Os povos Txapakura. Os Wari' constituem
um dos poucos remanescentes da família lingüística Txapakura, dado que a
maior parte dos falantes de línguas dessa família encontrava-se extinta já no
início de nosso século.
Atualmente, existem somente quatro grupos Txapakura: os Wari', os Torá, os Moré
ou Itenes, que vivem na margem esquerda do rio Guaporé, um pouco acima da
confluência com o Mamoré, em território boliviano, e os OroWin. Os últimos,
encontrados em 1963 na região das cabeceiras do rio Pacaas Novos, foram
exterminados por dois ataques dos brancos, restando não mais do que doze indivíduos
adultos e algumas crianças, aldeados hoje no Posto Indígena São Luis, no alto
rio Pacaas Novos. Existem ainda alguns indivíduos, dispersos entre a aldeia de
Sagarana, o PI Sotério e a cidade de Guajará-Mirim, que se dizem Cujubim, e
que de sua língua falam apenas alguns vocábulos, o bastante, entretanto, para
sabermos que se trata de língua dessa família.
As notícias que se tem dos povos de língua Txapakura são poucas e vagas:
viajantes registram a sua presença e contam sobre as relações que mantinham
com os brancos, enumerando vez por outra aspectos da cultura material. Somente
os grupos conhecidos como Huanyam, os "Chapakura", e os Moré foram
visitados por etnógrafos.
Segundo o etnólogo Curt Nimuendajú, o centro geográfico dos povos txapakura
parece ter sido ambas as margens do rio Guaporé, em seu médio e baixo curso,
apesar de alguns grupos, como os Torá e os já extintos Urupá, estarem
associados ao rio Madeira e seus afluentes desde os séculos XVIII e XIX. Muitos
dos povos Txpakura tiveram contato com o homem branco já no século XVII;
viveram em missões espanholas e portuguesas, aliaram-se aos brancos, fugiram e
foram capturados ou foram exterminados por epidemias e ataques armados.
Localização e população. Por volta do final do século
passado, os Wari' ocupavam a seguinte região, no sudoeste da Amazônia: a bacia
do rio Lage, afluente da margem direita do Mamoré, as bacias do rio Ouro Preto,
igarapé da Gruta, igarapé Santo André e rio Negro, afluentes do baixo e médio
curso da margem direita do rio Pacaas Novos, além das cabeceiras dos rios
Ribeirão e Formoso. Por volta dessa época houve uma migração de parte da
população para os rios Dois Irmãos e Novo, afluentes da margem esquerda do
Pacaas Novos.
Com a invasão de seringueiros a partir das primeiras décadas desse século, os
Wari' foram se deslocando para as cabeceiras dos rios, locais de mais difícil
acesso, até o momento em que foram "pacificados" por missionários e
agentes do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), entre o final da década de
1950 e início dos anos 1960. Reduzidos, devido às epidemias, a menos da metade
da população original, os Wari' passaram, em poucos anos, a viver em torno dos
postos do SPI.
Atualmente vivem distribuídos por oito aldeamentos, localizados em cinco
diferentes Terras Indígenas, todas no estado de Rondônia, conforme o quadro
abaixo. A Terra Indígena Sagarana, onde está o aldeamento de mesmo nome,
administrado pela Diocese de Guajará-Mirim, é a única ainda não homologada
(sua situação legal é "Delimitada").
|
Terra Indígena |
Área da TI |
Homologada em |
Aldeamento |
|
TI Pacaas Novos |
279.906 ha |
1991 |
PI Tanajura |
|
TI Negro-Ocaia |
104.064 ha |
1981 |
PI Negro-Ocaia |
|
TI Igarapé Lage |
107.321 ha |
1990 |
PI Lage |
|
TI Ribeirão |
47.863 ha |
1981 |
PI Ribeirão |
|
TI Sagarana |
18.120 ha |
- |
Sagarana |
De acordo com o censo realizado pela FUNAI no ano de 1998, os Wari' somavam cerca de 1930 indivíduos. Um censo anterior, do mesmo órgão, em 1996, indicava 2.050 pessoas.
Dos primeiros contatos à "pacificação".
