Informações gerais. Até a década de 80, o estado
do Ceará, assim como os do Piauí e do Rio Grande do Norte, eram dados, pelos
registros da FUNAI e pelos levantamentos produzidos por antropólogos e missionários,
como os únicos estados no Brasil, além do Distrito Federal, em que inexistiam
índios. No Ceará, entretanto, a presença indígena deixou de ser ignorada
quando a então Equipe de Assessoria às Comunidades Rurais - hoje, Equipe de
Apoio à Questão Indígena - da Arquidiocese de Fortaleza passou a atuar no
município de Caucaia, junto à coletividade dos Tapeba.
"Tapeba", "tapebano" ou "perna-de-pau" são
atribuições étnicas pelas quais uma dada coletividade se identifica e é
reconhecida na paisagem social local do município de Caucaia como constituindo
um grupo distinto. Esse reconhecimento estende-se ao nível regional, dada a
repercussão, nos meios de comunicação, do movimento reivindicatório que os
Tapeba encamparam, com o apoio da Arquidiocese de Fortaleza, visando a proteção
de algumas áreas que ocupam hoje (entre as quais, o manguezal às margens do
Rio Ceará) e a recuperação do território da antiga Aldeia de Nossa Senhora
dos Prazeres de Caucaia, exigindo junto à FUNAI a demarcação de uma área indígena.
Tapeba também é um topônimo. É o nome de uma lagoa e um riacho periódico -
afluente da lagoa da Barra Nova (ou do Poço) - da área rural do distrito da
sede do município de Caucaia, na proximidade dos quais moram famílias Tapeba,
numa área onde a sua presença é majoritária. Já em 1721, registrava-se o
topônimo Tapeba para a referida lagoa. O emprego toponímico do termo tapeba,
entretanto, é mais freqüente para designar uma área mais inclusiva, genérica
e de limites vagamente definidos, abarcando a lagoa e o riacho homônimos,
limitando-se ao sul com a lagoa dos Porcos, ao norte com a localidade de
Pedreira e o povoado do Capuan, a oeste com a localidade de Cutia e a leste com
o rio Ceará. Às vezes, contudo, estas localidades mesmas acabam sendo
englobadas pelo topônimo Tapeba, dando ao observador a impressão de que - como
eles dizem - "é tudo um lugar só, tudo é só uma terra só".
Tapebano, assim, é uma locução adjetiva para "do Tapeba", "da
lagoa do Tapeba". Perna-de-Pau, por sua vez, constitui uma referência ao
apelido de um ancestral ao qual comumente remontam ao traçar a sua genealogia -
no que diz respeito a pelo menos um segmento dos Tapeba, a família de Zabel.
A etimologia da palavra tapeba é tupi, segundo acordo entre vários autores
(como Alfredo Moreira Pinto e Thomaz Pompeu Sobrinho), constituindo uma variação
fonética de itapeva (de itá/tá, i. é,
"pedra"; e peva, i. é, "plano", "chato"):
"pedra plana", "pedra chata", "pedra polida", etc.
O nome do município em que se encontram também é de origem tupi,
representando uma variação de ka'a-okai (de ka'a, i. é,
"erva", "mato", "bosque", "floresta"; e okai,
i. é, "queimar"): "mato queimado", "bem queimado está
o mato", "queimada", "mato que se queima". A toponímia
local é quase toda ela de origem tupi: Capuan, Iparana, Icaraí, Jandaiguaba,
Paumirim, Pabussu, Tabapuá, etc.
A estimativa populacional de 1.150 pessoas foi estabelecida a partir de censo
genealógico realizado em algumas localidades, comparado e cruzado com os dados
do "Cadastramento dos Índios Tapeba", realizado pela Arquidiocese de
Fortaleza entre março e setembro de 1986 - que apontou 914 pessoas em 185 famílias.
Contudo, esse é um dado difícil de ser estabelecido de modo definitivo devido
à dinâmica mesma da fronteira étnica. Eles vivem em intenso e permanente
contato com "brancos": seja no desenvolvimento de atividades
produtivas, seja em razão de casamentos interétnicos, seja pela manutenção
de relações de proximidade social através da constituição de relações de
parentesco fictícias, seja pela cordialidade - em alguns casos - das relações
de vizinhança com "brancos".
