Localização. Os Tupiniquim habitam três
Terras Indígenas, no norte do Espírito Santo, todas no município de Aracruz,
próximo a essa cidade e também à de Santa Cruz e à Vila do Riacho.
A TI Caieiras Velhas, localizada às margens do rio Piraquê-Açu, tem metade da
sua área tomada por capoeiras, enquanto a outra metade está dividida entre a
mata atlântica, áreas de cultivo e o mangue do referido rio. Teve a demarcação
homologada pelo decreto n° 88926, de 27/10/83, e registro no Serviço de Patrimônio
da União (SPU) em 1995.
A TI Pau-Brasil tem como um de seus limites o córrego Sahy. Capoeiras e macegas
ocupam 70% da sua área, que não possui matas, e 20% do seu espaço é dedicado
a cultivos. Teve demarcação homologada pelo decreto n° 88672, de 05/09/83, e
registro no SPU em 1995.
A TI Comboios, às margens do rio de mesmo nome, tem quase toda a sua área
ocupada pela capoeira (50%) e a mata de restinga (40%), pois, com o solo pobre e
arenoso, o cultivo é mínimo. Sua demarcação foi homologada pelo decreto n°
88601, de 09/08/83, e registrada no SPU em 1995.
Demografia. O quadro abaixo indica a população Tupiniquim nos anos de 1993 e 1997. Era a seguinte a porcentagem de casamentos interétnicos com brancos (ou regionais) em 1994: 19% da população em Caieiras Velhas, 20% em Pau-Brasil e 30% em Comboios.
| Terra Indígena |
1993
|
1997
|
| Caieiras Velhas |
684
|
870
|
| Pau-Brasil |
212
|
229
|
| Comboios |
243
|
287
|
| Total |
1.139
|
1.386
|
Na Colônia, no Império e na República Velha.
No século XVI, os Tupiniquim ocupavam uma faixa de terra situada entre Camamu,
na Bahia, e o rio São Mateus (ou Cricaré), alcançando a Província do Espírito
Santo. Esses índios também viviam na região do rio Piraquê-Açu, onde em
1556 foi fundada pelo jesuíta Afonso Brás a Aldeia Nova. Um surto de varíola,
e a criação do Aldeamento dos Reis Magos, em 1580, explicam a decadência da
Aldeia Nova, acelerada pelos ataques de formigas que destruíram as plantações
dos índios. Os jesuítas e os grupos indígenas passaram a se concentrar em
Reis Magos, que logo se tornou um aldeamento populoso onde, conforme Serafim
Leite, na sua História da Companhia de Jesus no Brasil, os índios eram
quase todos Tupinanquins. O aldeamento dos Reis Magos dará origem à
Vila de Nova Almeida, e a Aldeia Nova, à Vila de Santa Cruz.
Foi em 1610 que o superior jesuíta da aldeia dos Reis Magos, Pe. João Martins,
conseguiu para os índios uma sesmaria de seis léguas em quadra,
conforme o mesmo Serafim Leite, cuja medição só ocorreu em 1760, quando,
através do Termo de Concerto e Composição, os índios de Nova Almeida
e os moradores da Freguesia da Serra estabeleceram os limites dos domínios em
que mantinham posse, transformados, por Sentença, em medição e demarcação
amigável. Abaixo da Sentença do Ministro que estabeleceu o acordo
territorial, estava mencionado que não existia foreiro algum dentro das
terras medidas e demarcadas. Essa Sentença diminuía os limites da
Sesmaria, sendo confirmada por Alvará ainda em 1760. Até a época da Sentença,
os jesuítas haviam aldeado mais de 3.000 índios em Nova Almeida. No final do século
XVIII, o governador da Capitania do Espírito Santo descreveu essa Vila como
composta majoritariamente por índios.
Quando viajou pelo Espírito Santo no início do século XIX, o naturalista
Auguste de Saint-Hilaire soube que os índios de Nova Almeida possuíam um
território inalienável, doado pelo governo português, e que se estendia até
Comboios, ao norte.
Nesse século, os viajantes encontravam habitações isoladas ou pequenos
povoados de índios civilizados na região entre o rio Doce e a Vila de
Nova Almeida. Em 1860, o próprio Imperador D. Pedro II, visitando a região,
manteve contato com uma índia Tupiniquim em Nova Almeida, e com outros índios
de Santa Cruz e da foz do rio Sahy, não identificados no seu diário de viagem.
