Nome. A história
do nome dos Xokleng tem provocado muitos debates. Desde seus primeiros contatos
amistosos com os funcionários do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), a
partir de 1914, as denominações dadas ao grupo foram as mais variadas:
"Bugres", "Botocudos", "Aweikoma", "Xokleng",
"Xokrén", "Kaingang de Santa Catarina" e "Aweikoma-Kaingang".
Estas denominações se devem à proximidade lingüístico-cultural existente
entre os Xokleng e os Kaingang; à pouca importância dada pelos etnógrafos à
auto-denominação; e ao desconhecimento da etno-história dos Xokleng.
Na primeira etnografia sobre os Xokleng, Jules Henry (1941), apesar de denominá-los
Kaingang, admitiu haver diferenças lingüístico-culturais entre eles e os
outros Kaingang. Gregory Urban (1978) afirma que os Xokleng se originaram dos
Kaingang, e tal separação se deu devido à fissões de suas patri-metades, e
que o termo "Xokleng" é muito genérico e não lhes dá identidade.
Os índios alegam que esta palavra, que significa "aranha" ou
"taipa", foi "inventada pelos brancos por engano". Por outro
lado, os próprios Kaingang não reconhecem os Xokleng como
"parentes".
Entretanto, o termo "Xokleng", popularizado pelo trabalho do etnólogo
Sílvio Coelho dos Santos, foi incorporado pelo grupo enquanto denominador de
uma identidade externa, usada em suas lutas políticas junto à FUNAI e aos
meios de comunicação. Hoje, muitos se auto-denominam "Laklanõ",
isso é , "gente do sol" ou "gente ligeira". O termo Laklanõ
vem ganhando espaço político interno através de um movimento recente de
recuperação de seu idioma, escrita de mitos antigos e bilingüismo.
Língua. As línguas
dos Xokleng e dos Kaingang constituem o ramo meridional da família Jê.
De acordo com os índios, na TI Ibirama (SC), fala-se o "xokleng", um
idioma próximo ao kaingang. Os Xokleng dizem entender alguma coisa de kaingang,
mas não o falam.
Nos últimos vinte anos, o número de falantes de xokleng se reduziu bastante. A
grande maioria dos jovens fala somente português. Isso se deve ao aumento de
casamentos com não indígenas; às inúmeras rupturas sociais, políticas, econômicas
e culturais provocadas pela construção da Barragem Norte; e à presença de
escolas para indígenas com a mesma grade curricular das demais escolas públicas,
que não estimulam e nem consideram as particularidades culturais.
De 1992 para cá, por iniciativa do Xokleng Nanblá Gakran, a aprendizagem do
idioma vêm sendo incorporada nas escolas da TI Ibirama. Um pequeno dicionário
xokleng-português e um livreto com "lendas", nos dois idiomas, foram
produzidos por ele, com o apoio da FUNAI, prefeituras locais e pela FURB (Fundação
Universidade Regional de Blumenau) e estão sendo usados em sala de aula. Através
desta iniciativa, tanto os adultos, que não conheciam o xokleng escrito, quanto
as crianças, que não falavam a língua, estão despertando para a importância
de se conhecer seu idioma e cultura. Hoje, o idioma, que os Xokleng já gostam
de falar em público, tem se tornado um símbolo político muito forte ligado à
idéia de fonte de poder e da construção de uma identidade étnica positiva.
Localização. A TI Ibirama está situada ao
longo dos rios Hercílio (antigo Itajaí do Norte) e Plate, que moldam um dos
vales formadores da bacia do rio Itajaí-açu. A TI Ibirama está a cerca de 260
km a noroeste de Florianópolis e 100 a oeste de Blumenau. Localizada em quatro
municípios catarinenses — José Boiteux, Victor Meirelles, Doutor Pedrinho e
Itaiópolis — cerca de 70% da área da TI Ibirama está dentro dos limites dos
municípios José Boiteux (sudoeste da TI) e Doutor Pedrinho (norte da TI).
Inicialmente denominada Posto Indígena Duque de Caxias, foi criada pelo chefe
do governo catarinense, Adolfo Konder, em 1926, que destinou aos Xokleng uma área
de 20.000 hectares. Em 1965 foi oficialmente demarcada com 14.156 hectares e em
1975 recebeu o nome de Ibirama.
A TI Ibirama ocupa área de floresta subtropical, que até os anos 60 era riquíssima
em palmito, mas a extração predatória praticamente o extinguiu. No início
dos anos 70 a floresta nativa, onde abundavam madeiras nobres, começou a ser
explorada por madeireiras, com o aval da Funai, para um alegado usufruto pelos
índios. Toda a reserva de madeira praticamente se extinguiu em meados dos anos
80.
