Dados históricos. Os primeiros registros
acerca dos Torá os situam num espaço territorial que compreende todo o rio
Madeira e alguns afluentes. Foi um dos primeiros povos a resistir às tentativas
de ocupação desta região, e também um dos primeiros a sofrer
significativamente por essas investidas. Mencionados na documentação histórica
por atacarem regatões em toda a extensão do rio Madeira, os Torá viram-se
obrigados a ocupar apenas uma pequena porção de seu território situada nas
proximidades da foz do rio Marmelos, no Estado do Amazonas.
Em 1690, o Padre João Betendorf fala da "nação dos Irurizes", que
compreende os Onikoré, Aripuaná, Parapixana e Torerizes, sendo que os últimos
ocupavam o norte e o sul da margem direita do rio Madeira (Menéndez,1981/82:313).
Entretanto, pelas circunstâncias de domínio dos Tapajó e Tupinambá na região,
dados sobre os outros povos sempre foram muito escassos.
Informações acerca dos Torá vieram à tona, efetivamente, quando uma expedição
punitiva foi organizada com o intuito de exterminá-los. Eles atacavam as missões
de Canumã e Abacaxis, que ficavam na foz do rio Madeira, mas eram reconhecidos,
segundo Nimuendajú ([1925] 1982) como habitantes do rio Marmelos, desde a foz
até as cabeceiras, e do rio Machado. Um grupo dos Torá, encontrado no rio
Maici, afluente dos Marmelos, foi fortemente atacado e os sobreviventes foram
obrigados a transferirem-se para a missão de Abacaxis. A atrocidade cometida
contra esse povo foi tão grande que é citada nas mais diversas fontes
documentais.
Entretanto, parte do grupo permaneceu isolado, protegido no interior dos igarapés
ainda não penetrados pela colonização. Muitos ataques aos Torá seguiram-se,
fazendo com que os últimos de seus membros fossem para as missões, para vilas
como cativos e como tropas de defesa contra os Mura.
No final do século XIX e início do presente século, os Torá são registrados
como sedentários, vivendo da agricultura nas margens do rio Marmelos.
Por volta da década de 20 do presente século, com a chamada "pacificação"
dos Parintintin, a região do Madeira foi sendo gradativamente tomada por
seringueiros, caucheiros e extratores de produtos nativos. Neste processo as
populações indígenas da região, entre as quais os Torá, foram envolvidas,
adotando um sistema semelhante ao da população regional, o chamado sistema de
aviamento. Entretanto, garantiram a reprodução de sua organização social e
lutaram arduamente pelas suas terras.
Situação atual. Em todo o
processo histórico da região os Torá se firmaram como detentores do trecho de
terras onde se localizam até hoje. Os embates em defesa desta terra tornou a
memória Torá permeada por questões que envolvem esta luta, confundindo o histórico
do grupo com o histórico de luta pela terra.
Hoje, as aldeias estão ao longo das margens do rio Marmelos, havendo alguns núcleos
populacionais fora da área. Devido às circunstâncias históricas, os Torá
cindiram-se em pequenos grupos, alguns inclusive recusando a identidade indígena.
Recentemente iniciou-se um processo de reorganização do grupo em torno da
reivindicação de seus direitos, tais como terra e educação.
Segundo a maioria dos indivíduos que moram dentro da área, dada a segurança
que poderá advir da demarcação, ora em processo, muitos dos que residem fora,
irão transferir-se para dentro da Terra Indígena Torá. Há, por parte de
muitos dos Torá um movimento de ocupação da área para garanti-la. No
momento, este movimento caracteriza-se pelas críticas aos Apurinã do rio
Marmelos, convidados pela FUNAI, e aceitos pelos
Torá, a ocupar a área, mas atualmente considerados como invasores e inimigos.
A população hoje gira em torno de 51 pessoas distribuídas em várias aldeias
dentro e fora da Terra Indígena. São núcleos familiares constituídos por uma
ou duas famílias que residem em casas distribuídas à beira do rio Marmelos.