Caucaia, os grupos locais Tapeba e sua economia. Dos
municípios da região metropolitana de Fortaleza, Caucaia é a cidade mais próxima
da capital, distando 16 km em linha reta. Com sua sede a uma altitude de 29,91
metros acima do nível do mar, o município de Caucaia é mais acidentado do que
plano. Começam nele as elevações que vão constituir o cordão central do
estado do Ceará. É um dos municípios cearenses mais ricos em lagoas
permanentes. Os rios de Caucaia, entretanto, caracterizam-se por serem temporários,
como é o caso do riacho Tapeba. Sua principal via fluvial é o rio Ceará, que
corta o município em sua maior extensão, dirigindo-se de sudoeste a nordeste,
com um curso de aproximadamente 50 km. Às margens do rio Ceará, nas
proximidades da faixa litorânea, cresce uma exuberante vegetação de mangue. A
cobertura vegetal na área do município é caracterizada, predominantemente,
por caatingas, capoeiras e carrascos. O clima do município é ameno, com duas
estações: a chuvosa, o "inverno", que se estende de janeiro a junho;
e a seca, o "verão", de julho a dezembro.
As áreas em que os Tapeba residem constituem grupos locais de tamanho, padrão
de assentamento, densidade e localização distintos, dentro da geografia
multifacetada do município. Ocupando nichos diferentes, os Tapeba atualizam
formas diferenciadas de apropriação dos recursos naturais, basicamente
extrativistas e sazonais. Assim, os grupos locais apresentam caracteres
contrastantes. Há desde áreas habitadas majoritariamente por tapebanos, como a
paisagem rural do Tapeba (lagoa do Tapeba, Cutia, lagoa dos Porcos e Pedreira Sta
Terezinha), em que trabalham na palha, na agricultura (como diaristas e arrendatários)
e no "negócio com frutas"; até áreas onde a presença deles é
residual, como é o caso dos bairros do perímetro urbano da sede do município
(Capoeira/bairro Pe. Júlio Maria, Açude, Cigana, Itambé, Grilo, Vila São José,
Vila Nova/bairro Sta. Rita), em que predominam o comércio ambulante, os
pequenos serviços e o trabalho assalariado. Alguns desses bairros já estão
crescendo para dentro dos imóveis rurais que os limitam. Há também áreas com
um padrão de assentamento singular, como é o caso do Trilho, nas localidades
de Paumirim e Capuan, e da(s) Ponte(s), localidade de Soledade: no primeiro, as
casas encontram-se distribuídas, longitudinalmente, às margens da Ferrovia
Fortaleza-Sobral, num trecho de 2,5 km., em terreno da R.F.F.S.A., entre as
barreiras do "corte" e as cercas das propriedades rurais vizinhas; e
na segunda, as casas se situam às margens do rio Ceará, nas únicas áreas de
aterro sólido do mangue, geradas quando da pavimentação da rodovia BR-222 -
cuja ponte sobre o mesmo rio empresta o nome à localidade. No Trilho, vamos
encontrar os Tapeba negociando com frutas, fabricando carvão vegetal, coletando
mudas de plantas de valor ornamental e capturando animais silvestres nas serras
para a venda. Já nas Pontes, a pesca artesanal não colonizada de crustáceos,
no mangue, e a retirada de areia do leito do rio Ceará constituem as atividades
produtivas principais.