A TI Ibirama sofreu outra grande transformação a partir dos anos 70, com a
construção da Barragem Norte, que represou o rio Hercílio junto à sua divisa
sudeste, com o objetivo de conter as enchentes nas cidades industriais do baixo
vale do Itajaí, como Blumenau. O lago de contenção formado inundou cerca de
900 hectares das terras mais planas e agricultáveis da TI. Com a inundação,
os Xokleng tiveram de se mudar para as partes altas da TI, onde a mata era
virgem e de onde não sabiam tirar o sustento. Intensificou-se a partir daí a
exploração da madeira. A TI foi loteada entre famílias nucleares em
"frentes" de exploração delimitadas. A comercialização da madeira
privilegiou os comerciantes locais e vários funcionários da FUNAI, além dos
Kaingang e mestiços Kaingang-brancos. Somente em 1997 a FUNAI organizou uma
equipe interdisciplinar para recuperar as áreas invadidas por madeireiras e
estudar a possibilidade da redefinição dos limites da TI. A tensão no local
ainda é grande e exige a presença de autoridades para intermediar os conflitos
entre madeireiros, índios e colonos.
Ainda hoje o processo de indenização aos Xokleng, pela inundação de parte da
TI não avançou; também não houve a construção total de casas, pontes e
estradas prometidas pelo governo. Na TI Ibirama já não se pratica a
agricultura e a caça é rara. A pesca serve como suplemento alimentar, junto a
alimentos comprados.
Demografia. A população da TI Ibirama é flutuante, multiétnica, e sua configuração vem se alterando ao longo dos 84 anos de contato. O último censo feito em 1997, além do total de 1.009 pessoas vivendo na TI, contou cerca de 20 famílias Xokleng morando nas periferias das cidades de Blumenau, Joinville e Itajaí.
|
Terra Indígena Ibirama |
|||||
|
SPI estimativa 1914 |
Henry 1932 |
Santos Censo 1964 |
FUNAI censo 1980 |
FUNAI censo 1997 |
|
|
Xokleng |
400 |
106 |
160 |
529 |
723 |
|
Guarani |
- |
- |
33 |
102 |
54 |
|
Kaingang |
- |
- |
11 |
88 |
21 |
|
Mestiços |
- |
- |
82 |
129 |
126 |
|
Cafuzos |
- |
- |
- |
- |
18 |
|
Brancos |
- |
- |
50 |
18 |
67 |
|
Total |
400 |
106 |
336 |
886 |
1.009 |
Os critérios de inclusão e exclusão étnicos
usados nestes censos e estimativas não foram definidos. Porém, é possível
afirmar com segurança que a população da TI Ibirama não é composta por uma
única etnia e que os casamentos inter-étnicos são freqüentes. A identidade
étnica alterna-se conforme fatores conjunturais; assim, como apenas os Xokleng
se vêm no direito às indenizações a serem pagas pela inundação provocada
pela barragem, verificamos um alto número de "Xokleng" e Mestiços e
um baixo número de "Kaingang" no último censo. Mas, internamente, os
Kaingang, Mestiços, Cafuzos e Guarani são bem diferenciados dos chamados
"Xokleng puros".
A presença de Kaingang e seus descendentes na TI Ibirama deve-se ao fato do SPI
ter usado duas famílias Kaingang, provenientes do Paraná, para ajudar na atração
e "pacificação" dos Xokleng, dando aos Kaingang o direito ao
usufruto da terra. Desde então casamentos interétnicos vêm ocorrendo, e o número
de mestiços Kaingang/ Xokleng tornou-se marcante. Porém, boa parte dos
Kaingang e Mestiços se casou com não-índios, principalmente com funcionários
do SPI e com colonos italianos; com a construção da barragem, algumas mulheres
Xokleng se casaram, ou tiveram filhos, com os operários; e quando se deu início
à exploração de madeira muitos não-índios se casaram com Xokleng e Kaingang
para usufruir do direito de explorar e vender a madeira. Mais recentemente, vários
Xokleng se casaram com mulheres Kaingang de outras terras indígenas do Paraná
e Santa Catarina.
Os Cafuzos que viviam na TI Ibirama são na verdade negros remanescentes da
Guerra do Contestado, sem terra, trazidos por iniciativa do então chefe do
Posto Indígena, Eduardo de Silva Lima Hoerhann, a partir da segunda metade da década
de 40, e usados como mão-de-obra agrícola quase escrava. Em 1991, quase todos
saíram para uma terra próxima cedida pelo INCRA. Os casamentos entre Xokleng e
Cafuzos foram raros.
As primeiras famílias Guarani chegaram à TI Ibirama vindas do sudoeste e das
fronteiras com o Paraguai e Argentina, nos anos 50. Eles vivem social, cultural
e geograficamente isolados dos outros grupos; não tiveram direito à extração
da madeira e nem às indenizações pela inundação. Em 1991 metade dos Guarani
migrou para o litoral. Os casamentos entre Guaranis e Xokleng foram raros.