Os Tupiniquim afirmam que, quando esteve em Santa Cruz, o Imperador teria
ratificado a doação das terras da sesmaria.
O pintor Auguste François Biard retratou o modo de vida dos índios
civilizados nas matas de Santa Cruz em meados do século XIX, descreveu os
fazendeiros que exploravam madeira para exportação utilizando o trabalho dos
índios e anotou a presença de famílias indígenas dispersas pela floresta,
comercializando madeira e mantendo roçados de subsistência. Em 1877, o Núcleo
de Colonização de Santa Cruz contava com 55 índios naturais da Província,
dividindo o povoamento com imigrantes italianos.
Após sua criação, em 1910, o Serviço de Proteção aos Índios (SPI)
transformou a região norte do Espírito Santo num de seus pólos de atuação.
Aí o Inspetor do SPI Antonio Estigarríbia conheceu vários agrupamentos de índios
civilizados de origem Tupi localizados no baixo rio Doce e no litoral próximo.
Estigarríbia manteria contato com esses índios até 1919, enquanto seu
sucessor, o Inspetor Samuel Lobo, encontraria nessa região, em 1924, alguns índios
Tupiniquim.
No século XX: o sistema de índio. Os
Tupiniquim reconheciam como ocupações mais de vinte localidades, entre aldeias
constituídas por algumas casas vizinhas, lugares com poucas casas esparsas - a
grande maioria - e locais onde havia se instalado apenas uma família. Foram
identificadas pelos índios as localidades de Caieiras Velhas, Irajá,
Pau-Brasil, Comboios - entre ocupações atuais -, e Amarelo, Olho d'Água,
Guaxindiba, Porto da Lancha, Cantagalo, Araribá, Braço Morto, Areal, Sauê (ou
Tombador), sertão e litoral do Gimuhúna, Piranema, Potiri, Sahy Pequeno,
Batinga, Santa Joana e Córrego do Morcego - extintas.
A região em que viviam os Tupiniquim era de mata virgem antes da exploração
madeireira, e a comunicação entre as localidades se fazia por trilhas no meio
da floresta. Entretanto, em sua maior parte, as famílias indígenas eram
encontradas dispersas pela mata, plantando nos trechos de capoeira, com a
eventual agregação de parentes e afins. A forma como as famílias ocupavam o
espaço e as trocas comerciais tornavam duas localidades quase que uma área só,
pois a distância entre os núcleos reduzia-se, fortalecendo os laços comunitários
que se manifestavam nos rituais religiosos, ou na realização de algumas formas
de cooperação econômica (mutirão, adjutório). Eram famílias voltadas para
a produção direta, formando uma unidade social. O conhecimento e domínio de
um território funcionava como fator de identificação e troca, com a base física
comum, inalienável, dando sentido à relação entre os grupos domésticos.
As aldeias tinham a disposição de ruas, e em Caieiras Velhas havia um pátio
largo, onde uma pequena capela secular fechava a área. As casas eram de
pau-a-pique e sapê, cercadas pelo mato ou capoeira, utilizados na medida da
necessidade. Com freqüência os Tupiniquim mudavam de casa e roçado, seja pela
realização de um casamento ou em busca de melhores condições de sobrevivência.
As casas e os roçados podiam ser feitos em qualquer lugar, só não podiam
medir, dizer aquilo é meu. Havia regras de acesso à terra - não se
permitia cercá-la ou detê-la exclusivamente. Todavia, com os casamentos
preferenciais entre moradores de localidades vizinhas, e as sucessões, os
grupos domésticos acabavam identificados aos roçados, como acontecia nas
aldeias de Cantagalo e Araribá.
Havia uma posse comunal da terra nessas aldeias, pois os cultivos em extensões
podiam ser utilizados à vontade por cada grupo familiar. Existiam também os
domínios de caráter comunal - matas, rios, fontes - que possibilitavam a
reprodução das famílias Tupiniquim. Em suma, o sistema de posse comunal de
terras e outros domínios, aliado à apropriação doméstica e individual do
produto do trabalho, permitia a sobrevivência dos Tupiniquim.