Os Wari' foram mencionados pela primeira vez pelo Coronel Ricardo Franco em
1798, localizados nas margens do rio Pacaas Novos. No entanto, até o início de
nosso século mantiveram-se isolados, possivelmente porque viviam em áreas de
acesso difícil ou de pouco interesse econômico. Tudo mudou com a descoberta do
processo de vulcanização da borracha, em meados do século passado, que
provocou uma verdadeira corrida em busca da matéria prima nas florestas; o rio
Madeira foi escolhido como uma via privilegiada de acesso. Foi dado início à
construção da ferrovia Madeira-Mamoré para ligar a localidade de Santo Antônio
do Madeira a Guajará-Mirim, tendo como objetivo o escoamento da produção de látex
até o ponto de Manaus. Em 1919, ocorreu o primeiro atrito documentado entre os
Wari' e os trabalhadores da ferrovia, que raptaram vários índios e os levaram
para ser exibidos na cidade. Justamente no ano da inauguração da ferrovia,
1912, houve uma queda abrupta do interesse pelo látex brasileiro, suplantado
economicamente pela produção malasiana. Muitos seringueiros foram obrigados a
abandonar suas atividades, e os Wari', que tinham sido forçados a se deslocar
para territórios de mais difícil acesso, nas cabeceiras dos rios, puderam
reocupar algumas das antigas aldeias.
Nos anos 40, com a ocupação da Malásia pelos japoneses, ocorreu o segundo
boom da borracha, e muitos seringueiros começaram a subir o rio Pacaas Novos e
seu afluente Ouro Preto, de tal modo que, por volta de 1950, o primeiro era o
afluente do Mamoré mais densamente ocupado. Foi o auge dos conflitos entre os
Wari' e os "civilizados". Seringalistas organizavam expedições de
extermínio em que atacavam aldeias ao amanhecer, algumas vezes portando
metralhadoras, matando grande parte de seus habitantes. A vingança dos Wari' não
tardava: seringueiros e trabalhadores da ferrovia eram encontrados mortos com
seus corpos crivados de flechas. A tensão do conflito obrigou o SPI a tomar
providências, iniciando o processo de "pacificação" com a criação
de "postos de atração" em diversas localidades.
O primeiro contato pacífico só foi estabelecido em 1956, com a participação
dos missionários fundamentalistas da Missão Novas Tribos do Brasil. Na época
do contato, os Wari' ocupavam aldeias situadas ao longo do rio Lage (afluente da
margem direita do Mamoré) e seus afluentes, nas cabeceiras do rio Ribeirão, em
afluentes da margem direita do rio Pacaas Novos (alto Ouro Preto, Mana to',
igarapé Santo André, rio Negro e seu afluente Ocaia) e no rio Dois Irmãos,
afluente da margem esquerda do mesmo rio. O processo de "pacificação"
durou mais de dez anos (até 1969, quando foram trazidos os últimos índios
arredios): os Wari' viviam espalhados em um vasto território e, mesmo depois de
estabelecidos nos Postos, retornavam à floresta quando se sentiam ameaçados,
especialmente pelas epidemias que, na época do contato, exterminaram certamente
mais de dois terços da população.
Os grupos locais e os subgrupos. Os Wari' não têm um
nome que designe o grupo como um todo, isso que se costuma chamar de tribo ou,
mais modernamente, de etnia. A palavra wari' designa o pronome da primeira
pessoa do plural inclusivo, "nós", que significa também 'ser
humano', 'gente'. É o modo como são conhecidos na região e como gostam de ser
chamados pelos brancos.
A unidade étnica mais ampla definida por eles é o que aqui chamaremos de
subgrupo. Não há um nome genérico para subgrupo, mas somente para 'pessoa de
outro subgrupo', tatirim, que traduzimos como 'estrangeiro'.
Cada subgrupo tem um nome. São hoje os OroNao, os OroEo, os OroAt, os OroMon,
os OroWaram e os OroWaramXijein (oro é uma partícula coletivizadora, que pode
ser traduzida como 'povo', 'grupo'). Alguns indivíduos identificam-se com dois
outros subgrupos que não mais existem: os OroJowin e os OroKaoOroWaji.