As aldeias são constituídas por grupos consangüíneos; em geral, duas ou três
famílias moram em casas próximas. A aldeia de referência na Terra Indígena
Torá é a Fortaleza, onde moram o cacique Máximo Torá e sua família: pais,
irmã e sobrinhos. É importante registrar que mesmo os Torá que estão fora da
área vivem de maneira semelhante, constituindo núcleos habitacionais
familiares.
A castanha e os regatões. Os
Torá vivem da caça, da pesca e fundamentalmente da coleta de castanha-do-pará
para comercialização. Ponto central das questões econômicas da área, a
castanha rege a economia, transformando uma atividade produtiva num sistema
complexo, que envolve índios e regionais.
Quando se inicia a safra da castanha, os regatões, comerciantes da região,
abastecem os Torá com suprimentos, chamados de "rancho", compostos de
alimentos básicos e industrializados. Neste sentido, os índios começam a
trabalhar devendo para o regatão, que protela o pagamento deste primeiro rancho
para as primeiras coletas.
Quando começam efetivamente a entregar sua produção ao regatão, já há a
necessidade de adquirir novo rancho. Consequentemente, os Torá estão sempre
devendo a estes comerciantes, chamados por eles de patrões. Além dos bens básicos,
é comum a obtenção de um bem mais caro, que pode levar mais de uma safra de
castanha para ser pago.
Os patrões, em geral, possuem uma relação ambígua com os Torá. São
considerados benfeitores e bons, sendo ruins apenas aqueles com os quais não
negociam. Um Torá ou um grupo familiar pode ter relação com mais de um patrão;
entretanto, o mais comum é estar relacionado apenas com um patrão. São estas
relações que regem a economia deste povo.
Estes patrões estão presentes também nos momentos rituais do grupo. Quando
ocorre uma festa tradicional na aldeia Fortaleza, os regatões estão sempre
presentes, fornecendo mercadorias e participando como convidados. O importante
é salientar o perfil da festa, onde os agentes na região se reúnem dando às
suas diferenças um caráter ritual. Ao contrário de se importar com a solução
dos conflitos, o ritual os expia, e ao mesmo tempo os perpetua dentro dos
limites do suportável.
Compadrio. O parentesco
religioso, o compadrio, faz parte da complexa rede de relações regional,
estabelecendo um laço entre adultos através dos filhos. Assim, quando alguém
quer estreitar vínculos com outrem, convida-o para que seja padrinho de algum
filho. Apesar da relação entre padrinho e afilhado, a que importa realmente é
aquela entre os compadres. No interior deste sistema é possível encontrar os
regatões, os Torá e os Apurinã, todos se relacionando entre si.
Os Torá hoje têm reforçado a luta pela demarcação de suas terras e pela
formação de profissionais indígenas. Com essa expectativa, organizam-se
fazendo cursos de formação com apoio de organizações não governamentais, e
tentando trazer de volta para a área os indivíduos que partiram para cidades
como Porto Velho, Humaitá e Manicoré. Na visão deste povo, a demarcação
efetiva de suas terras e a presença na área de professores e agentes de saúde
Torá podem ser fatores determinantes para a sobrevivência das futuras gerações.
Nota sobre as fontes. Não há, até o presente momento, nenhum estudo mais aprofundado sobre a sociedade Torá. As principais referências estão colocadas na documentação histórica sobre a região do rio Madeira. No século XVIII aparecem como personagens de um grande massacre perpetrado contra eles e, no século XIX, como poucos remanescentes vivendo da agricultura nas margens do rio Marmelos e Madeira. São referidos mais detidamente no artigo de Curt Nimuendajú, "As Tribos do Alto Madeira", publicado em 1925, e em um capítulo do livro A Cruz Indígena de Alípio Bandeira, de 1926. Em décadas recentes, aparecem no relatório Levantamento das Populações Indígenas do Médio Madeira (1981), de Ezequias Heringer e Ana Lange, e no artigo "Agora todo mundo quer ser caboclo", de Rosa Cartagenes e João Carlos Lobato, publicado no Povos Indígenas no Brasil 1987/88/89/90. São também objeto de dois relatórios de identificação de Terra Indígena realizados por José Carlos Levinho (1988) e Edmundo Antonio Peggion (1998).
Edmundo Antonio Peggion
Universidade Federal de Mato Grosso
peggion@hotmail.com
fevereiro de 1999
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