Na economia doméstica das localidades próximas ao rio Piraquê-Açu, a pesca e
a coleta nos manguezais tinham um papel relevante. Pescavam de linha ou usavam
inúmeras armadilhas produzidas artesanalmente, como o quitambu (cercado
de espinho) e o jequiá (cesto de varas flexíveis, afunilado). Pegavam
também caranguejos, mariscos e muitas ostras. Da casca da ostra mantinham um
secular processo de fabricação de cal, comercializada em Santa Cruz junto com
mariscos, farinha, lenha e artesanato constituído por colheres de pau, gamelas,
esteiras, remos e peneiras, além de cestos, samburás e balaios, produzidos com
o cipó imbé. Independente do comércio em Santa Cruz, tinham um sistema
de produção econômica em que um caçava, outro pescava, e outro ainda fazia
farinha, trocando os produtos entre si, numa divisão de trabalho informal. Era
o sistema de índio, noção que os Tupiniquim utilizam para divulgar e
normatizar as práticas indígenas.
Irrupção das grandes empresas. A partir dos
anos 40, quando a Companhia Ferro e Aço de Vitória (COFAVI) começou a
devastar as matas para produzir carvão vegetal, os índios chegaram a trabalhar
para a empresa, fazendo derrubada. Plantavam mandioca, feijão, milho e cana,
processando a mandioca com ralador e prensa de tipiti no quitungo, casa
de farinha artesanal e familiar. Como nas matas da região houvesse caça à
vontade, com mundéus - armadilhas de caça - os Tupiniquim capturavam mamíferos
e inúmeras aves.
Naquela época os Tupiniquim não se preocupavam em documentar as suas posses.
Desde que a COFAVI começou a devastar as matas da região nos anos 40, os índios
passaram a conviver com alguns posseiros, sem conflitos. Para desmatar, os
representantes da COFAVI diziam que a terra era do Estado, e logo transformaram
matas em pastos na região da aldeia de Pau-Brasil.
As áreas tradicionais de cultivo das aldeias Tupiniquim foram cercadas e
reduzidas, quando foram plantados os eucaliptos pela Aracruz Florestal, no fim
dos anos 60. Seu modo de vida - o padrão de convivência que resultava da ocupação
territorial - sofreu as pressões originadas da enorme redução das áreas de
plantio e da fixação em determinados limites, impedindo a tradicional
rotatividade das roças.
Os poucos autores que escreveram sobre os Tupiniquim assinalam que os anos
sessenta foram decisivos na alteração do panorama fundiário, marcando a
entrada da empresa Aracruz Florestal na região, seguida da progressiva expulsão
dos índios. Nessa ocasião, o sofrimento dos índios foi acompanhado por
algumas manifestações de protesto. Ao estudar os diferentes ecossistemas do
Espírito Santo em 1954, o biólogo Augusto Ruschi se defrontou em Caieiras
Velhas, na margem esquerda do rio Piraquê-Açu, com "80 índios
Tupi-Guarani", vivendo numa área de 30.000 hectares de florestas virgens.
Já em 1971 o mesmo Ruschi lamentava a forma como era arrasada a flora e a
fauna, com o desmatamento atingindo os índios, pois mais de 700 famílias,
entre índios e posseiros, foram desalojados da região reflorestada pela
Aracruz Florestal. Foram destruídas antigas aldeias Tupiniquim como Araribá,
Amarelo, Areal, Batinga, Braço Morto, Cantagalo, Guaxindiba, Lancha, Macaco,
Olho d'Água e Piranema. Os índios até hoje relatam as cenas de violência e
desrespeito que sofreram nas áreas visadas pela Aracruz Florestal.
Em 1975, a FUNAI reconheceu a presença dos Tupiniquim no Espírito Santo. O
processo administrativo de identificação das terras indígenas foi
conflituoso, gerando inúmeras denúncias de índios, associações e organismos
diversos, a respeito dos prejuízos causados por um acordo estabelecido entre a
FUNAI e a Aracruz Celulose, em 1980, quando os limites das três Terras Indígenas
foram definidos, culminando na homologação de cada uma dessas áreas em 1983.