Cada subgrupo relacionava-se até o momento da "pacificação" - e de
certo modo ainda hoje - a um território específico, constituído por um
conjunto de áreas nominadas, habitadas por grupos locais. Os grupos locais
tinham como núcleo um conjunto de irmãos de sexo masculino, casados, muitas
vezes, com um grupo de irmãs. A poliginia, especialmente a sororal (isto é, o
casamento simultâneo com uma ou mais irmãs da esposa), era freqüente. Após o
casamento, costumava-se alternar a moradia, ora com os pais da mulher, ora com
os pais do homem. Não se pode falar, portanto, em regra de residência. Um
grupo permanecia em um mesmo local entre um e cinco anos, e depois desse período
sua composição e local de aldeamento variavam. Os aldeamentos localizavam-se
sempre na terra firme amazônica, às margens de pequenos rios perenes.
Consistiam em um grupo de residências ocupadas por famílias nucleares e uma
casa dos homens, dormitório dos rapazes solteiros e lugar de reunião de homens
adultos.
Nas proximidades havia sempre uma roça de milho, base da subsistência wari'.
Na verdade, era o solo propício para o plantio de milho - terra preta - que
determinava a escolha do local de aldeamento.
A associação do subgrupo ao território é algo insistentemente marcado pelos
Wari', e o antônimo de "estrangeiro", tatirim, membro de outro
subgrupo, é "conterrâneo", win ma. Mas as fronteiras desses territórios
podiam ser franqueadas, de tal modo que, se uma determinada área normalmente
associada a um subgrupo passasse a ser ocupada por um conjunto de pessoas cujo núcleo
fossem os homens de outro subgrupo, essa área passava a ser reconhecida como
território deste último.
Não há uma regra unívoca que defina o pertencimento ao subgrupo. Ora se diz
que os filhos pertencem ao subgrupo do pai, ora ao da mãe, ou então àquele
associado ao território em que nasceram. O que acontece é que a identidade de
uma pessoa vai sendo constituída durante a vida, por meio da convivência com
seus conterrâneos, especialmente através da comensalidade. Isso não quer
dizer, como pode parecer, que os Wari' assumam que a filiação ao subgrupo pode
variar durante a vida. O que acontece é uma espécie de identidade múltipla,
onde diferentes pessoas classificam de modo distinto determinado indivíduo.
Sua distribuição atual ilustra bem o tipo de relação que os Wari'
estabelecem entre o espaço físico e o subgrupo enquanto unidade. Os subgrupos
do tempo da pacificação continuam a existir. Os Wari' se dizem OroEo, OroAt,
OroNao, OroWaram, OroMon e OroWaramXijein. A maioria dos OroEo, OroAt e parte
dos OroNao vive no posto Negro-Ocaia, que se situa na fronteira do território
outrora ocupado pelos OroNao e próximo à terra dos OroEo e dos OroAt. Outra
parte dos OroNao vive na margem esquerda do rio Pacaas Novos, para onde se
deslocaram no final do século passado, ocupando os postos Santo André e
Tanajura. Os OroWaram vivem em sua maioria no posto Lage, perto do território
em que viviam os OroWaramXijein. Os OroMon vivem, em sua maioria, no posto
Ribeirão, região que os Wari' ocupavam esporadicamente, quando caçavam, mas
onde não faziam roças. Os OroWaramXijein vivem parte com os OroWaram, no Lage,
e parte com os OroMon, no Ribeirão. Quando alguém de fora, um estrangeiro,
refere-se ao posto Lage, por exemplo, diz que é a terra dos OroWaram. "Vou
dançar nos OroWaram", dizem os Wari' que se dirigem ao posto Lage para uma
festa.
Os diferentes subgrupos relacionam-se ritualmente por meio de três tipos de
festas: tamara, hüroroin e hwitop. Em linhas gerais, anfitriões de um subgrupo
preparam chicha (bebida de milho), fermentada (hüroroin e hwitop) ou não (tamara),
para oferecerem a convidados de outro subgrupo. A relação entre convidados e
anfitriões é de hostilidade ritualizada, onde os últimos procuram embriagar e
humilhar os primeiros, que estariam recebendo uma espécie de castigo por terem
atuado inicialmente como predadores dos anfitriões: disfarçados de animais ou
atacando eles próprios os animais dos anfitriões, e gracejando com as suas
mulheres. Quando um convidado tomba inconsciente por excesso de bebida, o
anfitrião diante dele exclama: "eu o matei". Essas festas realizam-se
hoje entre habitantes de distintos postos que, como vimos, são associados aos
diferentes subgrupos.
