperação entre elas está
centrada na distribuição. Aqui então é necessário
corrigir e afirmar que, menos do que uma vitória, as mulheres conquistam
o empate, restabelecendo o equilíbrio entre os sexos e, conseqüentemente,
de toda a comunidade.
Para além do simbolismo das trocas econômicas expresso nos jogos,
é possível perceber também um forte apelo sexual em flertes
explícitos e em sorrateiras escapulidas de casais para a mata durante
ou após a sua realização. Contudo, isso não quer
dizer que as trocas econômicas e sexuais sejam equivalentes. Entre elas
há certamente correlação. Assim como homens e mulheres
devem trocar produtos e serviços para viver, da mesma maneira devem
fazer para procriar. Além disso, os jogos subvertem o padrão
de comportamento cotidiano entre os Katukina. O comedimento das relações
inter-pessoais dá lugar durante os jogos à licenciosidade quase
absoluta e tudo se passa como se a comunidade vivesse um grande êxtase,
permitindo momentaneamente que a densa rede de relações, econômicas
e sexuais, mútuas entre homens e mulheres sejam explicitadas. Os jogos
katukina destacam a troca, mas não apenas uma troca imediata entre
homens e mulheres, que garante a subsistência, quanto uma troca maior,
a longo prazo, que garante a própria continuidade da sociedade.
Aspectos contemporâneos.
A atuação da FUNAI entre os Katukina é praticamente inexistente
e, para implementar iniciativas em áreas essenciais, como educação
e saúde, eles têm estabelecido parcerias com Organizações
Não-Governamentais.
Na TI do Rio Campinas há duas escolas e os professores são os
próprios índios, formados em cursos anualmente oferecidos pela
Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-AC) desde 1980, nos quais
elaboram o material didático bilíngüe a ser utilizado na
sala de aula. A mesma organização assessora as escolas. A CPI-AC
e a Fundação Nacional de Saúde têm oferecido cursos
de treinamento para alguns índios atuarem como agentes de saúde.
A partir do início dos anos 90, o Conselho Indigenista Missionário
(CIMI) também tem estado presente entre os Katukina do rio Campinas,
desenvolvendo ações de apoio em áreas como agricultura
e saúde. Na TI do Rio Gregório, a MNTB oferece assistência
à saúde e educacional desde 1972.
Na TI do Rio Campinas a maior parte dos recursos financeiros de que os Katukina
dispõem para se abastecerem de artigos industrializados (machados,
terçados, querosene, roupas etc.) é proveniente da aposentadoria
dos índios mais velhos, que têm direito ao benefício como
trabalhadores rurais. Poucos são aqueles que conseguem vender algum
excedente agrícola nos mercados de Cruzeiro do Sul. Embora estejam
próximos da cidade, os Katukina não têm meios de transporte
próprios e o custo do frete para deslocarem-se com seus produtos agrícolas
até a cidade é muito alto. Na TI do Rio Gregório a situação
é ainda mais precária. Poucos são os índios que
se aposentaram e a longa distância, combinada com a falta de meios de
transporte, até Tarauacá ou Cruzeiro do Sul, cidades nas quais
são feitos os pagamentos mensais, faz com que alguns desistam do benefício.
Pelo mesmo motivo, não conseguem comercializar sua produção
agrícola. Para suprir a falta de artigos industrializados, alguns katukina
se empregam em pequenos serviços para os missionários da MNTB,
recebendo como pagamento as mercadorias de que necessitam.
A partir de 1996, os governos estadual e federal deram início às
obras de asfaltamento da BR-364 (Rio Branco-Cruzeiro do Sul). A rodovia atravessa
por 18 km a TI do Rio Campinas, em toda sua extensão leste-oeste. Entretanto,
até o momento, não foram implementadas nem sequer estabelecidas
medidas compensatórias que possam minimizar os prejuízos socioambientais
que serão causados aos Katukina do rio Campinas, diretamente afetados,
nem aos demais povos indígenas da região do alto Juruá
e do vale do Javari que sofrerão os efeitos indiretos do asfaltamento
da rodovia.
Nota sobre as fontes. A
etnografia katukina começou a ser elaborada por Edilene Coffaci de
Lima, que fez vários períodos de pesquisa de campo desde o início
de 90. As relações interétnicas e a organização
social katukina foram abordadas em sua dissertação de mestrado,
defendida na Universidade de São Paulo, e também em artigos
publicados em revistas especializadas. No momento, Lima pesquisa a noção
de pessoa e o xamanismo katukina, como doutoranda na Universidade de São
Paulo.
A língua katukina tem sido tratada em diversos estudos. A nasalização
vocálica e a fonologia da língua katukina foram o tema da dissertação
de mestrado de Luizete Guimarães Barros, defendida na Universidade
Estadual de Campinas. Maria Sueli de Aguiar pesquisou a sintaxe da língua
katukina tanto no mestrado quanto no doutorado, ambos defendidos na Universidade
Estadual de Campinas, e também em artigos publicados em revistas especializadas.
Aguiar continua pesquisando entre os Katukina e, atualmente, seus trabalhos
incluem a preparação de um vídeo sobre aspectos gerais
da cultura katukina e a futura publicação de um dicionário
katukina-português.
Uma nova pesquisa sobre a língua katukina está em andamento:
Élder José Lanes, mestrando da UFRJ, elabora um estudo comparativo
entre as línguas Katukina, Shanenawa, Yawanawá e Poyanawa, entre
outras línguas pano.
Fora do âmbito estritamente acadêmico, a Missão Novas Tribos
do Brasil mantém publicações de livros de alfabetização
na língua katukina. Os índios Benjamim André Katukina
(Shere) e Francisco Chagas Katukina (Teka) organizaram uma coletânea
de mitos katukina e diversos livros de alfabetização, todos
publicados pela CPI-AC.
O padre espiritano Constantin Tastevin é o autor dos melhores registros
históricos, mas também etnográficos, sobre os grupos
conhecidos como Katukina nas duas primeiras décadas deste século.
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