A Dança do Tambor. Os Tupiniquim mais antigos não
se recordam de ter conhecido regras matrimoniais ou qualquer outra norma de
parentesco diferente das de hoje, cujas prescrições são idênticas às da
população rural. Dos ancestrais, os índios herdaram o receio em utilizar a língua
indígena, totalmente perdida em reminiscências esparsas. Os avós dos
atuais Tupiniquim conheciam a língua, mas tinham deixado de empregá-la
porque eram ameaçados, deixando então de ensiná-la aos mais jovens, desde o
início do século. Os índios mais velhos ainda se referem ao língua,
índio que tinha o papel de tradutor, falava bem o português e a língua indígena,
recebendo as visitas e conversando com os índios das matas que vinham para as
aldeias participar da Dança do Tambor (Banda de Congo) nas festas
religiosas.
Em 1951, o pesquisador Guilherme Neves distinguiu entre várias bandas de congos
os figurantes da banda de Caieiras Velhas, composta por descendentes dos índios
que a constituíram em Santa Cruz no século XIX.
As festas eram nos dias de São Benedito, Santa Catarina, São Sebastião e
Nossa Senhora da Conceição, durando de dois a três dias: os índios tiravam o
mastro da mata, e o Capitão do Tambor, todo ornamentado, usando bastão e
cocar, comandava a Banda, saindo a convocar os índios para a dança, de casa em
casa. Na ocasião, as índias preparavam uma bebida, a coaba, feita com
aipim fermentado, enquanto os índios empregavam como instrumentos de percussão
a cassaca (reco-reco antropomorfo) e o tambor, feito de madeira
oca, recoberto de couro.
Esses rituais ocorriam em Caieiras Velhas, Pau-Brasil e Comboios, havendo intercâmbio
entre as duas primeiras, quando os índios atravessavam as matas atrás das
festividades. Hoje a Dança do Tambor só permanece em Caieiras Velhas.
Antigamente o Capitão do Tambor detinha prestígio e era também reconhecido
como curandeiro (rezador) pelos demais índios. Os Tupiniquim se declaravam católicos,
pois as igrejas pentecostais só se instalaram na região recentemente, quando
atraíram famílias indígenas para suas denominações.
Apenas o Capitão do Tambor tinha ascendência sobre as famílias de uma aldeia,
se responsabilizando pela reprodução das tradições culturais entre os índios.
A Dança do Tambor reforçou o intercâmbio e integração simbólica dos
Tupiniquim, foi a cultura residual que deu suporte à ressurgência indígena,
possibilitando o estabelecimento de uma distintividade cultural que os
identificava frente à população regional, não como índios selvagens,
uma representação muito difundida, mas como caboclos Tupiniquim.
A partir da luta pela demarcação das Terras Indígenas Tupiniquim na década
de 70, surge em cena o Cacique, categoria social que vai expressar as novas
articulações que se estabelecem entre os indígenas, que reconheciam
anteriormente apenas o Capitão do Tambor. A figura do Conselho
Comunitário surge junto com a do Cacique. Os Conselhos das aldeias,
através das lideranças Tupiniquim e Guarani, participaram ativamente dos
trabalhos de identificação das Terras Indígenas, junto com os respectivos
Caciques. A luta pela ampliação de seus territórios produziu uma organização
política formal, denominada Comissão de Articulação Tupiniquim e Guarani,
mas são os problemas cotidianos e imediatos - desmatamentos, improdutividade de
terrenos, plantios, falta de assistência - que mantêm a coesão entre lideranças
e comunidades, fortalecendo a disposição reivindicatória de todas as aldeias.
Situação atual. Hoje há uma maior concentração
de famílias em alguns núcleos habitacionais como Caieiras Velhas, Irajá e
Pau-Brasil, além do estabelecimento de roçados coletivos de milho e feijão,
opção adotada para a produção de alimentos diante da impossibilidade de
manutenção da maioria dos núcleos de produção tradicionais.
Os terrenos no interior da Terra Indígena são divididos entre as famílias,
segundo a capacidade de cultivo de cada uma, fazendo uso da mecanização agrícola.
Os Tupiniquim têm uma cultura de subsistência baseada nas plantações de
mandioca, feijão e milho. Coexistem assim tanto a produção individual, que se
vale da mão-de-obra familiar e é voltada para o próprio consumo, como os roçados
coletivos, cujo resultado é repartido segundo as necessidades de cada família.
Caso haja excedente, ele é comercializado pelos indivíduos ou pelas lideranças
indígenas no mercado municipal.