A sociedade wari' é marcadamente igualitária, sem chefes, grupos de idade,
grupos rituais ou especialistas de qualquer tipo.
A guerra. O inimigo é pensado como um Wari' que se
distanciou espacialmente e com quem as trocas foram interrompidas. Os Wari'
equacionam os inimigos às presas animais. No passado, quando os Wari'
praticavam a guerra, os inimigos eram flechados e mortos e, quando possível,
partes deles eram levadas às aldeias dos matadores (todos aqueles que
participaram da expedição) para serem comidas por suas mulheres e por aqueles
que haviam permanecido em casa. Os matadores, ao retornar, entravam em um período
de reclusão, onde permaneciam deitados a maior parte do tempo na
casa-dos-homens, evitando muitos movimentos e especialmente ferimentos, de modo
a manter em seus corpos o sangue do inimigo morto.
Esse sangue, associado à chicha não-fermentada, que constituía praticamente o
único alimento dos matadores, fazia-os engordar, tornando-os homens fortes e
viris. Nesse período era proibido também o ato sexual, que provocaria a perda
do sangue do inimigo tornado sêmen, que então iria engordar não a eles, mas a
suas mulheres e amantes.
Por conter em si o sangue do inimigo morto, o matador estava interditado de
comer da sua presa, o que consistiria em ato de auto-canibalismo e provocaria a
morte. Todos os demais, com exceção das crianças, podiam comer da carne do
inimigo, que era assada e ingerida em grandes pedaços, marcando a diferença
entre esse repasto e o canibalismo funerário, e associando-o à ingestão de
presas animais.
Após a reclusão, que terminava quando as mulheres se diziam cansadas de
preparar continuamente grandes quantidades de chicha, e quando os homens se
sentiam gordos o suficiente, o espírito do inimigo morto permanecia associado
ao matador, como um filho: acompanhava-o por toda parte e comia da sua comida.
Tradicionalmente os Wari' faziam guerra com povos vizinhos, em sua maioria
Txapakura e Tupi. Os inimigos mais citados por eles são os tupi Karipuna e os
Uru-Eu-Wau-Wau. Com a invasão de suas terras por seringueiros no início do século,
perderam contato com esses inimigos e a guerra passou a ser direcionada contra
os brancos, também classificados como inimigos, wijam. Essa guerra durou até a
"pacificação", e constituiu um de seus motores centrais: diante dos
corpos mutilados de vizinhos e parentes, que os Wari' matavam muitas vezes em
represália aos ataques armados que massacravam suas aldeias de madrugada, os
agentes governamentais e poderosos locais apressaram-se a atrair os Wari', não
só para acabar com as mortes, mas principalmente para abrir caminho à expansão
das atividades econômicas locais, especialmente a extração da borracha.
O canibalismo funerário. Os Wari' comiam não só os
inimigos que matavam, mas também os mortos do grupo. O rito tinha início já
na doença grave, quando o moribundo era chorado por parentes consangüíneos e
afins. Desde aí, iniciava-se um canto fúnebre, em que todos se referiam ao
doente/morto por termos de consangüinidade, e relembravam fatos vividos com
ele. Diante da morte, o choro se intensificava. Os parentes próximos, chamados
de "parentes verdadeiros" passavam então a diferenciar-se dos
"parentes distantes", categoria que aí inclui especialmente aqueles
efetivamente relacionados pelo casamento. Os primeiros organizavam o funeral, e
os últimos o executavam. Antes que o cadáver pudesse ser preparado, devia-se
aguardar a chegada dos parentes próximos que viviam em outras aldeias, e que
recebiam o aviso da morte por meio desses mesmos afins. Nesse período, de cerca
de dois a três dias, o cadáver apodrecia, e é nesse estado que era cortado e
moqueado pelos afins. Pronta a carne, os parentes próximos a desfiavam e
depositavam-na sobre uma esteira, ao lado de pequenos pedaços de pamonha de
milho assada. Solicitavam então aos parentes distantes que a comessem. Não se
devia pegar a carne com as mãos, mas espetá-la em pauzinhos, levando-a
delicadamente à boca. Os Wari' não gostavam que se comesse do morto com
avidez, como se fosse carne de caça, e o apodrecimento, que aparentemente era
conseqüência de um prolongamento inevitável do velório, já que os parentes
que moravam longe faziam questão de ver o cadáver íntegro, era também um
modo de tornar a ingestão da carne desagradável, às vezes quase impossível.