Elementos de história indígena local. A história
dos grupos locais e localidades onde hoje vivem os Tapeba relaciona-se às mudanças
recentes nas formas de apropriação fundiária anteriormente obtidas no Tapeba
e no Paumirim - tidos como locais tradicionais de habitação deles. Os Tapeba não
conheceram apenas uma única modalidade de apropriação fundiária e uso dos
recursos naturais disponíveis. Partindo dos dados da historiografia disponível,
que caracteriza uma situação de instabilidade, no século passado, quanto à
destinação das terras dos extintos aldeamentos indígenas, poder-se-ia
caracterizar a situação dos Tapeba como o produto de dois resultados históricos
distintos, geralmente encontrados em áreas de colonização antiga: (1) a
desagregação de domínios territoriais pertencentes à igreja, onde tenham
passado a prevalecer formas de uso comum, onde a "santa" (Na
Sa dos Prazeres) apareceria como proprietária; e (2) a perda da
posse de eventuais domínios titulados, que teriam sido entregues formalmente a
grupos indígenas sob a forma de doação ou em retribuição a serviços
prestados ao Estado.
Esse foi o caso em Caucaia. As fontes disponíveis mencionam que o município de
Caucaia origina-se da Aldeia de Nossa Senhora dos Prazeres de Caucaia,
missionada regularmente pelos jesuítas entre 1741 e 1759, mas cuja origem
remonta a uma época imprecisa do século XVIII, entre 1603 e 1666. A natureza
das fontes não possibilita determinar com rigor a procedência e a composição
do contingente indígena originalmente reunido ali: se os Potiguara que ali já
se encontravam comerciando com os franceses quando da expedição de Pero
Coelho, em 1603 (Potiguara esses que, ao refluírem de suas derrotas para os
portugueses, foram responsáveis pelo deslocamento para o interior dos Cariri e
Tremembé - "senhores originais da orla cearense" -, segundo Carlos
Pereira Studart); se os 200 ou 800 Potiguara que compuseram o próprio exército
recrutado por Pero Coelho; se os Potiguara e Tabajara que o Pe. Luís Figueira
logrou fazer acompanhá-lo no retorno da sua primeira missão à serra da
Ibiapaba; ou se todas essas alternativas.
Carlos Studart Fo informa que os Potiguara obtiveram do governo
português várias datas de sesmaria, possivelmente em retribuição à sua
colaboração na supressão dos levantes "tapuios". As missões, por
sua vez, foram beneficiadas na conjuntura de expansão e consolidação da
administração religiosa do espiritual e do secular dos aldeamentos. O Barão
de Studart registra que, em 23 de novembro de 1700, Alvará em forma de lei
concede a cada missão uma légua de terra em quadra para sustentação dos índios
e missionários. Há registros de concessões de datas e sesmarias a colonos e a
índios, em Caucaia, para a primeira metade do século XVIII. Em 31 de março de
1723, João Brigido registra uma concessão feita pelo Capitão-Mór da
Capitania "ao principal da aldeia de Caucaia João Paiva e mais officiaes e
índios, para elles e seus herdeiros, de três legoas de terra com uma de
largura, meia legoa para cada lado, fazendo peão no olho d'água chamado
Taboca".
Implementado o Diretório Pombalino, os jesuítas são expulsos e a Aldeia de
Caucaia é erigida em Vila Nova de Soure, em 1759. Aos Potiguara que ali
encontravam-se aldeados ter-se-iam reunido frações Cariri, Tremembé e Jucá,
oriundas de deslocamentos forçados de aldeamentos do interior para os do
litoral (com o intuito de facilitar a administração) ou de solicitações dos
próprios índios - conforme deixa entrever correspondência entre os diretores
de índios dessas Aldeias e o Capitão-Mór da Capitania.
Extinto o Diretório Pombalino em 1798, há relatórios dos Presidentes da Província
do Ceará que revelam uma situação singular, na qual, em meados do século
XIX, ainda existiriam índios reivindicando a restituição do Diretório e dos
bens seqüestrados, sem falar na proposta de restabelecimento das Aldeias de
Soure e Vila Viçosa da parte da Assembléia Provincial. Vila Nova de Soure
permanece sendo mencionada como "vila de índios", desde a sua criação
até o segundo terço do século passado. Em 1863, por ocasião da instalação
da Assembléia Legislativa Provincial, o Presidente da Província do Ceará dá
por extinta a população indígena da província e afirma que os patrimônios
territoriais das Aldeias "foram mandados incorporar à fazenda por ordem
imperial", mas ressalvando contraditoriamente: "respeitando-se as
posses de alguns índios". Entretanto, Alfredo Moreira Pinto reproduz o
conteúdo de uma escritura de doação de terras feita por Francisco Barros de
Souza Cordeiro e sua mulher à "Nossa Senhora dos Prazeres desta Real Villa
de Soure", onde se faz menção aos "possuidores índios desta mesma
villa".