Hoje os Tupiniquim beneficiam a mandioca nas casas de farinha existentes
nas aldeias. As atividades de pesca e mariscagem se mantêm como fontes de
alimentos. Há pequenos cultivos nos quintais - árvores frutíferas, hortas -
voltados para o consumo familiar e o comércio local. Antes da entrada da
Aracruz Florestal na região, a caça era um complemento alimentar significativo
entre os Tupiniquim, pois as caçadas eram atividades regulares dos índios. A
atuação dessa empresa reduziu também as atividades de coleta, hoje restritas
ao mel, aos palmitos e aos cipós. Resta aos índios a criação de animais
pelos quintais, soltos, havendo ainda uma incipiente criação de gado, mas o
tamanho do rebanho é reduzido, dada a falta de pastagens adequadas.
A produção do artesanato utilizada no dia-a-dia - samburás, peneiras, remos,
gamelas e cestos em geral - depende da coleta de cipós e madeiras, cada vez
mais difíceis, mas ainda existentes nas matas da região.
Muitas famílias Tupiniquim não conseguem sobreviver apenas com os recursos
naturais e as atividades econômicas desenvolvidas na área. Algumas vendem sua
mão-de-obra "desqualificada" no mercado regional, ou abandonam a
Terra Indígena para engrossar o contingente de trabalhadores marginais às
cidades da região. Os recursos que as famílias recebem através de
aposentadorias não são suficientes para reverter esse quadro.
Entre as comunidades Tupiniquim, a de Comboios enfrenta as maiores dificuldades,
vivendo em condições ambientais de acelerada degradação. O solo de Comboios
é arenoso, ácido, de baixa fertilidade. Para trabalhar nesse terreno pobre, as
famílias Tupiniquim dividiram a área em glebas e roçados, cortando Comboios
verticalmente, da praia ao rio. Cabe assim a cada família o usufruto de uma área
adjacente à sua moradia. Os homens trabalham na roça, plantando mandioca, abóbora,
melancia, abacaxi, cana-de-açúcar e pimenta. Nas várzeas, em conseqüência
do assoreamento do rio Comboios, cultivam feijão, milho e hortaliças. Devido
às condições do terreno, predominam os roçados de mandioca, já que o solo
é tido pelos Tupiniquim como o melhor para esse tipo de cultura, enquanto
outras espécies vegetais, como a abóbora e a melancia, têm obtido resultados
insatisfatórios. Como o solo é pobre, seu manejo nem sempre supera esse
esgotamento.
Além disso, das três Terras Indígenas, apenas na de Comboios havia intrusos -
posseiros e grileiros da região. Apesar de demarcadas, essas terras não
asseguravam aos índios condições dignas de sobrevivência. Em 1993, os
Tupiniquim encaminharam à Presidência da FUNAI uma proposta de unificação
das três. Um Grupo de Trabalho (Portaria 0783/94, de 30/08/94) foi nomeado para
estudar as reivindicações indígenas, julgando-as procedentes. Em comum acordo
com os Tupiniquim, foram propostas em 1995 a unificação das TIs Caieiras
Velhas e Pau-Brasil, constituindo a futura TI Tupiniquim, com superfície de 14.
270 ha e perímetro de 53 km; e a ampliação da TI. Comboios, para 3.800 ha de
superfície e 51 km de perímetro. Em 4 de agosto de 1997, o Ministro da Justiça,
Íris Rezende, solicitou diligências complementares à proposta do Grupo de
Trabalho. Essas diligências resultaram em novos relatórios, apresentados à
FUNAI e ao Ministério da Justiça pelo Grupo de Trabalho, reafirmando a
proposta que já fizera. No dia 9 de março de 1998, o Diário Oficial da
União publicou o despacho nº 04, do Ministro da Justiça, onde este discorda
da proposta do Grupo de Trabalho, decidindo pela ampliação das três TIs
Tupiniquim em 2.571 ha, totalizando 7.062,47 ha, de acordo com os limites
reivindicados pelos índios na delimitação realizada em 1979.
Pelas Portarias ministeriais nº 193, 194 e 195, de 6 de março de 1998, a TI
Caieiras Velhas passa a ter a superfície aproximada de 2.804 ha e perímetro
aproximado de 34 km; a TI Comboios, superfície aproximada de 2.759 ha e perímetro
aproximado de 45 km; a TI Pau Brasil, superfície aproximada de 1.498 ha e perímetro
aproximado de 20 km.