Nesses casos, comia-se só um pouco, e o resto era queimado, juntamente com os
cabelos, órgãos internos (com exceção do fígado e do coração, que eram
comidos), e genitália.
Finda a carne, os parentes próximos decidiam se os ossos seriam queimados e
enterrados com o moquém, ou se seriam macerados e ingeridos com mel. De um modo
geral são os parentes distantes que ingerem os ossos, mas algumas pessoas
afirmam que essa parte do repasto cabia aos netos, que também eram os comedores
preferenciais dos miolos assados do morto.
Após o funeral, iniciava-se o período do "varrer", quando eram
queimados todos os pertences do morto, desde a casa que construíra, o local
onde havia sido assado, até sua roça de milho e os lugares na floresta onde
costumava andar e se sentar. Um luto prolongado, de vários meses ou mesmo anos,
terminava diferencialmente para os diversos parentes, que decidiam quando
deveriam voltar a falar normamente e a participar de festas. Realizavam então o
rito de final de luto, quando uma grande quantidade de presas previamente
moqueadas, resultantes de uma caçada coletiva, eram choradas como se fossem o
morto. Essas presas eram depois comidas não só por não-parentes, mas também
pelos consangüíneos próximos. Depois disso cantava-se e dançava-se e a vida
voltava ao normal. O espírito do morto passava a viver plenamente no mundo
subaquático dos mortos, como acontece ainda hoje. Quando quer vir à terra ver
os seus, ou passear, torna-se queixada, sendo caçado e comidos pelos Wari', e
retornando ao mundo dos mortos.
Atualmente, os mortos não são mais comidos, mas enterrados, depois de chorados
por dois ou três dias. O abandono do canibalismo ocorreu pouco tempo depois da
"pacificação".
Cosmologia. A dinâmica que estrutura as relações
sociais wari' - o contraste entre a inimizade relacionada ao assassinato e
devoração, e a sociabilidade, relacionada às trocas de comida, cônjuges e
cooperação mútua - estende-se também às relações com outros seres. Muitas
espécies animais, assim como alguns poucos vegetais e certos fenômenos
naturais, são considerados humanos por serem dotados de espírito.
Grande parte da mitologia, dos rituais, e dos processos de cura, giram em torno
da idéia de que, sendo estes seres humanos, os Wari' podem se comunicar e lidar
com eles como lidam com outras categorias de gente.
Espíritos ancestrais e espíritos animais são as categorias de espírito mais
significativas para os Wari'. Apesar de reconhecerem também a existência de
outros tipos de seres dotados de espírito, como plantas, trovão e personagens
míticos, as idéias sobre a sua humanidade tendem a ser vagas em contraste com
as imagens elaboradas dos ancestrais e espíritos animais.
Os espíritos dos mortos residem em uma sociedade paralela formada por aldeias
situadas sob as águas de rios profundos, em áreas ocupadas pelos subgrupos
wari' antes do contato. O líder desse mundo subaquático dos mortos é um
gigante chamado Towira Towira. Ele é a causa última da morte dos Wari', pois
recebe o espírito das pessoas gravemente doentes em uma festa de tipo hüroroin
e, como anfitrião, oferece-lhes chicha de milho fermentada que, se aceita,
causa a morte definitiva do corpo físico. Ao modo das relações de hostilidade
ritualizadas entre anfitriões e convidados nas festas wari', esse encontro com
Towira Towira é concebido como predação simbólica seguida de consumo e
posterior ressurreição da presa, já que os mortos revivem sob a água. Os
Wari', por sua vez, consomem os espíritos subaquáticos, pois quando os
ancestrais emergem, o fazem na forma de queixadas. Como convidados em uma festa,
os mortos-queixadas cantam e dançam para os Wari', permitindo que estes os
matem como presas. Um morto-queixada aproxima-se freqüentemente de um caçador
que é seu parente próximo, de modo que sua carne vai alimentar os seus próprios
parentes. Desse modo, o oferecimento de comida e a ajuda mútua que constituem o
cerne da vida familiar wari' continuam depois da morte, transformadas em uma
relação na qual os vivos e os mortos, humanos e animais, alternam nas posições
de anfitrião e convidado, predador e presa.