Os censos mostram também a morte em massa dos primeiros Xokleng contatados, vítimas
de grandes epidemias de gripe, febre amarela e sarampo (entre 1914, o ano do
contato, e 1935 morreram dois terços dos Xokleng).
História do contato. Desde o início do século
XVIII, já se estudava a possibilidade de ligar o Rio Grande do Sul a São Paulo
para melhorar o comércio entre as duas regiões, incrementar a pecuária e a
agricultura e abrir novas fronteiras. Este território, formado por enormes áreas
de planalto, era tradicionalmente ocupado pelos índios Kaingang e Xokleng
(estes últimos entre os paralelos 25º e 30º, e entre o planalto e o litoral).
Em 1728 se dá a abertura da estrada de tropa entre as duas províncias (com
basicamente o mesmo traçado da atual BR-116). Em 1777 surge a cidade de Lages,
onde se estabelecem fazendas de criação de gado, a exploração e cultivo de
erva-mate e a exploração de madeira. A mata nativa desses planaltos era de
araucária, fonte de alimentos para os índios Xokleng e Kaingang durante os
meses de inverno. A redução da área de pinheirais ameaçou uma de suas
principais fontes de sobrevivência, já que estas sociedades eram caçadoras e
coletoras. Iniciam-se conflitos entre brancos e índios, e entre os próprios índios,
que lutavam pelos territórios de pinheirais ainda intocados.
Durante o século XIX, inicia-se a colonização européia, inicialmente no Rio
Grande do Sul, que vai expulsando os Xokleng para Santa Catarina, aumentando a
luta destes e dos Kaingang por território, e depois na direção do oeste de
Santa Catarina, seu planalto e o vale do Itajaí.
Segundo Urban (1978), até a primeira metade do século XIX, havia dois grupos
Xokleng, os Waikòmang e os Kañre, que constituiam patrimetades, como as
existentes entre os outros índios Jê, e mesmo como entre os Kaingang. Os Waikòmang
mataram os homens da metade Kañre, incorporando à sua metade mulheres e crianças
Kañre. Com isso, termina o sistema de patrimetades entre os Xokleng, deixando
aflorar a subdivisão em parentes consangüíneos, afins e não parentes.
A partir de então, a história política dos Waikòmang se caracterizou por
disputas faccionais que deram origem a três facções já na segunda metade do
século XIX: uma denominada Ngrokòthi-tõ-prèy,
a oeste do Estado de Santa Catarina, na fronteira
com o Paraná, próximo ao município de Porto União (SC); uma no centro do
Estado, próximo ao município de Ibirama, junto ao rio Hercílio (ou rio Itajaí
do Norte), denominada Laklanõ; e outra no centro, mais próximo ao litoral,
junto à serra do Tabuleiro, denominada Angying (Urban 1978). Santos (1973)
aponta para a existência de uma facção Xokleng no sul do Estado, nos municípios
de São Joaquim, Orleães e Anitápolis, que eu creio ser parte da facção
Angying.
A ocupação destes territórios "tradicionais" Xokleng por imigrantes
foi conflituosa; na região do vale do Itajaí, por exemplo, ocorreram vários
assaltos aos colonos e o clima de insegurança dos mesmos frente a estes ataques
ameaçava todo o processo de colonização.
O poder político e religioso da capital estava dividido entre apoiar o total
extermínio dos Xokleng, para garantir o desenvolvimento da região, e os
pruridos humanistas. Criaram-se então dois blocos divergentes: um, formado por
frades capuchinhos, tentava a incursão nos sertões para a catequização dos
índios; outro, formado por bugreiros ou caçadores de índios, milícias
fortemente armadas, criadas pelo governo provincial em 1879, recrutadas
oficialmente para atrair os "gentios" e colocá-los em lugar seguro,
mas cujo objetivo era o extermínio. Os Xokleng eram tratados pelos jornais da
época como "selvagens desalmados".
Geralmente os bugreiros atacavam por tocaia, à noite, matavam todos os adultos,
poupando algumas mulheres e crianças, que eram levadas para as cidades de
Blumenau, Florianópolis e outras localidades, onde eram batizadas e adotadas
por famílias burguesas ou por religiosos, como o Monsenhor Topp, que adotou um
menino Xokleng e argumentava que as crianças deveriam ser poupadas para, depois
de treinadas, ajudar na atração de seus parentes. Nesta época, o início do século
XX, ganha força a idéia de se atrair os índios e não matá-los, apesar de
nos municípios de Blumenau, Joinville, Lages, Orleães, entre outros, os índios
continuarem a ser vistos como obstáculo para o progresso, e portanto a serem
mortos por bugreiros.