As comunidades Tupiniquim de Caieiras Velhas e Pau Brasil não concordaram com a
proposta ministerial e passaram a efetuar uma autodemarcação baseada na
proposta original do Grupo de Trabalho. Depois de três semanas de intensos
conflitos locais, no dia 2 de abril de 1998 foi assinado em Brasília por índios,
Funai, Aracruz Celulose e Ministério Público Federal, um Termo de
Ajustamento de Conduta, que previa repasses de verbas da Aracruz Celulose
para as comunidades de Caieiras Velhas e Pau Brasil. Os recursos seriam
utilizados em projetos econômicos e assistenciais, voltados para a subsistência
dessas comunidades indígenas.
Convênios entre a FUNAI e a Prefeitura de Aracruz, desde meados dos anos 80,
mantêm escolas primárias e creches nas três terras indígenas. Data da mesma
época, um convênio com a Legião Brasileira de Assistência (LBA) que permitiu
a criação de cursos profissionalizantes para as famílias indígenas. Em 1995
e 1998 foram realizados em Caieiras Velhas seminários sobre Educação Indígena,
voltados para a análise do potencial curricular na produção de uma educação
diferenciada.
A Fundação Nacional de Saúde (FNS), a Prefeitura de Aracruz e a FUNAI,
desenvolveram projetos voltados para higiene pessoal - construção de
banheiros, fossas - além da instalação de postos de saúde nas aldeias.
Entretanto, em 1994 encontramos muitas famílias indígenas subnutridas,
indicando que o quadro sanitário só será alterado quando existirem melhores
condições de sobrevivência para os Tupiniquim.
O Núcleo Interinstitucional de Saúde Indígena (NISI), criado em 1994, engloba
vários parceiros, como a Prefeitura de Aracruz, a Secretaria Estadual de Saúde,
a FNS, a EMATER, a Aracruz Celulose e o Conselho Indigenista Missionário
(CIMI), e desenvolve projetos sanitários e agrícolas nas terras indígenas. Em
Comboios, os índios participam do Projeto Tamar, de proteção às tartarugas
marinhas.
Além da Igreja Católica, representada pela Pastoral Indigenista da Diocese de
Colatina e pelo CIMI-Leste, outras agências religiosas atuam junto aos
Tupiniquim, como a Assembléia de Deus, a Igreja Batista e a Pentecostal.
Nota sobre as fontes. Poucos são os trabalhos
disponíveis diretamente voltados para os Tupiniquim: o recente Relatório do
GT 0783/94, isto é, do Grupo de Trabalho coordenado por Carlos Augusto da
Rocha Freire que fez o reestudo das terras indígenas Tupiniquim; a dissertação
final de bacharelado, Tupinikin: os fabricantes de farinha do Pau-Brasil,
que Maria Terezinha Martins apresentou na Universidade Federal de Juiz de Fora;
e Bandas de Congos, de Guilherme Santos Neves, que há quase meio século
detectou índios Tupiniquim como integrantes de um grupo folclórico.
Outras obras, de caráter mais geral, são importantes por atestarem a presença
contínua da etnia Tupiniquim ao longo destes últimos cinco séculos. Para o século
XVI, o Tratado descriptivo do Brasil em 1587, de Gabriel Soares de Sousa,
os Tratados da Terra e Gente do Brasil, de Fernão Cardim, confirmados
por autores posteriores como Cezar Augusto Marques e Saint-Adolphe em seus
dicionários histórico-geográficos referentes à Província do Espírito Santo
e ao Império do Brasil e ainda pelo etnólogo Alfred Métraux em seu capítulo
sobre os Tupinambá para o Handbook of South American Indians. Para os séculos
XVII e XVIII, a documentação disponível foi aproveitada por autores recentes,
como Serafim Leite na sua monumental História da Companhia de Jesus no
Brasil, e Ewerton Guimarães em seu artigo sobre a situação de imóveis do
patrimônio indígena no Estado do Espírito Santo. Para o século XIX, as crônicas
de viagem de Maximiano de Wied Neuwied, Auguste de Saint-Hilaire, o próprio
Imperador Pedro II, cuja viagem ao Espírito Santo foi focalizada por Levy
Rocha, e sobretudo o pintor Auguste François Biard, que retrata os Tupiniquim
nas gravuras de seu livro Deux années au Brésil.
Carlos Augusto da Rocha Freire
Museu do Índio
museudoindio@ax.apc.org
julho de 1998
Anambé
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