Temas de reciprocidade e predação também permeiam as idéias wari' sobre os
animais com espírito humano, os jami karawa. Esta categoria inclui o veado,
queixada, caititu, anta, macaco-prego, jaguar, peixes, abelhas e cobras, além
de algumas outras espécies, dependendo do subgrupo do informante. Os jami
karawa vivem em comunidades organizadas em subgrupos, ao modo das aldeias wari'
antes do contato; vivem em casas, fazem roças e festas. Os Wari' vêem os jami
karawa como animais, mas estes percebem a si mesmos como humanos, e os Wari'
como animais ou inimigos. Os jami karawa provocam doenças ao atacar os Wari',
flechando-os magicamente, ou entrando em seus corpos e devorando-os; o resultado
é a animalização da vítima. No caso dos jaguares e cobras, a predação tem
como alvo o corpo físico da vítima e não o seu espírito. Os Wari', por sua
vez, matam jami karawa, pois estes animais constituem o tipo de caça mais
apreciado por eles. Antes do contato, vários tipos de animais eram proibidos
como alimento, mas as proibições alimentares hoje não são mais tão rígidas.
A prática do xamanismo diminuiu nos primeiros anos após o contato, mas a
partir do início dos anos 1980 ocorreu um reavivamento. Na maioria das aldeias,
muitas famílias continuam a depender dos xamãs para o tratamento de doenças
causadas por espíritos animais, já que somente o xamã tem a visão especial
que lhe permite diagnosticar a doença e enxergar os jami karawa na sua forma
verdadeira, como humanos com quem é possível negociar. Praticamente todos os
xamãs são homens, e idiomas de caça, guerra e afinidade permeiam o discurso
wari' sobre xamanismo e espíritos animais. Um homem se torna xamã quando um
jami karawa o mata e o faz reviver, processo tipicamente associado a uma doença
grave ou trauma. Quando o espírito animal tira frutos e outras substâncias de
seu próprio corpo e os implanta no corpo de um Wari', provê essa pessoa de
poderes xamânicos e de uma dupla identidade: torna-a simultaneamente humana e
animal da mesma espécie que a iniciou. Os xamãs tratam as doenças causadas
por espíritos animais e por feiticeiros wari'. Geralmente não curam doenças
identificadas como doenças de brancos, que são tratadas pelos assistentes de
enfermagem, enfermeiros e médicos, que utilizam técnicas de cura ocidentais.
Saúde, dieta e economia. Os problemas de saúde mais
comuns são a malária (que algumas vezes atinge níveis epidêmicos), infecções
respiratórias, parasitoses, diarréias e doenças gastrointestinais. A
tuberculose, que inclui formas resistentes, também tem sido um problema
recorrente. No decorrer dos anos, as condições de saúde têm variado
radicalmente, dependendo do grau de assistência médica, especialmente no âmbito
da aldeia. Atualmente, cada posto-aldeamento tem uma pequena farmácia, onde se
oferece assistência médica primária ministrada por um auxiliar de enfermagem
empregado pela agência governamental. Recentemente, jovens wari' passaram a
receber treinamento como assistentes de saúde, modelo vigente há muito na
aldeia de Sagarana, e atuam em seus próprios aldeamentos, ao lado dos
auxiliares de enfermagem ou mesmo sozinhos, quando da ausência destes. Os
funcionários da Casa do Índio da Funai em Guajará-Mirim oferecem diagnósticos
e tratamentos mais especializados, e coordenam programas de vacinação e o
trabalho de um grupo constituído por médico, enfermeiro e dentista, que
periodicamente visita as aldeias wari'. Entre os anos 1983 e 1989, o Projeto
Polonoroeste subsidiou melhorias na infraestrutura médica, a construção de
farmácias-enfermarias nas aldeias, escolas e casas para os funcionários da
Funai, além da aquisição de barcos, motores, caminhões, rádios e geradores
para os postos indígenas. Com o fim desse subsídio, os serviços médicos e
outros têm sofrido cortes constantes e dependido de verbas esporádicas e
incertas.