As referências, portanto, destacam que a história da área em que hoje se
situa o município de Caucaia e vivem os Tapeba, está relacionada ao trânsito
das populações aborígenes que ali habitaram antes e depois da chegada dos
primeiros colonizadores, e à conquista e ao povoamento pelos europeus
(franceses, holandeses e portugueses) do que hoje é a costa cearense. Isso faz
com que se sustente hoje a tese de que os Tapeba sejam o resultado de um lento
processo de individuação étnica dos contingentes indígenas originários
(Potiguara, Tremembé, Cariri e Jucá) reunidos sob a autoridade da administração
colonial.
A "terra da santa" e as formas de apropriação
fundiária. Quaisquer que tenham sido os seus domínios, os Tapeba não
conseguiram assegurar a manutenção destes, geração após geração, de modo
pleno até os dias de hoje. Expropriados de suas terras por vários mecanismos
de troca desigual, eles foram levados a ocupar domínios da União e a residir
em bairros do perímetro urbano da cidade.
Os Tapeba e demais regionais referem-se com alguma freqüência à "terra
da santa" (Nossa Senhora dos Prazeres). Esta noção de um território dado
à santa, expressa nas referências ao passado atualizadas por eles, guarda coerência
com os registros históricos de concessões territoriais feitas à missão e ao
líder dos índios, bem como com o que ocorreu a esse patrimônio territorial,
com as sucessivas mudanças no ordenamento da administração dos indígenas e
na legislação fundiária.
Ao lado da condição de "moradores" em propriedades de terceiros, aos
quais eles tinham que retribuir com "agrados" da colheita anual, mas
com o uso relativamente consentido dos recursos naturais, e da condição de
controle livre e individual da terra e dos recursos básicos por um ou outro
grupo doméstico (situação que se obtinha num passado recente nas áreas do
Tapeba e do Capuan), os Tapeba também conheceram e atualizaram sistemas de
"uso comum". Alguns grupos de descendência - isto é, os que
consistem de todos os descendentes, através de homens e mulheres, de um
ancestral comum - identificados principalmente no Paumirim, exerceram o controle
dos recursos naturais básicos de determinadas áreas durante um longo período
de tempo, segundo regras específicas consensualmente acatadas nos meandros das
relações sociais estabelecidas entre os grupos domésticos que compunham
aquelas unidades.
Observa-se, assim, uma multiplicidade de soluções históricas produzidas e
conhecidas pelos Tapeba na relação com a terra e os recursos naturais
valorizados (madeira para lenha, caça, pesca, mananciais, açudes naturais,
lagoas, rios), bem como com suas benfeitorias (fruteiras, taperas, etc.). A
valorização progressiva da propriedade imobiliária rural na zona
metropolitana da capital está na raiz da desagregação das relações sociais
anteriormente vigentes, da formação dos atuais grupos locais em que vivem os
Tapeba e da mudança no caráter da relação de moradia que se verifica hoje.
Na segunda metade deste século, vamos encontrar referências aos Tapeba em matérias
de jornais de grande circulação, nas quais são destacadas as péssimas condições
em que vivem. O Jornal do Brasil de 7 de abril de 1968 publica matéria
intitulada "Indígena no Ceará não é nem cidadão", em que se
descreve "a forma primitiva de vida [sic] que cultivam" e - o
que é interessante - o fato deles não existirem legalmente, dado o
desconhecimento oficial de sua existência pelo governo estadual e pela FUNAI. Já
em 6 de julho de 1969, O Estado de S. Paulo publica matéria intitulada
"O triste fim dos indígenas cearenses. Nos costumes toda decadência",
em que se descreve as condições de vida subumanas dos Tapeba ("farrapos
humanos", "animais" etc.) e o fato deles não terem "ninguém
no governo que se importe com eles". Mais uma vez, o Estado, em 2 de
maio de 1982, publica artigo do correspondente local, Rodolfo Espíndola,
intitulado "Os últimos Tapeba, na miséria", descrevendo as suas
condições de vida e informando que vivem em palhoças às margens do rio Ceará.