Em 1907 cria-se a Liga Patriótica para a Catequese dos Silvícolas e, em 1910,
o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), que estrutura os postos para atrair
os índios.
O primeiro contato não belicoso entre os Xokleng e os funcionários do SPI se
deu por volta de 1911 no Posto de Atração do SPI instalado na região de Porto
União, sob a liderança do sertanista Fioravante Esperança. Esta região,
habitada pela referida facção Ngrokòthi-tõ-prèy, estava sendo colonizada
por europeus, tal como ocorria no vale do rio Itajaí, e mais ainda por
construtores da estrada de ferro que ligaria Rio Grande a São Paulo. Os
conflitos entre brancos e Xokleng era intenso. A "pacificação" dos
Xokleng durou somente um ano, pois um certo dia, apareceram no posto de atração,
onde estavam os Xokleng e os funcionários do SPI, dois fazendeiros locais que
haviam participado de chacinas anteriores contra os índios. Eles foram
reconhecidos pelos Xokleng, que os mataram, junto com os funcionários do SPI.
Os Xokleng voltaram para as matas, sendo novamente contatados em 1918 por João
Serrano, também do SPI, em um posto de atração localizado junto ao rio dos
Pardos, próximo aos municípios de Calmom e Matos Costa. Nesta época, foram
contados 50 índios, mas quase todos morreram por doenças respiratórias
advindas com o contado.
O primeiro contato não belicoso entre a facção Laklanõ, da região do alto
vale do Itajaí, e os brancos se deu em 1914 junto à confluência do rio Plate
com o rio Hercílio (Itajaí do Norte), onde havia um posto de atração. Ele se
deu através do funcionário do SPI, Eduardo de Lima e Silva Hoerhann, que ficou
conhecido como "o pacificador", e que foi chefe do posto até os anos
50. Segundo seus relatórios, nas primeiras décadas após a pacificação, os
Xokleng continuaram fazendo incursões pela floresta e às vezes se atracando
com colonos. Esporadicamente apareciam no posto para pegar alimentos, roupas ou
por estarem muito doentes. As incursões dos Xokleng pelas florestas da região
fez com que a ação dos bugreiros, mantidos tanto pelo governo quanto pelas
companhias de colonização e pelos colonos, durasse até o início de 1940.
Após os primeiros contatos, mortes em massa, provocadas por epidemias, levaram
os Xokleng a abandonar este posto do SPI para escapar às doenças dos brancos;
nesta época deixaram de executar dois rituais importantes: a perfuração dos lábios
inferiores dos rapazes para a introdução do botoque (ritual de iniciação
mais importante para os homens, chave para sua socialização e construção de
identidade); e o ritual de cremação dos mortos.
Segundo Santos (1973) a facção Xokleng do sul do Estado foi exterminada por
bugreiros em 1925. Em 1949, três sobreviventes foram contatados por caçadores
entre os municípios de Orleães e São Joaquim. Destes, dois morreram de gripe
e um foi levado para os Xokleng de Calmon. Os Xokleng da Serra do Tabuleiro
foram tidos como arredios ao contato até o início dos anos 70. Embora muito se
falasse sobre a sua existência na região, eles nunca foram contatados, estando
muito provavelmente já mortos ou integrados à sociedade nacional sem qualquer
registro etnográfico.
Os remanescentes Xokleng de rio dos Pardos, contatados em 1911 e recontatados em
1918, somam hoje cerca de 46 pessoas. Somente em 1992 a TI Rio dos Pardos foi
identificada. Em 1998 foi demarcada, mas ainda não foi homologada. A área
demarcada é de 770 hectares. No entanto esta terra ainda está sendo ocupada
por colonos, que esperam receber indenização do governo para deixá-la. A
terra já foi explorada por madeireiras, restando poucas áreas intactas. Os
Xokleng da região estão organizados em famílias nucleares (Pereira 1995).
Eles estão morando espalhados nas cidades de Calmon, Matos Costa e na TI
Ibirama. São empregados diaristas de lavouras dos colonos locais, ou empregadas
domésticas. Algumas famílias mantêm lavouras numa pequena área dentro da TI
Rio dos Pardos, porém somente acampam na região durante o plantio e colheita,
mas suas casas ficam nas cidades. Espera-se que, com a homologação da TI Rio
dos Pardos e a saída dos colonos da mesma, os Xokleng possam retornar a uma
organização sócio-econômica e política mais unitária.