O estado nutricional da maioria dos Wari' varia entre o adequado e o precário.
Desde o contato os Wari' adotaram diversos cultivos, dentre eles a mandioca
brava, o arroz, e várias frutas, além de animais domésticos, como cachorros e
galinhas. O gado foi introduzido em diversas aldeias, mas a criação não tem
tido êxito. As crianças que freqüentam as escolas dos postos recebem merenda
diária, e as famílias wari' consomem alguns alimentos industrializados, apesar
da subsistência ainda depender largamente da caça, pesca, coleta e cultivo de
roças.
Para que os Wari' possam viver de sua terra é preciso que tenham alguma
mobilidade para usufruir os recursos florestais que estão dispersos pelo território.
Essa necessidade de mobilidade está em conflito com a política governamental
de concentrar a população em poucas aldeias permanentes, em locais de fácil
acesso de modo a permitir o deslocamento dos administradores. Alguns desses
locais não têm, em suas imediações, solo adequado para o cultivo,
especialmente do milho, base da subsistência wari', e que exige um solo
especial, conhecido como terra preta. Solo fértil, caça, pesca, lenha e outros
recursos tornam-se escassos nas vizinhanças desses postos permanentes e
populosos, com impacto negativo na dieta e na saúde, que piora com o
crescimento da população indígena. Diante disso, os Wari' estão iniciando um
processo legal de requisição de parte de seu território tradicional, nas
margens dos rios Pacaas Novos e Ouro Preto, hoje ocupada por posseiros para a
criação de gado. Pretendem com isso fundar novas aldeias, evitando a escassez
de alimentos e o alto índice de doenças.
Técnicos agrícolas e outros funcionários da FUNAI criaram vários programas
para incentivar a coleta de borracha e de castanha-do-pará, roças coletivas e
produção agrícola para a venda. Os resultados desses projetos são variados.
A obtenção de dinheiro para comprar munição, material de pesca, roupas e
outros bens constitui um problema constante para os Wari'. Muitas famílias
coletam e vendem borracha e castanha-do-pará, mas a instabilidade dos preços não
permite que dependam disso como fonte de renda. Os mais idosos recebem uma
aposentadoria, e os jovens algumas vezes conseguem dinheiro através de trabalho
temporário para a Funai ou para fazendeiros e seringueiros vizinhos. A questão
da comercialização de recursos florestais é polêmica. Nos últimos anos,
alguns Wari' têm pressionado a Funai para permitir o comércio de madeira, mas
têm sofrido a oposição de vários de seus pares. Até o momento, a Funai tem
se mantido firme na sua decisão de proibir o comércio de madeira em larga
escala e de evitar a exploração dos Wari' e de seus recursos por firmas
comerciais.
Nota sobre as fontes. Os primeiros estudos antropológicos
foram realizados por dois etnógrafos que viveram com os Wari' no final dos anos
1960 e início dos anos 1970. Alan Mason estudou a comunidade de Pitop (hoje
Tanajura), e sua tese de doutorado trata da organização social e parentesco
dos OroNao. A tese de doutorado de Bernard Von Graeve trata da história do
contato entre os Wari' e a sociedade nacional, com ênfase especial na história
e organização da comunidade de Sagarana, administrada pela Igreja Católica,
é a base de seu livro The Pacaa Nova.
Em 1986, Denise Maldi Meireles defendeu sua dissertação de mestrado em
antropologia social na Universidade de Brasília, baseada em entrevistas
realizadas em diversas comunidades wari' (Os Pakaas-Novos). Trata de temas tais
como a organização social, a noção de pessoa, mitologia e canibalismo. Em
1989 publicou um estudo histórico sobre a ocupação da região do rio Guaporé:
Guardiães da Fronteira.