Território, parentesco e estigma. O referente toponímico
e territorial, já referido, vincula-se estreitamente à referência
"familiar", isto é, ao modo como as pessoas traçam ou vêem traçada
sua descendência por relações de parentesco com ancestrais que teriam vivido
naquelas áreas. No Tapeba, destaca-se a figura de Manoel Raimundo, "cabeça"
dos "troncos velhos" da lagoa do Tapeba. No Paumirim, a figura emblemática
de José Alves dos Reis, o Zé Zabel "Perna-de-Pau", tido como a última
forte liderança, o "último Tuxaua", após a morte do qual conta-se
que os Tapeba do Paumirim, que viviam sob a sua autoridade, se dispersaram numa
espécie de diáspora. O caso singular de poliginia sororal que ele manteve e os
muitos filhos que ele teve com as suas duas mulheres geraram um grupo de descendência
claramente delimitado, alguns elementos do qual (notadamente, da segunda geração
descendente) casaram entre si.
O modo como são pensadas e apropriadas as relações de parentesco, como é
figurada a unidade do grupo e como se expressa o sentimento subjetivo de
constituírem um todo, é atestado e instituído pelo uso do termo "família",
recorrentemente associado ao termo tapeba: "família de tapeba". Do
mesmo modo, diz-se que os "Zabel" (supracitados), os "Coco",
os "Jacinto", os Alves dos Reis, os Alves de Matos, os Teixeira de
Matos, os Alves Teixeira e outros grupos de descendência irrestrita são (ou não
são) Tapeba, da "família de tapeba" (dependendo do contexto de
interação definido).
A esses fatos básicos (procedência comum e descendência irrestrita)
vincula-se uma série de atributos desabonadores. Tapeba funcionou - e em certos
circuitos e contextos ainda funciona - como um insulto e um xingamento, dada a
informação social pejorativa que o termo veicula. Está associado a condutas
como comer carne podre (carniça), consumo de álcool, promiscuidade,
desonestidade, desrespeito pela propriedade alheia, indolência e indisposição
para o trabalho, bem como à imundície em que vivem e à imagem de miséria, em
geral, a que estão associados. Essa "imagem pública" dos Tapeba
ainda tem muita força no contexto local, sendo os regionais socializados nessa
concepção sobre a conduta dos Tapeba e na expectativa de que se comportem
costumeiramente assim. É comum alguns Tapeba assentirem em alguns elementos
desse reconhecimento negativo de que são objeto, como definidores das características
singulares que os distinguem.
Situação atual. Foi com esse grupo estigmatizado que
a Equipe de Assessoria às Comunidades Rurais da Arquidiocese de Fortaleza começou
a trabalhar em Caucaia em 1984, assistindo indistintamente os Tapeba e os
"brancos", e tentando equacionar os problemas de ambos, "índios"
e pequenos posseiros. O seu projeto original consistia em dar suporte tanto a
"índios" e "brancos" numa luta comum pela terra - o que
levou à criação, em 1985, da Associação das Comunidades do Rio Ceará, com
representação paritária dos Tapeba e dos "brancos", meio a meio (da
presidência ao conselho, passando pela tesouraria e a secretaria). Em parte
devido à sua própria forma de atuação - marcadamente assistencialista num
primeiro momento - e em parte devido a uma mudança de conjuntura - o naufrágio
do Plano Nacional de Reforma Agrária - a Equipe descuidou dessa proposta.