Somente os Xokleng da facção Laklanõ sobreviveram até os dias de hoje enquanto uma sociedade diferenciada. Este fato se deve à própria história do contato entre agentes do SPI e os índios, à demarcação de sua terra já nos anos 20, ao aumento da população proporcionado pela vinda de alguns Kaingang do Paraná que se casaram com os Xokleng, e ao próprio tipo de colonização do médio e alto vale do rio Itajaí. Lá o predomínio da pequena propriedade, operada por famílias nucleares de origem alemã, italiana e, mais ao norte, polonesa, gerou um tipo de apartheid que "preservou" os Laklanõ como um grupo bem diferenciado, vivendo pacificamente, desde que dentro dos limites da TI.
Organização social e política pré-contato.
Henry (1941) afirma que no passado remoto os Xokleng praticavam a agricultura e
a caça, vivendo em vilas permanentes. Entretanto, antes do contato sistemático
com os brancos, os Xokleng eram nômades, vivendo da caça e da coleta do pinhão
(fruto da Araucaria angustifolia), não tinham acampamentos fixos e, portanto, não
mais cultivavam a terra. Segundo Urban (1978), dividiam e organizavam seu tempo
em dois períodos, verão e inverno. Os grupos, que variavam de 50 a 300
pessoas, passavam o inverno no planalto, se alimentando do pinhão. No verão
desciam para o vale, se reuniam e construíam ranchos, em semi-círculo,
voltados para uma praça central onde faziam os rituais de iniciação,
casamentos, ritos funerários, confraternizavam, caçavam e planejavam ataques
aos inimigos. Terminada a estação cerimonial, a vila se desfazia, e os grupos
saíam para mais uma jornada no planalto no inverno, e se reencontravam para
outra cerimônia, já planejada, no verão.
A admissão da existência de cinco grupos exogâmicos, que tinham suas próprias
pinturas corporais (ou "marcas") talvez se fundamente em
desdobramentos, quiçá sazonais, das três facções que sucederam as duas
antigas patrimetades. Mas, na época da pesquisa de Henry, já não havia uma
relação direta entre diferentes pinturas corporais e diferentes grupos de
nomes pessoais.
A residência após o casamento era com os parentes da esposa, sem que o marido
atenuasse seus laços com a família extensa de origem, pois davam grande valor
às lealdades paternas.
Segundo Urban, os Xokleng admitiam que, na procriação, o homem colabora com o
sêmen e a mulher com o sangue. Para o feto se desenvolver eram necessárias
relações sexuais contínuas. O homem era quem transmitia as características físicas
da criança.
José Maria de Paula, em 1924, constatou que, ao nascer um menino, o
pai e seus parentes escolhiam para ele o prenome de
um antepassado notável, ao qual acrescentavam como sobrenome o prenome do pai
acrescido do conjunto de nomes que identificava e qualificava a família extensa
do pai e à qual a criança passava a pertencer. O mesmo se dava ao nascer uma
menina, só que eram os parentes da mãe que faziam a escolha do prenome dela,
acrescido do prenome de seu pai e o conjunto de nomes da família extensa da mãe.
Conforme Darcy Ribeiro, no processo de maturação sexual das adolescentes era
importante que mantivessem relações sexuais freqüentes com os homens. Henry
observou a existência da poligamia, mas não da poliandria, antes do contato.
A morte é um relevante fator de ruptura social entre os Xokleng e evoca seu
principal ritual: a reclusão do cônjuge sobrevivente. Urban observou que os
Xokleng, quando em reclusão, devem obedecer a restrições alimentares e a uma
série de rituais de purificação. O retorno do viúvo ou viúva para o convívio
implica no seu corte de cabelos e unhas, cânticos, danças e pinturas corporais
envolvendo a comunidade. Os mortos adultos eram cremados, e as crianças
enterradas, pois acreditava-se que elas retornariam ao ventre da mãe e
renasceriam; por isso a nova criança recebia o nome da falecida.
O ritual de iniciação das crianças era central. Os meninos, entre três e
cinco anos, tinham botoques inseridos no lábio inferior; as meninas, também
nesta idade, recebiam tatuagens na perna esquerda, abaixo da rótula. Os
padrinhos, responsáveis pela perfuração labial e tatuagens, eram os mesmos
que, segundo Métraux, enterravam o cordão umbilical da criança e que mais
tarde acompanhariam o desenvolvimento e socialização das crianças até a fase
adulta. Normalmente eram os afilhados que se incumbiam da cremação de seus
padrinhos quando morriam.
Henry afirma que existia uma a forte relação entre homens denominada
"companheiros de caça", e que a mesma ia além da dos laços consangüíneos.
O processo de formação do homem devia transformá-lo num Waikayú , isto é,
uma pessoa plena e orgulhosa de si mesma. E só chegava a este estágio após
ter filhos e lutar contra outras famílias extensas ou contra os brancos.
Organização social atual. Atualmente os
Xokleng da TI Ibirama vivem em quatro aldeias: Sede, Figueira, Bugio e Toldo.