Beth Conklin realizou, nos anos de 1985-1987, pesquisa na comunidade de Santo
André, e em outras quatro aldeias wari'. Sua tese de doutorado em antropologia
médica, Images of Health, Illness and Death Among the Wari', analisa experiências
de doença na sociedade wari' antes e depois do contato, e as concepções do
corpo nas relações sociais wari', na doença e no canibalismo funerário,
trabalho que continua em vários artigos posteriores. Seu livro, Consuming
Grief: Mortuary Cannibalism in an Amazonian Society, a ser publicado pela
University of Texas Press, explora o modo como o endocanibalismo se enquadra em
um processo de luto constituído por idéias sobre corpos, espíritos, memória
e pela psicologia do sofrimento.
Em 1986, Aparecida Vilaça iniciou pesquisa de campo entre os Wari', tendo como
principal sede a aldeia do Rio Negro-Ocaia. Sua dissertação de mestrado,
defendida em 1989, no Museu Nacional, UFRJ, foi publicada como livro, Comendo
como gente, em 1992. Trata-se de um estudo do canibalismo wari', tanto literal
quanto figurado, com ênfase na cosmologia, guerra, xamanismo e rituais. Sua
tese de doutorado em antropologia social, Quem somos nós, analisa a questão da
identidade e da definição das categorias estrangeiro, inimigo e branco antes,
durante e depois da pacificação, contato e conversão ao cristianismo. Tem
publicado vários artigos sobre estas e outras questões.
Em 1996, Marlene Rodrigues Novaes (Unicamp) escreveu uma dissertação de
mestrado em antropologia social baseada em cinco semanas de trabalho de campo na
comunidade do PI Lage: A Caminho da Farmácia. Trata das representações indígenas
das doenças e tratamentos e das relações entre a medicina wari' e os serviços
de saúde da Funai.
Desde os anos 1950 a língua wari' vem sendo estudada por missionários da Missão
Novas Tribos do Brasil, que desenvolveram uma ortografia, transcreveram partes
da Bíblia e organizaram cartilhas e outros materiais didáticos. Seu trabalho
sobre a língua wari' tornou-se finalmente acessível com a publicação de uma
gramática descritiva, Wari': The Pacaas Novos Language of Western Brazil,
escrita por Daniel Everett, lingüista da University of Pittsburgh, e Barbara
Kern, uma lingüista da Novas Tribos que trabalha com os Wari' desde o início
dos anos 1960.
Em trabalhos mais antigos se encontram referências básicas sobre os povos
Txapakura, como os capítulos de Métraux, "Tribes of eastern Bolivia and
the Madeira Headwaters: The Chapacuran Tribes", e de Lévi-Strauss,
"Tribes of the rigth bank of the Guaporé River", no Handbook of South
American Indians; o Mapa Etno-Histórico de Curt Nimuendajú e o seu artigo
"As Tribus do Alto Madeira"; as "Notes on the Moré Indians, Rio
Guaporé, Bolívia", de Rydén; os livros El Itenez Salvaje, de Leigue
Castedo; Atiko y, de Snethlage; e o artigo de Nordenskiöld "The
Ethnography of South-America seen from Mojos in Bolivia".
Aparecida Vilaça
Museu Nacional, UFRJ
avilaca@ax.apc.org & Beth Conklin
Vanderbilt University
Conkliba@ctrvax.vanderbilt.edu
outubro de 1998
Anambé
| Apiaká | Arara | Araweté
| Asuriní do Tocantins Ashaninka
| Atikum | Bakairí | Bororo
| Enawenê NawêFulni-ô | Galibi
| Galibi Marworno | Guajá | Guajajára
| Javaé Ka'apor | Kadiwéu
| Kaiabi | Karajá | Kariri-Xocó
| Katukina Pano | Krahó | Krenák
| Kwazá | Marúbo | Maku
| Maxakali
Miranha | Palikur | Panará
| Gavião Parkatêjê | Payakú
| Pirahã Pitaguarí
| Rikbaktsa | Suruí
| Tapeba | Tapuio
| Tenharim
Timbira
| Tingui-Botó | Torá | Tupiniquim
|
Xavante | Xetá
Xerente | Xokleng
| Waiãpi | Wari | Yaminawa
| Yanomami Yawanawa | Zo'é