De uma solução na qual o interlocutor principal no governo era o extinto
MIRAD/Ministério da Reforma Agrária, a Equipe Arquidiocesana concentrou seus
esforços em equacionar a demanda por terra propondo a criação de uma Área
Indígena no município de Caucaia, beneficiando os Tapeba. Estes, então, começaram
a estabelecer novas relações (com a ação da Igreja e com várias agências
governamentais) e novas alternativas de futuro se abriram para eles. Contudo, o
que foi mais importante para a(s) sua(s) auto-imagem(ns) e a(s) imagem(ns) que
os outros têm deles foi a transição de "Tapebas imundos" para índios
sujeitos de direitos e a reativação de vínculos com parentes efetivos e
parentes distantes.
Vítimas constantes das arbitrariedades da polícia e das ameaças dos supostos
proprietários de terra, principalmente na área do mangue do rio Ceará, os
Tapeba viram-se na situação, inédita para eles, de poder reverter a correlação
de forças - até então, completamente desfavorável a eles: a luta pelo
direito à pesca de crustáceos na área de mangue, à margem esquerda do rio
Ceará, contra as pressões dos condôminos da Fazenda Soledade; a luta pela
posse de terreno da marinha à margem direita do rio Ceará, ainda em área de
mangue, contra a transferência do foro para as indústrias T.B.A. (Técnica
Brasileira de Alimentos) e CERAPELES; as denúncias contra a localização da
rampa de lixo da companhia de limpeza urbana do município nessa mesma
localidade; a luta pelo direito dos Tapeba da Capoeira continuarem retirando
areia do leito do rio Ceará, contra as violentas tentativas de intimidação de
vereadores que haviam arrendado a Fazenda Malícias, em 1988, no interior da
qual corre o rio Ceará; entre outras.
A discussão em torno da identidade indígena dos Tapeba é o elemento que vem
norteando o processo de reconhecimento jurídico-administrativo da TI Tapeba,
desde o seu início, em 1985 (quando foi incluída na programação de
identificações do Plano de Metas da FUNAI), até hoje. A TI Tapeba foi
identificada em outubro de 1986 com uma área de 4.675 ha e 75 km de perímetro,
por um GT constituído por um sociólogo e um engenheiro agrônomo da FUNAI, e
um representante da Equipe Arquidiocesana.
O levantamento fundiário dos imóveis rurais incidentes na AI Tapeba, realizado
em agosto de 1987, foi a etapa mais conflitiva do processo, marcada por resistência
ativa e passiva dos supostos proprietários de imóveis rurais à vistoria dos
mesmos. São dessa época as declarações públicas de alguns potentados locais
contestando a existência histórica dos índios Tapeba. Foram levantados, à época,
118 ocupantes não índios, sendo 55 supostos proprietários com títulos
registrados em cartório, 61 pequenos posseiros e dois foreiros.
De lá para cá, o processo sofreu inúmeras reviravoltas. Foi arquivado em
julho de 1988 por decisão do "grupão" - o Grupo de Trabalho
Interministerial instituído pelo Decreto 88.118/83 como instância com a
atribuição formal de avaliar as propostas de criação de áreas indígenas. O
"grupão", cuja composição foi modificada pelo Decreto 94.945/87,
determinou em sua Resolução no 01 de 20.07.88 que a área proposta
pela FUNAI não deveria ser considerada como terra indígena, "tendo em
vista as dúvidas quanto à etnia dos remanescentes", mas "que se
aguardassem, para enriquecer o processo, novos dados acerca da etnia, quando então
a FUNAI voltaria a analisar o caso".
Na ocasião, houve uma reação generalizada contra a decisão do "grupão",
não só dos Tapeba, da Arquidiocese e de organizações de apoio como o CIMI e
o Comitê Pró-Tapeba, mas também do próprio Governo do Estado, da Assembléia
Legislativa e da Procuradoria Geral da República no Estado.
Reaberto em maio de 1989, ao nível da Assessoria da Superintendência de
Assuntos Fundiários da FUNAI, por considerar-se "indiscutível tratar-se
de terra de ocupação tradicional e permanente indígena", foi necessário
aguardar mais oito anos para que o Ministro da Justiça, Íris Rezende, já sob
a égide do Decreto 1.775/96, assinasse a Portaria no 967, de 24 de
setembro de 1997, declarando a AI Tapeba como território tradicional indígena.