Todas têm autonomia política, um cacique e um vice-cacique. Há também um
cacique-presidente, que representa e dá a unidade aos Xokleng perante as
instituições com as quais estabelecem relações políticas. Estes líderes são
escolhidos por voto direto, têm mandato de dois anos e direito à reeleição.
Se a comunidade estiver descontente com algum dos líderes, pode destituí-lo
mediante um abaixo-assinado e escolher outro para terminar o mandato. Se o líder
faz um bom trabalho, pode ficar no poder por mais tempo, sem nova eleição.
Quem normalmente elege um candidato a cacique e/ou cacique-presidente, e o mantém
no poder, é sua família extensa, cujos membros se esforçam para usufruir do
poder e dos privilégios de ser "parente do cacique".
Embora a maior parte dos domicílios abriguem famílias nucleares — devido à
extração da madeira e à divisão da terra em "frentes" — eles estão
próximos uns dos outros e formam micro-aldeias dentro de cada vila, denominadas
pelos nomes das famílias extensas que as constituem. Assim, irmãos, cunhados,
noras e genros vivem próximos uns dos outros, trabalham juntos, caçam juntos;
repartem fruto de sua produção e as tarefas cotidianas que demandam a sobrevivência
de cada um desses núcleos.
As relações entre os Xokleng e os não Xokleng dentro de um mesmo domicílio,
ou numa unidade de produção familiar extensa, é quase sempre conflitiva.
A chefia destas famílias extensas é normalmente exercida pelas mulheres mais
velhas, que escolherão os casamentos para seus filhos, criarão filhos e netos
e coordenarão as tarefas domiciliares. O domicílio continua estabelecido mesmo
quando seu marido a deixa ou morre. A idade madura, para ambos os sexos, não
impede o envolvimento físico com alguém. Os idosos muitas vezes se casam
novamente com outros idosos ou pessoas mais novas.
Os termos de parentesco são usados em português, mas seu significado interno
é o "tradicional". Assim, um Xokleng diz "meu pai" se
referindo ao pai biológico, social, avós paternos ou sociais; somente a
genealogia da família ou o contexto explicam a quem ele se refere.
Geralmente a mãe recebe da filha seu primeiro filho homem para ser criado por
ela, dando a ele pelo menos um nome de seu avô. Este neto será seu arrimo na
velhice, auxiliando-a nas tarefas domésticas e na cobertura de despesas. Não há
distinção alguma entre parentes por nascimento ou adotados entre os Xokleng.
Como Santos (1973) já havia notado, o processo de nominação permanece
importante para a organização social Xokleng. As crianças, hoje, têm uma
combinação de vários "nomes bonitos" ("uh"): um nome
"secular" (português, norte-americano ou bíblico), um nome Xokleng e
o sobrenome do pai.
A exogamia dos grupos de nomes não é relevante atualmente. Há pessoas com a
mesma "marca" casadas entre si. Os desenhos corporais são um símbolo
de identidade dos Xokleng como um todo. Além disso os Xokleng os consideram
"uh", isto é, bonitos, e se pintam em determinadas ocasiões por razões
estéticas, sem tomarem em consideração a correspondência entre a pintura
corporal e sua "marca".
Os rituais de hoje se resumem praticamente aos cultos da Assembléia de Deus,
que mobilizam, quase diariamente, grande parte da comunidade. Há vários grupos
musicais religiosos, que cantam hinos evangélicos na língua xokleng. Hoje os
cultos são o que há de lúdico e de participação em massa na TI. As reuniões
políticas também são um fórum que reúne muitos, mas não são consideradas
lúdicas. Existem times de futebol nas diversas aldeias, mas a sua participação
é restritas às crianças e a alguns adolescentes, raramente envolvem adultos
por ferir os dogmas pentecostais que incorporaram. Os Xokleng só se encontram,
além dos cultos, para a comemoração do Dia do Índio (19 de abril), quando
cada aldeia faz sua festa com discursos, hino nacional, recitação de versos em
Xokleng e português pelas crianças. Muitos vestem tangas, se pintam, usam
cocares e colares; muita carne é assada sobre um grande buraco aberto no chão.
Na festa de 1998, alguns Xokleng da aldeia Bugio fizeram o mon, uma bebida
fermentada de mel com xaxim, usada nos rituais de iniciação dos jovens, e que
não era preparada, por livre iniciativa, desde os anos 30.
Em caso de morte, é feito um culto especial. Há vigília na casa do morto, ou
nas igrejas evangélicas, para que seu espírito siga seu caminho e não venha
arrebatar mais ninguém. O morto é enterrado com a cabeça voltada para o
poente e todos os seus pertences íntimos enterrados com ele ou queimados.
Cultura material. O médico Simoens da Silva,
que esteve entre eles em 1930, observou que tanto os homens como as mulheres
Xokleng fabricavam panelas e talhas de barro cozido, apenas com riscos gravados
por impressões digitais, de cor negra ou parda; usavam canoas de madeira de lei
e jacás para transporte de mercadorias; faziam balaios pequenos, para guardar
cinzas mortuárias; cestos revestidos de cera virgem para transporte de água;
longas lanças de madeira, com aguçadas pontas de aço de dois gumes; cordas
finas de samambaia, para cintos de suspensão do pênis; colares de coco e miçangas;
redes de pesca e tangas. Faziam grandes arcos de madeira de lei e flechas de vários
tipos. Os botoque de pedra e de madeira, para o lábio inferior dos homens, também
foram encontrados.
Hoje a cultura material dos Xokleng é produzida para uso imediato. Tangas e
colares se destinam somente às festas do Dia do Índio, sendo jogadas fora após
o uso. Há pequena produção de artefatos para o comércio. As mantas de urtiga
que as mulheres teciam não são mais produzidas. Os únicos instrumentos
musicais ainda confeccionados e utilizados são os chocalhos, usados para cantar
canções rituais de conteúdo quase que totalmente desconhecido para os mesmos.
Hoje em dia, por serem crentes, os homens Xokleng usam cabelos curtos, calças e
camisas de colarinho, e as mulheres, cabelos longos, saias compridas e blusas.
Cosmologia e mitologia. Acreditavam os Xokleng
em espíritos (ngaiun) e fantasmas (kupleng), que habitavam as árvores,
montanhas, correntezas, ventos e todos os animais, pequenos ou grandes.
Encontrar os espíritos podia ser perigoso; ou bom, se oferecessem ajuda na caça.
Acreditavam que os animais têm um espírito-guia que os controla e protege,
permitindo ou não aos homens matá-los. Um homem também podia adotar um espírito
criança e colocá-lo no ventre de sua mulher, para que nascesse.
Desde 1950, os Xokleng foram se convertendo à Assembléia de Deus. Diante do
Pentecostalismo, reformularam suas antigas crenças e práticas religiosas, à
luz de uma nova realidade sociocultural, sem perder sua identidade.
O mito Xokleng da criação do homem continua a ser contado. Nele vários
personagens heróicos surgem de diferentes direções, reúnem-se para festejar
e criam animais a partir de árvores e troncos. Inspiradas nas formas e desenhos
presentes na pele destes animais, surgiram as diferentes "marcas", ou
desenhos corporais dos grupos exogâmicos.
Entre outros mitos ou "lendas" ainda lembrados, há o do dilúvio, que
conta como uma chuva ininterrupta fez seus antepassados migrarem sucessivamente
para o platô, para os cumes das montanhas e finalmente para o topo das árvores,
onde se alimentavam de parasitas, folhas, larvas, insetos e frutas. Passado o
dilúvio, os homens voltaram para as planícies e vales, mas muitos lá ficaram
por terem se acostumado. Por isso, dizem, hoje existem os macacos, filhos dos
homens que ficaram nas árvores.
Apesar das imposições e receios dos líderes da Assembléia de Deus, os mitos
estão sendo recontados, escritos em cartilhas e passados para as crianças.
Xamanismo. Segundo Henry, a ação curativa do
xamã se reduzia à sua família imediata. A formação era dada por um familiar
próximo, e ninguém se gabava de seus poderes xamanísticos.
Segundo Gioconda Mussolini (1980), as técnicas terapêuticas consistiam,
principalmente, no contraste entre quente e frio, imposição das mãos e extração
do corpo de elementos do mal, sobrenaturais ou não, que causam o sofrimento. Na
etiologia Xokleng das doenças, é central a idéia de um agente alienígena que
vem e devora o corpo e a alma. Doenças e morte também podem ser causadas por
relações sexuais proibidas, com pessoas e/ou espíritos. O aprisionamento da
alma, por seres sobrenaturais, conduzia também à morte.
Darcy Ribeiro afirma que, logo após o contato, os Xokleng tentaram tratar e
curar as novas doenças trazidas pelos "brancos", através do
exorcismo dos seres sobrenaturais que as causavam. Vendo que seus esforços eram
em vão, começaram a classificar as novas doenças de doenças dos zug, isto é,
dos brancos, e assim os xamãs perderam sua credibilidade.
Atualmente, boa parte do trabalho médico exercido pelos xamãs foi passado para
as mãos dos pastores evangélicos, também Xokleng, que expurgam os "demônios"
através de rituais de (des)possessão, que lembram as técnicas de curar
utilizadas pelos antigos xamãs. Durante os cultos, as pessoas aplaudem, gritam,
jogam-se no chão, pulam e imitam animais. É importante notar como estes
pastores restabelecem o vínculo religioso e ritual com os fenômenos de doença,
que pareciam ter desaparecido após o contato.