Dessa vez foi a Prefeitura Municipal de Caucaia que reagiu, por meio do atual
Prefeito, José Gerardo Arruda, impetrando um mandado de segurança no Superior
Tribunal de Justiça, contestando a Portaria declaratória, com base na alegação
de vício de procedimento. O mandado foi acatado por unanimidade e a portaria
anulada, perdendo toda a validade.
Como se não bastasse isso, a situação de destinação efetiva da terra
complicou-se nesse período. Apesar da FUNAI ter instalado um posto indígena na
área, as últimas notícias na imprensa local e da Equipe Arquidiocesana de
Apoio à Questão Indígena dão conta de uma situação de agravamento da
presença não indígena na área, patrocinada por supostos proprietários de
terra, antagonistas dos Tapeba, que têm promovido loteamentos irregulares. O
agravamento das tensões levou ao assassinato de dois líderes Tapeba em 1996 e
1997, projetando trevas sobre o futuro do grupo.
Nota sobre as fontes. As monografias etnográficas
mais relevantes, compreensivas e abrangentes sobre os Tapeba são aquelas de
autoria do autor do verbete (dissertação de mestrado Tapebas, Tapebanos e
Pernas-de-Pau, defendida no Museu Nacional, UFRJ, em 1993) e da antropóloga
norte americana Karen Hjerpe (tese de Ph.D. em Antropologia Social, apresentada
na Universidade da Flórida em 1998).
Há também artigos de ambos sobre a questão da fronteira e da identidade étnica,
a relação destas com concepções em torno do corpo e práticas alimentares, a
organização das atividades produtivas e outros aspectos da sociedade e cultura
dos Tapeba.
Além desses trabalhos, há um conjunto diversificado de informações e relatórios
elaborados por técnicos de órgãos governamentais (Rita Heloisa de Almeida,
Jussara Vieira Gomes, Élia Menezes Rola) produzidos no âmbito do processo de
reconhecimento oficial dos Tapeba e do seu território, alguns deles
constituindo as primeiras tentativas de oferecer um quadro integrado da
sociedade e da história dos Tapeba - sintetizando informações e fontes antes
dispersas.
Há, por fim, aqueles trabalhos produzidos por intelectuais cearenses de
diferentes gerações que têm em comum a orientação historiográfica, ainda
que com perspectivas muito distintas - alguns, inclusive, com pretensão etnológica,
como os trabalhos de Carlos Studart pai e filho. Encontramos desde pequenos
verbetes pontuais, até obras de maior envergadura. Destacam-se pela sua
contemporaneidade e seu esforço de síntese - tanto analítica, quanto enciclopédica
- sobre os índios do Ceará, os trabalhos de José Cordeiro e Maria Sylvia
Porto Alegre. Tratam-se de trabalhos que, ainda que não especificamente sobre
os Tapeba, aportam dados e informações sobre a história indígena do Ceará e
da colonização deste, relevantes para a compreensão da situação atual.
Henyo Trindade Barretto Filho
Universidade de Brasília
henyo@unb.br
dezembro de 1998
Anambé
| Apiaká | Arara | Araweté
| Asuriní do Tocantins Ashaninka
| Atikum | Bakairí | Bororo
| Enawenê NawêFulni-ô | Galibi
| Galibi Marworno | Guajá | Guajajára
| Javaé Ka'apor | Kadiwéu
| Kaiabi | Karajá | Kariri-Xocó
| Katukina Pano | Krahó | Krenák
| Kwazá | Marúbo | Maku
| Maxakali
Miranha | Palikur | Panará
| Gavião Parkatêjê | Payakú
| Pirahã Pitaguarí
| Rikbaktsa | Suruí
| Tapeba | Tapuio
| Tenharim
Timbira
| Tingui-Botó | Torá | Tupiniquim
|
Xavante | Xetá
Xerente | Xokleng
| Waiãpi | Wari | Yaminawa
| Yanomami Yawanawa | Zo'é