Funai, governo & ongs. Dentro da TI
Ibirama há hoje uma enfermaria da FUNAI, um posto administrativo, oito escolas
básicas mantidas pelos municípios circunvizinhos. O estado de Santa Catarina
mantém vários monitores bilíngües nas escolas. Discute-se a organização de
uma grade curricular diferenciada para os Xokleng, ainda não concretizada.
De 1996 para cá, o posto indígena (subordinado à Delegacia Regional da Funai
em Curitiba) saiu de dentro da TI Ibirama e localiza-se no município de José
Boiteux. A FUNAI está dilapidada, cada vez mais sem recursos e sem pessoal
qualificado. O atendimento de saúde passou para o SUS.
Ao lado das doenças endêmicas, como a tuberculose, a desnutrição e as doenças
sexualmente transmissíveis, em 1988, os Xokleng se tornaram o primeiro grupo
indígena, identificado no Brasil, a apresentar casos de HIV/AIDS.
Darcy Ribeiro afirma que nos anos 30 os Xokleng se definiam como católicos,
participavam das festas, batizavam suas crianças e estabeleciam laços de
compadrio com colonos italianos da região. Somente na década de 50 é que os
missionários da Assembléia de Deus entraram na TI. No final dos anos 80 e início
dos 90, o Conselho de Missão entre os Índios (COMIN), da Igreja Luterana
(IECLB), iniciou alguns trabalhos de apoio aos índios. O Conselho Indigenista
Missionário (CIMI), católico, limitou sua ação aos Cafuzos, e tenta agora
uma nova aproximação com os Xokleng. Grupos de professores e estudantes da
FURB (Fundação Universidade de Blumenau) e da UFSC (Universidade Federal de
Santa Catarina) executam pesquisas e tentam dar apoio às lutas e reivindicações
dos Xokleng.
A TI Ibirama está abandonada, com seus recursos naturais dilapidados,
"ilhada" por um enorme lago de contenção formado pela Barragem Norte
e pela próspera colonização teuto-brasileira que a ignora. Nos dois últimos
anos, os Xokleng aumentaram a pressão para que a Funai reestude os limites da
TI, com inúmeros conflitos com colonos e madeireiros, noticiados com freqüência
pelos jornais de Santa Catarina. A Funai criou um grupo de trabalho em 1997 e
outro em 1998 para estudar a ampliação da área.
Nota sobre as fontes. O registro da etnografia
Xokleng da TI Ibirama se iniciou com o livro Jungle People, de Jules Henry,
antropólogo da Columbia University. Antes deste livro, encontram-se várias notícias
e reportagens muito fragmentadas sobre os Xokleng em jornais de Blumenau ou de
relatórios de viagens. A conferência de José Maria de Paula, do SPI,
proferida no XX Congresso Internacional de Americanistas (1922), divulgou
internacionalmente a existência dos Xokleng e apresentou alguns dados etnográficos.
Simoens da Silva (1930) esteve com os Xokleng e escreveu um livro a respeito. O
restante da produção acadêmica entre os anos 40 e 60 é todo baseado em dados
secundários. Darcy Ribeiro esteve entre os Xokleng em 1950, publicou alguns
dados em Os Índios e a Civilização (1979). Gioconda Mussolini (1980)
sistematiza alguns dados sobre as práticas curativas e explicações para os
fenômenos de doença entre os Xokleng com base nos dados colhidos por Henry. O
antropólogo Sílvio dos Santos tem contribuído, desde 1970, com a produção
de dados historiográficos sobre o contato, o impacto provocado pela Barragem
Norte e com seu livro de memória visual sobre os Xokleng.
Gregory Urban trata em sua tese de doutorado em antropologia pela University of
Chicago (1978) de questões relativas à organização social do grupo, fez
alguns estudos sobre a língua xokleng e, em 1996, um trabalho que segue uma
linha mais fenomenológica e interpretativa. A antropóloga Thereza Bublitz, da
FURB, tem estudado o idioma, mas não tem dados publicados.
Questões relativas ao impacto trazido por epidemias, situação de saúde,
medicina e religião entre os Xokleng foram estudadas por Flávio Wiik em sua
pesquisa de campo entre os Xokleng (1997/98); seus resultados, parcialmente
publicados, aparecerão mais detalhadamente em sua tese de doutorado em
antropologia pela University of Chicago.
Quanto aos Xokleng de Calmon, da TI Rio dos Pardos, praticamente não há dados
etnográficos, com exceção de algumas menções em Santos (1973) e Pereira
(1995).
Flavio Braune Wiik
Doutorando de The University of Chicago
fbwiik@midway.uchicago.edu
julho de 1999
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